Ao laurear PMs da Operação Escudo, Tarcísio dobra aposta numa política de segurança fracassada
Durante a solenidade pelos 53 anos de criação das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), no dia 16 passado, o governador Tarcísio de Freitas condecorou os policiais que atuaram na Operação Escudo, realizada na Baixada Santista entre o fim de julho e o início de setembro. A láurea concedida aos policiais da Rota, entre outras pessoas, é lamentável, mas não causa surpresa – afinal, Tarcísio já disse ter ficado “extremamente satisfeito” com o resultado daquela operação.
Para lembrar: a Operação Escudo tinha o objetivo de prender os assassinos do soldado da Rota Patrick Bastos Reis, morto enquanto patrulhava uma área do Guarujá em 27 de julho. Mas o que seria uma justa investida do Estado após um crime gravíssimo logo se converteu numa sanguinária vingança de policiais infensos às regras do Estado Democrático de Direito. Com um total de 28 mortos, além de uma série de indícios de violações de direitos humanos, a Operação Escudo se tornou a operação policial mais letal do Estado desde o massacre do Carandiru, em 1992. Esse foi o resultado que Tarcísio julgou digno de ser laureado.
Por mais descabida que seja – pois, afinal, a Operação Escudo está longe de ser um exemplo de boa atuação policial –, a medalha no peito dos policiais da Rota é o menor dos problemas. Bem mais preocupante do que a condecoração dos agentes que participaram de uma operação maculada por suspeitas de execuções sumárias e violações de direitos e garantias fundamentais – ora sob investigação do Ministério Público – é o fato de o governador paulista ter dobrado a aposta numa política de segurança pública fracassada.
Ao invés de prêmios, a Operação Escudo deveria ensejar uma profunda reflexão sobre os modos de agir da Polícia Militar (PM), em particular da Rota, com vistas ao aprimoramento técnico contínuo da corporação e, sobretudo, à delimitação do policiamento ostensivo às estritas balizas legais. O Estado não é vingador; o que separa policiais de bandidos é justamente o apego dos primeiros às leis.
Essa concepção de segurança pública centrada no bangue-bangue já se revelou não apenas infrutífera, como também muito perigosa para a própria sociedade, ainda que muitos cidadãos possam sentir uma falsa sensação de segurança sempre que criminosos, ou mesmo suspeitos, são mortos pela polícia em circunstâncias não raro suspeitas.
Durante a celebração pelo 53.º aniversário da Rota, criada num momento de recrudescimento da repressão aos opositores da ditadura militar em São Paulo, Tarcísio afirmou que, constantemente, ouve “apelos da população” para “colocar a Rota na rua”, lembrando o bordão do notório Paulo Maluf. Decerto não são poucos os paulistas que gostariam de ver nas ruas uma polícia ainda mais truculenta do que a própria Rota em meio à insegurança causada pela violência urbana. Contudo, um governante responsável – basta isso, não precisa ser um estadista – deve ser capaz de agir com racionalidade, o que passa por reconhecer e corrigir os erros de seus subordinados, e não glorificá-los.

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