Mal saiu de uma das maiores crises de dengue da história,
o país acumula uma série de fatores que podem mergulhá-lo em um novo quadro de
disseminação exacerbada da doença e, consequentemente, mais mortes
O saber científico acumulado indica que as grandes epidemias
de dengue são espaçadas, dão-se em ciclos separados por dois a cinco anos.
Esses mesmos estudiosos alertam para a importância de considerar as
excepcionalidades. Os vírus surpreendem. E os humanos, também. Ao que parece, o
Brasil começa 2025 imerso em um cenário que foge à normalidade sanitária. Mal
saiu de uma das maiores crises de dengue da história, o país acumula uma série
de fatores que podem mergulhá-lo em um novo quadro de disseminação exacerbada
da doença e, consequentemente, mais mortes.
O primeiro deles é o ressurgimento do sorotipo 3 do vírus da
dengue. A Fiocruz detectou em 2023 a recirculação no país da variante que
estava fora de circuito havia cerca de 15 anos. Sabe-se que a reinfeção por
vírus diferentes aumenta o risco de agravamento da doença. Portanto, ao menos
6,4 milhões de brasileiros estão, agora, mais suscetíveis. Segundo o Ministério
da Saúde (MS), ao longo de 2024, o Brasil registrou 6.484.890 casos prováveis
de dengue — um aumento de 293% quando comparado a 2023. Considerando o apagão
de diagnósticos e assistência no auge da última crise, o grupo de vulneráveis é
certamente bem maior.
Também é desafiante a nova realidade climática, resultante
de uma combinação de eventos extremos que favorecem a dengue. Um estudo
da Universidade de Stanford divulgado em novembro indica que, hoje, quase 20%
dos casos da doença registrados no mundo podem ser decorrentes da crise
ambiental. Em áreas endêmicas com temperaturas entre 20ºC e 29ºC, que aceleram
a reprodução do Aedes aegypti, pode haver um aumento de 150% a 200% nos casos
de infecção nos próximos anos. O Brasil quebrou o recorde de temperatura em
2024, com a média de 25,02°C, teve um 2023 com 24,92°C e, analisando os
esforços locais e internacionais pela sustentabilidade do planeta, não deve ver
os termômetros arrefecerem em 2025.
Entra aí um terceiro fator que merece alerta neste começo de
ano. Trata-se também de um período de trocas de lideranças em áreas
estratégicas para o combate à dengue. De forma geral, 8% dos secretários de
saúde são substituídos mensalmente no país, segundo cálculos do Conselho
Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems). Logo após as eleições
municipais, a taxa de rotatividade aumenta, o que pode comprometer a
continuidade de ações preventivas e de assistência aos infectados. Não à toa,
em um encontro em outubro para discutir a temporada da dengue de 2025,
especialistas brasileiros (Fiocruz, FGV e MS) e estrangeiros defenderam a
criação de um sistema nacional de monitoramento do mosquito, buscando
padronizar a coleta de dados e a atuação de agentes públicos.
Empossados, os gestores se depararam ainda com a baixa
cobertura vacinal — a média é de que sete em cada 10 pessoas que aderiram à
imunização contra a dengue não estão com a carteira atualizada. A imunização
reduz o risco de hospitalização e óbito, que também bateu recorde em 2024:
foram 5.972, um crescimento de 406% em relação ao ano anterior.
Ainda que modelos preditivos indiquem que este verão será de
queda nas curvas da dengue, não há margens para relaxamento. Ao contrário.
Sobram elementos capazes de fazer com que, desta vez, a doença tenha um
sabático encurtado. Mesmo que atípicos, são fatores conhecidos. Portanto,
passíveis de intervenção.
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