Estados Unidos podem expulsar os imigrantes ilegais, sem
documentação. Mas pela mediação de uma instância jurídica
Ao fazer o seu discurso de posse como novo presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump enunciou
o início de uma “era de ouro” para o país, com o intuito de tornar a “América
grande novamente”, se contrapondo assim à “decadência” promovida no país pela
administração Biden. Além de humilhar publicamente este, presente à cerimônia,
com desprezo e crueldade incomuns, Trump começou a delinear sua política contra
a imigração, marcada por virulência e fúria inéditas.
Logo em seguida iniciou-se a caça implacável a imigrantes em
todo o país. Os agentes do governo passaram a bater de porta em porta em busca
deles em suas casas, além de persegui-los em escolas, igrejas e possíveis
locais de trabalho. Ao lado disso, imigrantes evitavam falar em suas línguas de
origem para não ser denunciados, presos e enviados imediatamente ao país de
nascimento. Portanto uma atmosfera pestilenta de caça às bruxas foi instituída
em larga escala, para expulsá-los violentamente do território americano.
É claro que os Estados Unidos podem
expulsar os imigrantes ilegais, sem documentação. Mas pela mediação de uma
instância jurídica, o que não está acontecendo. Ao ser pegos, os imigrantes vão
diretamente para os aeroportos para ser repatriados. Além disso, viajam nos
aviões de repatriação em condições indignas, são algemados nas mãos e
acorrentados nos pés.
Ao lado disso, os Estados Unidos pretendem enviar parcela
dos imigrantes a países “amigos”, como El Salvador e Argentina, para
ser tratados como criminosos e alocados em prisões. A prisão de Guantánamo
seria um outro destino possível, lá sendo aprisionados sem julgamento, como
ocorreu na época da destruição das Torres Gêmeas em Nova York,
quando os Estados Unidos promoveram a guerra contra o terrorismo. Implica dizer
que a perseguição aos imigrantes ilegais, como criminosos, se transformou em
novo capítulo da guerra contra o terror.
Por todas essas práticas assinaladas, os Estados Unidos de
Trump funcionam efetivamente como “Estado fora da lei”, como enunciou Jacques
Derrida na obra “Estado fora da lei” (“Rogue State”), destruindo os alicerces
do Estado Democrático de Direito.
Pretender expulsar do país os estudantes estrangeiros que se
manifestaram contra os ataques de Israel em Gaza, enviando como
criminosos para ser aprisionados nos ditos países “amigos”, é mais um ato de
Estado que se realiza “fora da lei”. Abole a liberdade de expressão e
manifestação, nesse quadro de horrores de desconstrução da democracia
americana, na “era de ouro” imposta por Trump.
*Joel Birman, psicanalista, é professor da Universidade
Federal do Rio de Janeiro
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