Mudanças são urgentes, mas é incerto se a articulação
entre moderados de direita e de esquerda as entregará
A Alemanha precisa de mudanças. Os alemães querem mudanças.
Se serão no sentido da renovação ou de mais confusão, dependerá da habilidade
política do novo governo.
Os riscos se refletiram nas ambivalências das eleições. Em
um sentido, os eleitores votaram por estabilidade; em outro, por transformações
expressivas. A tradicional “grande coalizão” entre moderados de direita e de
esquerda deve governar de novo, agora liderada pelos conservadores da
democracia cristã (CDU). Mas seu crédito está baixo. A CDU, liderada por
Friedrich Merz, venceu, mas foi seu segundo pior desempenho no pós-guerra, só
acima do de 2021. Os social-democratas, que lideram o governo e devem compor o
próximo, tiveram seu pior resultado em 137 anos. De seus dois parceiros no
governo, os verdes perderam votos, e os liberais nem sequer passaram a linha de
corte e estão fora do Parlamento.
O comparecimento às urnas foi alto, 82,5%, mas a irritação
com a política tradicional também: os radicais de direita da Alternativa para a
Alemanha (AfD) dobraram seus votos e serão a segunda força no Parlamento; os
radicais da esquerda se revigoraram.
O governo precisa robustecer a defesa, responder às
ansiedades com a imigração e reativar uma economia que não cresce há cinco anos
e se encaminha para o terceiro ano de recessão, ao mesmo tempo em que os
fundamentos do sucesso alemão no pós-guerra desmoronam: o livre comércio é
espremido entre o protecionismo americano e o capitalismo de Estado chinês,
enquanto a segurança europeia é abandonada pelos EUA e ameaçada pela Rússia.
Recusando o centrismo de sua antecessora na CDU, Angela
Merkel, Merz se moveu à direita e prometeu mais assertividade sobre a
imigração, contra a Rússia e em favor da independência da Europa ante os EUA.
Na economia, ele quer mais competitividade com menos impostos e regulações. Mas
o país precisa investir em infraestrutura e defesa defasadas, o que implica
decisões indigestas para a direita, como flexibilizar o teto da dívida, e para
a esquerda, como revisões nos gastos sociais e em políticas superaquecidas de
energia verde que estão desidratando a indústria.
Os social-democratas são refratários a mudanças pró-mercado
e mesmo a CDU está dividida. O próprio Merz é menos incisivo em relação às
políticas energéticas e ao teto da dívida, e para revê-lo precisará fazer
concessões para lograr uma maioria constitucional.
A AfD foi o único partido que conclamou decisivamente
revisões das políticas energéticas e imigratórias. Mas Merz deixou claro que
ela é incompatível com a CDU. De fato, se há um alarmismo exagerado em relação
às “extremas direitas”, no caso da AfD é justificado: suas afinidades com o
nazismo são reais e, contrariamente ao que dizem os trumpistas, é hostil aos
EUA e simpática à Rússia.
Em resumo, o eleitorado está impaciente e ansioso por
mudanças à direita. Elas são urgentes, o tempo é curto, e não é certo que a
nova coalizão as entregará. A política tradicional alemã ganhou uma nova chance
de revigorar o “motor” da Europa e superar suas ameaças existenciais. Mas pode
ser a última.
Nenhum comentário:
Postar um comentário