sexta-feira, 20 de outubro de 2023

DRAMA CAUSADO PELA SECA A RIBEIRINHOS NA AMAZÔNIA EXIGE AÇÃO URGENTE

Editorial O Globo

Governos federal e estadual precisam coordenar ajuda a 800 comunidades inacessíveis por terra ou pelos rios

Diante da seca histórica na Amazônia, as autoridades têm tomado as providências de praxe. O governo liberou R$ 400 para custear abrigo temporário de cada morador que não pode voltar para casa pela falta de transporte fluvial. Deslocou brigadistas para combater os incêndios que se multiplicam pela vegetação ressecada. O vice-presidente Geraldo Alckmin, em viagem à região, garantiu que não faltará energia e prometeu dragar os rios Solimões e Madeira para facilitar a navegação.

A dragagem ainda levará tempo para tornar os rios novamente navegáveis. A gravidade da situação exige ação urgente. No estado do Amazonas, 55 municípios e pouco mais de meio milhão de habitantes são afetados de alguma forma pela seca — a pior já registrada em Manaus. O Rio Negro, que banha a cidade, havia alcançado a vazante recorde de 13,63 metros em 24 de outubro de 2010, na pior seca desde que medições começaram a ser feitas, em 1902. Agora, a marca foi alcançada já em 16 de outubro. O Negro continua a baixar 13 centímetros por dia. O transporte de cargas gerado na Zona Franca de Manaus é prejudicado porque embarcações maiores não podem mais operar no porto da cidade. Em novembro, deverá começar a temporada de chuvas, mas ela pode ser insuficiente para recuperar por completo o nível dos rios amazônicos.

A seca dramática transformou alguns trechos em grandes areais, inviabilizando o principal meio de transporte amazônico, com reflexos profundos na economia da região e na vida de incontáveis habitantes que não podem trabalhar para seu sustento. É o que acontece com 5 mil famílias da Floresta Nacional de Tefé, da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã e da Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá, a 700 quilômetros de Manaus.

Reportagem do GLOBO relatou a situação crítica das comunidades de Amanã, situada onde o Rio Japurá se une ao Solimões. Há nela 35 comunidades isoladas sem água potável. Alcançar o leito dos rios, que se distanciou das comunidades, é uma empreitada arriscada. Há casos em que é necessário percorrer até dois quilômetros, descer pelos barrancos equilibrando-se em tocos para andar com lama às vezes até a cintura, com o risco de ser atacado por arraias que se escondem no lodo. Produtores locais de farinha de mandioca não têm como vender sua produção nem conseguem trabalhar.

O governo estadual tem distribuído cestas básicas, kits de higiene, água potável e medicamentos à população, mas o alcance da ajuda é prejudicado pela impossibilidade de usar os rios para chegar às comunidades ribeirinhas afastadas. A sensação dos moradores da floresta é que foram esquecidos. Para ter uma dimensão da crise dos ribeirinhos, há 800 comunidades situadas em unidades de conservação inacessíveis por terra ou rios. É preciso que o governo mobilize socorro aéreo. Daí a necessidade de coordenação entre órgãos estaduais e federais. É urgente as autoridades darem à seca a dimensão que ela tem para os povos da floresta.

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