domingo, 12 de janeiro de 2025

É TAREFA URGENTE COMBATER AUMENTO DE CASOS DA DENGUE

Editorial O Globo

O ano de 2025 começa com previsões alarmantes sobre proliferação de doença letal e evitável

É preocupante o alerta feito pelo Ministério da Saúde a estados e municípios sobre o possível aumento de casos de dengue nos primeiros meses deste ano. Significa que uma situação que já é dramática pode se tornar ainda pior se as medidas necessárias não forem tomadas a tempo. Em 2024, diante de ações tíbias das autoridades sanitárias dos três níveis de governo, a doença se espalhou, batendo todos os recordes. Pelos números oficiais, foram 6.644.336 casos registrados — quase quatro vezes mais que no ano anterior — e 6.041 mortes (outras 875 estão sob investigação).

Projeções do Ministério para a temporada 2024-2025 estimam que os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Tocantins, Mato Grosso do Sul e Paraná poderão apresentar incidência maior do que no ano passado. Outra preocupação é que, apesar de os sorotipos predominantes ainda serem o DENV1 (73,4%) e o DENV2 (25,9%), o DENV3, para o qual a maior parte da população brasileira não tem imunidade, já circula em estados como Amapá, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Roraima e Pará.

O combate à doença tem se mostrado desafiador ao longo dos anos. Em fins de 2023, o governo federal incorporou ao SUS a vacina Qdenga, da farmacêutica japonesa Takeda. Foi um avanço, sem dúvida. Ela protege contra os quatro sorotipos de dengue e é aplicada em duas doses. Aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em março de 2023, começou a ser oferecida em fevereiro do ano passado. Embora tenha demonstrado eficácia e segurança na proteção contra a dengue, ainda não pode ser usada em larga escala, devido à capacidade limitada de produção. É distribuída apenas aos municípios que têm maior incidência da doença, sendo destinada prioritariamente ao público de 10 a 14 anos. Ainda não é uma estratégia que impacte os números da dengue.

É verdade que o Brasil tem boas perspectivas com uma outra vacina. O imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan, em parceria com os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), demonstrou 89% de proteção contra dengue grave e, segundo os desenvolvedores, apresenta eficácia e segurança prolongada por até cinco anos. Um dos aspectos positivos é que seria aplicado em dose única, facilitando a logística. Mas ainda está sob análise da Anvisa. Mesmo que seja aprovado rapidamente, como se espera, é improvável que comece a ser aplicado imediatamente, devido aos trâmites legais de incorporação ao SUS e às demandas de produção.

A dengue pode levar à morte, como comprovam os números. Com a escassez de vacinas, o combate à doença exige cada vez mais a velha e conhecida prática de eliminação dos focos do mosquito transmissor. Por décadas, o Brasil tem falhado nessa tarefa, como demonstram os números crescentes. Esse esforço depende das prefeituras, dos estados, do governo federal e também da população, uma vez que a grande maioria dos focos está localizada nas residências. O Ministério da Saúde deveria aumentar as campanhas educativas, fundamentais para esclarecer os cidadãos. Municípios e estados deveriam criar “batalhões” de agentes para ir de casa em casa inspecionar os focos. Enquanto não for possível vacinar maciçamente a população, esse trabalho básico ainda é a forma mais eficaz de combater o mosquito.

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