sexta-feira, 20 de outubro de 2023

ARGENTINA VAI ÀS URNAS EM BUSCA DE SAÍDA PARA A CRISE

Editorial Valor Econômico

O modelo econômico atual, estatista e intervencionista, promovido pelo kirchnerismo (a ala esquerda do peronismo), fracassou

A Argentina vai às urnas neste domingo em meio a incertezas e profundamente dividida sobre que rumo tomar. O país está atolado numa grave crise econômica e social, e precisa agir com rapidez para evitar um colapso financeiro. Mas as definições provavelmente terão de esperar até o segundo turno, em novembro. O candidato dito libertário, Javier Milei, parece estar um pouco à frente na disputa pela Presidência, mas seu favoritismo vem diminuindo.

Os três principais candidatos a presidente são: o peronista Sergio Massa (atual ministro da Economia, de esquerda), o ultraliberal Milei e a direitista Patricia Bullrich (ligada ao ex-presidente Mauricio Macri). Para vencer no primeiro turno, é preciso obter 45% dos votos, ou então 40% desde que, nesse caso, a distância para o segundo colocado seja de ao menos dez pontos percentuais.

A divulgação de pesquisas de intenção de voto na Argentina é proibida na semana que antecede as eleições. As últimas sondagens apontavam um provável segundo turno entre Milei e Massa. Das dez principais pesquisas divulgadas neste mês, Milei liderava em sete, enquanto Massa estava à frente nas outras três. Seis delas indicavam empate técnico em primeiro lugar entre os dois. Em apenas uma, Bullrich aparecia numericamente em segundo lugar. Nessas dez sondagens, Milei tinha de 25,2% a 35,5% das intenções de voto; Massa, entre 26,2% e 32,3%; e Bullrich, entre 20,9% a 28,9%.

As pesquisas na Argentina precisam ser vistas com cautela, depois do fracasso nas previsões para prévias partidárias, em agosto. À época, Milei era dado em terceiro lugar, com cerca de 20% das intenções de voto, mas acabou vencendo, com quase 30%. Bullrich, que liderava as pesquisas, ficou em terceiro.

Todas as pesquisas sugerem, porém, que Milei agregou pouco ou nenhum apoio desde as prévias partidárias. Isso possivelmente tem a ver com dois fatores. O primeiro é o receio dos argentinos em relação ao seu programa de governo, considerado radical, que contempla medidas como um corte profundo de gasto público (em meio a uma recessão) e apostas arriscadas, como o fechamento do Banco Central e uma dolarização completa da economia.

Além da desconfiança em relação a suas propostas, Milei parece estar sofrendo ainda com a agressividade de sua campanha eleitoral. Em entrevista em setembro, ele disse que não fará negócios com países comunistas e socialistas, e citou China e Brasil (os dois principais parceiros comerciais da Argentina, além de Pequim ser um dos maiores credores do país). Milei tem também um histórico de ataques ao papa Francisco, que é argentino. Ele já afirmou que o papa “encarnou o maligno” e que tem “afinidades com ditaduras sangrentas”. No encerramento da campanha eleitoral, o economista Alberto Benegas Lynch, uma espécie de guru de Milei, sugeriu que a Argentina deveria romper relações com o Vaticano enquanto perdurar o “espírito totalitário” atribuído ao papa Francisco.

São declarações que talvez ajudem a mobilizar a base de apoio mais extremista de Milei, mas que podem prejudicar seu eventual governo e que corroboram uma certa imagem de pessoa desequilibrada, que assusta boa parte do eleitorado argentino, inclusive do empresariado.

No caso de um segundo turno entre Milei e Massa, as pesquisas indicam leve favoritismo do libertário, mas sugerem que ele tem dificuldade de atrair uma ampla maioria dos eleitores de Bullrich, como seria o esperado.

Seja quem for o vencedor, terá de lidar com um Congresso dividido. As eleições de domingo vão renovar pouco mais de metade da Câmara e um terço do Senado. A expectativa é que peronismo e macrismo continuem sendo as duas maiores forças políticas no Legislativo, com a bancada de Milei logo atrás. A formação de uma maioria será difícil, especialmente para a aprovação de medidas polêmicas.

O quadro político regional também está fragmentado. Das 23 províncias argentinas, a maioria já elegeu seus governantes. O peronismo ficou com sete, a oposição macrista, com sete, e partidos locais, com quatro. Assim, caso Milei seja eleito presidente, ele também não terá apoio fácil nas províncias. Isso é particularmente importante na questão da segurança pública, já que os governos locais controlam a polícia, e espera-se uma onda de protestos contra as prováveis medidas de ajuste do próximo governo.

A Argentina está em recessão e deverá fechar o ano com queda do PIB entre 2,5% e 3%. Para 2024, economistas locais preveem que a situação deve piorar ainda mais no primeiro semestre. A inflação em 2023 deverá ficar perto de 200%. A pobreza no país está crescendo e já atinge 40% da população.

O modelo econômico atual, estatista e intervencionista, promovido pelo kirchnerismo (a ala esquerda do peronismo), fracassou. O governo do presidente Alberto Fernández acabou e está apenas tentando sobreviver até a passagem de bastão, em dezembro. Um swap cambial com a China, anunciado nesta semana, deve permitir que o governo chegue a dezembro sem um colapso financeiro, mas esse risco vai persistir por todo o começo do ano que vem. A agonia lenta e exasperante da Argentina parece longe de acabar.

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