quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

ATAQUE DE TRUMP À ALIANÇA ATLÂNTICA GERAM INSTABILIDADE

Editorial O Globo

Ao lançar diatribes contra a Otan, virtual candidato republicano sabota principal pilar da paz global

Desde que se lançou na corrida para a eleição presidencial deste ano, Donald Trump retomou suas provocações contumazes. O último alvo foi a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), acordo militar entre Estados Unidos, Canadá e países europeus. Em comício de campanha, ele relembrou a pergunta do líder de “um grande país” da Europa quando era presidente: “Se não pagarmos e formos atacados pela Rússia, você nos protegerá?”. Trump disse que respondeu: “Não, eu não os protegeria. Na verdade, eu os encorajaria a fazer o que diabos quisessem”.

A declaração de Trump é lastimável por colocar em dúvida o artigo número 5 do tratado, segundo o qual um ataque a qualquer integrante da aliança deve ser encarado como ataque a todos. Isso significa que os países mais fortes se comprometem a defender os mais fracos quando agredidos. Esse poder de dissuasão tem evitado há décadas uma guerra entre países da Otan e a Rússia.

É verdade que o petardo de Trump contra a aliança atlântica poderia não passar de mais uma bravata dele. Afinal, apesar de todos os ataques, das inclinações isolacionistas e dos acenos explícitos de Trump ao russo Vladimir Putin durante seu governo, a Otan resistiu incólume. Com a agressão da Rússia à Ucrânia, até cresceu com a adesão de dois países nórdicos antes neutros (Suécia e Finlândia). Mas há indícios de que, desta vez, caso eleito, Trump terá mais poder para pôr em marcha seus desígnios. E de que, por força da guerra em curso na Europa, eles venham a ser testados.

Em recente entrevista, o ministro da Defesa da Dinamarca, Troels Lund Poulsen, constatou uma mudança nos cenários traçados no continente. Para Poulsen, não se pode descartar a possibilidade de a Rússia, que invadiu a Ucrânia justamente para evitar que ela entrasse na Otan, pôr à prova a solidariedade atlântica nos próximos anos, algo que não era cogitado no ano passado. “Está vindo à tona agora”, disse.

Trump encara a aliança atlântica como um negócio. Em 2006, os países da Otan concordaram em gastar no mínimo 2% do PIB em defesa. No primeiro ano da Presidência de Trump, apenas quatro dos 29 integrantes atingiam a meta. No último ano de governo, eram nove. Os gastos com defesa de europeus e canadenses saíram de US$ 277 bilhões em 2017 para US$ 314 bilhões em 2020. Trump vê os países que não cumprem a meta como “inadimplentes”. Mas, mesmo com a saída dele da Casa Branca, os europeus continuaram a aumentar o gasto, que alcançou US$ 356 bilhões em 2023. A razão é óbvia: a instabilidade gerada pela guerra na Ucrânia. A Polônia, com vasto histórico de agressões russas, investiu 3,9% do PIB em defesa no ano passado.

Por décadas, a tendência isolacionista no eleitorado americano era combatida por um esforço bipartidário. Se Trump vencer, ficará mais difícil. Ele já tem agido para bloquear um novo pacote de ajuda à Ucrânia no Congresso.

Os Estados Unidos detêm as armas mais poderosas do mundo e gerações de soldados com experiência em combate. O apoio europeu é um enorme ativo para dissuadir russos e chineses de ações militares. Não é preciso criatividade para imaginar o risco para o planeta do afastamento americano da Otan. Basta lembrar que ela tem mantido o mundo em estado de paz relativa — com vários conflitos regionais, mas sem enfrentamento direto de grandes potências — desde a Segunda Guerra.

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