Seis p* e dois f* numa fala de poucos segundos são algo
que não se ouvia nem nas piadas do Costinha ou em declarações da Dercy
Se estiver correto um estudo — publicado na revista Language
Sciences — que se propõe a desconstruir o mito da pobreza vocabular de quem usa
muito palavrão, o Brasil perdeu a chance de ter, com o fracasso do golpe de
2023, um governo de deixar no chinelo as mesóclises de Michel Temer,
o rebuscamento de Jânio Quadros e
o pernosticismo de José Sarney.
Com base nos arquivos divulgados pela Polícia
Federal, o coronel Reginaldo Vieira de Abreu poderia se tornar o cânone
para os que cultuam a fartura lexical. Em áudio para o general Mário Fernandes,
ele pontifica:
— O senhor me desculpe a expressão, mas quatro linhas é o
c*. Quatro linhas da Constituição é o c**.
A genitália masculina é evocada de duas formas — o que é até
relativamente pouco, se considerarmos que há cerca de 352 variações sobre esse
tema, mas um número bem significativo para apenas duas linhas de texto.
Estudioso dos nomes feios, o psicólogo
David Stillwell, da Universidade de Cambridge, afirma que eles podem ser
inapropriados, mas são também evidências de que alguém é honesto: assim como
não filtra a linguagem, tampouco filtrará suas opiniões. Dificilmente haveria,
nas hostes golpistas, criatura mais honesta que o general Mário Fernandes,
figura de proa da infausta quartelada:
— Tá na cara que houve fraude, p*. Tá na cara. Não dá mais
pra gente aguentar esta p*. Tá f*. Tá f*. E outra coisa: nem que seja pra
divulgar e inflamar a massa, pra que ela se mantenha nas ruas, e aí sim, p*,
talvez seja isso que o Alto Comando, que a Defesa quer. O clamor popular, como
foi em 64. Porque como o senhor disse mesmo, p*, boa parte do Alto Comando,
pelo menos do Exército, não tá muito disposto, né? Ou não vai partir pra
intervenção, a não ser que, p*, o start seja feito pela sociedade, p*.
Não é possível concluir se a hiperspermia vocabular do
general vem de sua paradoxal indignação contra a fraude (que ele sabe ter sido
forjada...) ou da masculinidade tóxica — mas seis p* e dois f* numa fala de
poucos segundos são algo que não se ouvia nem nas piadas do Costinha ou em
declarações da Dercy Gonçalves.
Não deve ter sido muito diferente o léxico usado por
petistas do primeiro escalão durante o voo de galinha da Lava-Jato, mas nada
ficou tão bem documentado para a posteridade. Exceto naquele panelaço de 2016,
quando a ex-primeira-dama disse, ao telefone, que queria que os coxinhas
“enfiassem as panelas no c*”. A ousada proposta de introdução, por via anal, de
utensílios domésticos só foi superada, oito anos depois, pela sugestão de outra
primeira-dama para que Elon Musk mantivesse
relações sexuais consigo mesmo.
Se, como escreveu Wittgenstein, “os limites da minha
linguagem são os limites do meu mundo”, que mundinho limitado esse da “rataria”
militar — e das primeiras-companheiras.
Mas é bom lembrar que o palavrão é uma violência simbólica,
permitindo que a agressividade seja expressa em palavras, não em tiro, porrada
e bomba. Vai ver, não foi a incompetência logística, mas o excesso de
obscenidades que nos salvou. Com tanto p*, c*, c** e f*, esgotaram-se o ímpeto
e a munição — e o golpe saiu pela culatra.
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