Trump também ameaçou taxar em 100% os países do Brics —
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul —, se quiserem “brincar com o
dólar”
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, determinou
tarifas recíprocas a países que cobram taxas de importação de produtos
americanos. Os memorandos assinados nesta quinta-feira, porém, são menos
formais do que o “tarifaço” contra parceiros comerciais, entre os quais o
Canadá, o México e o Brasil, cujo aço e alumínio passarão a pagar 25% de
imposto para entrar no mercado norte-americano. Os principais alvos são países
com os quais os EUA têm deficit na balança comercial — ou seja, gastam mais com
importações do que recebem com exportações. Mas esse não é o caso do Brasil,
que importa mais do que exporta.
Intitulado Plano Justo e Recíproco, o
memorando protecionista de Trump é uma tentativa de fazer a roda da história
voltar para trás. Parte da ideia de que os EUA estão sendo ultrapassados pela
China por causa do livre-comércio e da globalização, dos quais a União Europeia
e outros países, como os já citados, se beneficiaram muito mais. Entretanto,
foram os norte-americanos que transferiram as fábricas para a China em busca de
mão de obra mais barata. Não contavam com a possibilidade de os chineses ultrapassarem
o estágio de produção de bens de consumo de baixa composição tecnológica e
transitarem para a economia do conhecimento e da alta tecnologia.
O comunicado da Casa Branca também adverte a União Europeia,
que pode virar marisco na disputa entre os EUA e a China. Trump se queixa de
que os europeus exportam crustáceos e moluscos para os Estados Unidos, mas
proíbem importações dos mariscos de 48 estados americanos. Além disso, impõem
uma tarifa de 10% sobre carros importados, enquanto os EUA cobram apenas 2,5%.
Trump também ameaçou taxar em 100% os países do Brics —
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul —, se quiserem “brincar com o
dólar”. É que o grupo discute a possibilidade de criar uma moeda alternativa
para suas trocas comerciais. Atualmente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
preside o Brics, cuja próxima reunião será no Brasil. Por óbvio, a volta do
protecionismo norte-americano será o tema central do encontro. Depois do aço e
do alumínio, o etanol brasileiro também entrou na mira de Trump.
O “tarifaço” do presidente dos EUA pode causar uma guerra
comercial de grande escala e desajustar a economia global, a começar pela
inflação norte-americana. As tarifas aumentam o preço dos insumos básicos e
espalham reajustes por toda a cadeia produtiva. O Federal Reserve (Fed), o
banco central dos Estados Unidos, terá dificuldade de atingir a meta de 2% de
inflação. O índice de preços ao consumidor voltou para a casa dos 3% em
janeiro, com alta mensal de 0,5%.
Os juros dos EUA já estão na faixa de 4,25% a 4,50%.
Entretanto, isso atrai investidores e valoriza o dólar frente a outras moedas.
O cenário pode afetar o Brasil, porque uma taxa mais alta faz os títulos
públicos norte-americanos renderem mais. Isso atrai investidores, que levam
recursos para os EUA. Por aqui, o dólar voltou a subir nesta quinta-feira.
Razões ideológicas
As tarifas recíprocas são taxas aplicadas entre países ou
empresas de forma equivalente. O conceito envolve a aplicação de tarifas
idênticas ou proporcionais entre as partes para garantir equilíbrio e evitar
distorções competitivas. O protecionismo é uma estratégia recorrente na
história dos EUA. No caso de Trump, parte de uma visão ideológica que mitifica
o passado, como sintetiza o slogan Make America Great Again (“Torne a América
grande novamente”). Desde o século XIX, o país oscilou entre
Em 1816, a primeira grande tarifa protecionista foi criada
para barrar a concorrência britânica. A “Tarifa das Abominações” (1828), que
sobretaxou todos os produtos europeus, favoreceu o Norte industrializado, porém
prejudicou as exportações de algodão do Sul. Durante a Guerra Civil
(1861-1865), a União manteve tarifas altas para financiar o Exército e proteger
indústrias. A Tarifa McKinley, de 1890, também aumentou impostos sobre
importações de forma generalizada, para incentivar a produção nacional. A Tarifa
Dingley , sete anos depois, dobrou a aposta.
Somente em 1913, com a Tarifa Underwood, no governo Woodrow
Wilson, houve uma abertura comercial. Entretanto, a Grande Depressão (1929)
levou ao retorno do protecionismo. Mas o protecionismo extremo dos anos 1930,
com a Tarifa Smoot-Hawley, para proteger empregos nos EUA, provocou retaliação
de outros países, colapso do comércio global e agravamento da Grande Depressão.
Após a guerra, os EUA deram uma guinada tarifária e lideraram a criação do GATT
(Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, 1947) para reduzir barreiras comerciais
globais.
Nos anos 1980, o protecionismo estava de volta: o governo
Reagan aplicou tarifas seletivas contra importações de eletrônicos e automóveis
japoneses. O Acordo Nafta (1994), que criou uma zona de livre-comércio entre
EUA, México e Canadá, era protecionista em relação aos demais países. Na crise
do mercado imobiliário de 2008, também houve aumento de medidas protecionistas
em setores estratégicos. No seu primeiro mandato, Trump (2017-2021) retomou um
protecionismo agressivo, especialmente contra a China. Biden manteve algumas
tarifas, mas buscava equilibrar protecionismo com alianças internacionais. Nada
se compara, porém, ao que está acontecendo agora.

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