sexta-feira, 29 de setembro de 2023

DIÁLOGO DE LULA E CAMPOS NETO FAZ BEM PARA ECONOMIA

Editorial O Globo

Encontro entre os dois contribui para restabelecer normalidade institucional esperada numa democracia

O encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, marca o restabelecimento da normalidade institucional. Lula parece ter reconhecido a necessidade de respeitar o responsável por uma instituição independente que, até o momento, tem cumprido sua missão. A sociedade brasileira espera que a reunião marque uma virada, encerrando a fase de críticas descabidas a Campos Neto, algumas até de ordem pessoal.

Indicado por Jair Bolsonaro, presidente que promoveu a independência do BC, Campos Neto sempre trabalhou de olhos na missão da instituição, não com base em cálculos políticos. Com os diretores do Comitê de Política Monetária (Copom), começou a subir os juros diante da escalada da inflação que se avizinhava no início de 2021, como efeito da pandemia. Entre as grandes economias, o Brasil foi um dos primeiros a iniciar o ciclo de alta. Em um ano e seis meses, o BC subiu a taxa básica de 2% para 13,75%. Em pleno ano eleitoral, manteve alto o custo do dinheiro, apesar da pressão de bolsonaristas. Contrariou quem defendia uma postura mais leniente com a inflação para aquecer a economia e, assim, favorecer a reeleição de Bolsonaro.

Lento, como toda ação dos bancos centrais, o trabalho surtiu efeito. A inflação, que batera em 10% em 2021, foi paulatinamente caindo para perto do teto da meta. Isso permitiu ao BC começar em agosto o ciclo de queda nos juros (atualmente eles estão em 12,75%). A previsão é que a inflação de 2023 fique pouco acima do teto e a de 2024 pouco abaixo. Mesmo com o cenário mais tranquilo, a situação exige cuidado.

A média dos cinco núcleos inflacionários monitorados pelo BC – que reúnem os preços menos voláteis, traduzindo a persistência da inflação – vem desacelerando, mas continua alta. No acumulado de 12 meses, caiu de 5,30% para 5,10%. Outra preocupação é com o comportamento dos preços no setor de serviços. A previsão é que continuem a cair, mas o ritmo da desaceleração parece incerto. A demanda sofre pressão da força no mercado de trabalho, dos programas de transferência de renda e do declínio no preço de alimentos, que aumenta a renda e a demanda por serviços.

A incerteza do cenário internacional é outro ponto de atenção e, na reunião entre Lula e Campos Neto, foi o tema que suscitou maior consenso. A alta do petróleo, dos juros americanos e a desaceleração chinesa criam uma situação desafiadora, em que ambos concordam ser necessário manter um rumo consistente na política econômica para poder resistir melhor a eventuais choques.

De todos os desafios do governo, o maior é a situação fiscal. Reina no mercado o ceticismo sobre as chances de o governo cumprir a meta de zerar o déficit nas contas públicas em 2024 e de conquistar superávits nos dois últimos anos do mandato de Lula. A desconfiança atrapalha o trabalho do BC por afetar as expectativas de inflação. Na reunião, Campos Neto mais uma vez salientou a necessidade de zelo com os compromissos fiscais, mesmo diante das pressões políticas por mais gastos. O tema poderá voltar a opor governo e BC. Espera-se, agora, que o diálogo ocorra de forma mais civilizada, com base em dados técnicos e sem tentativas de criar barulho e confusão.

Bookmark and Share

Nenhum comentário:

Postar um comentário