Com a volta de Donald Trump à Presidência dos Estados
Unidos, a trajetória da direita no mundo é ascendente; aqui o governo de
esquerda está em baixa
Quando o ex-ministro José Dirceu foi defenestrado da Casa
Civil pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no auge da crise do Mensalão,
em 16 de junho de 2005, parecia que o governo petista nem terminaria o mandato,
tal a pressão que sofria no Congresso, na opinião pública e na mídia. No dia
seguinte, José Dirceu voltou à Câmara, para a qual havia sido eleito deputado
mais votado do país, num contexto em que sua cassação já parecia irreversível.
O petista estava resignado com a situação, disposto a lutar
por seu mandato, mas sem muitas esperanças: “Eu sei que vão cassar meu mandato,
mas vou lutar por ele”. Indagado sobre a situação do PT, delicadíssima, por
causa do depoimento de Duda Mendonça, que admitiu ter recebido recursos para
campanha no exterior, fez um comentário que a vida viria a comprovar algumas
vezes: “O PT vai sobreviver, por causa do Lula e da sua militância”. Foi o que
aconteceu, Lula foi reeleito e elegeu Dilma Rousseff, que foi reeleita depois
da crise de 2013, mas não entendeu o recado das ruas e sofreu o impeachment. O
petista voltou ao poder nas eleições de 2022, depois de condenado pela
Lava-Jato, passar mais de 500 dias preso e ter a condenação anulada pelo
Supremo Tribunal Federal (STF).
Dirceu passou três anos e meio na cadeia,
somadas as três prisões que sofreu, sem nunca aceitar as acusações. Agora, está
de volta à cena política, com todos os seus direitos políticos recuperados no
Supremo. Ao completar 79 anos, retornou aos bastidores da política nacional e
ainda exerce grade influência no PT, porém sua volta ao estado-maior do
presidente Lula é improvável. Talvez seja mais fácil um voo de fênix de São
Paulo para a Câmara dos Deputados, em Brasília.
Como Dirceu, nove entre 10 quadros históricos do PT têm
consciência de que o presidente Lula vive o seu pior momento, mas pouco podem
fazer, a não ser lutar para que o PT adote uma política mais ampla. Lula não os
escuta mais. O acesso ao presidente da República é controlado por Rui Costa
(Casa Civil); seu discurso político, por Sidônio Palmeira (Comunicação). Janja
da Silva, a primeira-dama, cuida da rotina de Lula e influencia certas decisões
políticas.
Aumenta a desaprovação
O levantamento da Quaest, divulgado nesta quarta-feira,
confirma a tendência apontada em pesquisas anteriores (Datafolha, Paraná e
CNT/MDA) de queda da popularidade de Lula, reprovado por 50% ou mais dos
eleitores em 8 estados pesquisados. A desaprovação supera os 60% em SP, RJ e
MG, e a aprovação cai mais de 15 pontos na BA e em PE, estados onde Lula venceu
as eleições em 2022.
A Quaest, contratada pela Genial Investimentos, entre 19 e
23 de fevereiro, abrange Bahia, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de
Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. A margem de erro é de três pontos em
sete estados, com a exceção de SP, em que é de dois pontos para mais ou menos.
Em São Paulo, a situação é dramática. A desaprovação de Lula
subiu 14 pontos, de 55% em dezembro de 2024, para 69% no levantamento divulgado
nesta quarta-feira. A aprovação caiu de 43% para 29%. No Rio de Janeiro, 64%
desaprovam a gestão de Lula, enquanto 35% aprovam. Em Minas Gerais, a
desaprovação chega a 63%, crescimento de 16 pontos em relação aos 47%
registrados em dezembro de 2024. A aprovação caiu 17 pontos: de 52% para 35%.
Esse é o Triângulo das Bermudas da política brasileira, onde
naufragam candidaturas e surgem os surfistas de ondas gigantes. Para agravar a
situação, a retaguarda de Lula também está vulnerável. Na Bahia, a desaprovação
superou numericamente a aprovação pela primeira vez: 51% desaprovam, enquanto
47% aprovam o governo federal. Houve crescimento de 18 pontos entre os que
avaliam negativamente o petista e queda de 19 pontos entre aqueles que aprovam.
Pernambuco, sua terra natal, tem uma situação também
inédita: a desaprovação supera a aprovação por 50% contra 49%, dentro da margem
de erro, que é de três pontos para mais ou menos. Em dezembro de 2024, a
desaprovação era de 33%, aumento de 17 pontos para a pesquisa desta quarta,
enquanto a aprovação era de 66% e sofreu queda para 49%, recuo de 16 pontos.
É cedo ainda para concluir que Lula virou um pato manco e
precisa sair de cena. Sua volta ao poder em 2022 se deu em condições muito mais
difíceis. Como em 2005, Lula tem a caneta cheia de tinta, o governo é a forma
mais concentrada de poder; mesmo um mau governo, normatiza, arrecada e coage.
Não à toa, o ex-presidente Jair Bolsonaro, com todo o ônus dos mais de 700 mil
mortos na pandemia, quase conseguiu se reeleger.
Dois fatores adversos são determinantes na conjuntura: uma
mudança estrutural de contexto político, econômico e social, para a qual Lula
não estava preparado; e seu erro de direção política, que desconectou o governo
daqueles 40% que formavam a antiga “maioria silenciosa” da população, que já
não é tão silenciosa assim por causa das redes sociais. Com a volta de Donald
Trump à Presidência dos Estados Unidos, a trajetória da extrema-direita no
mundo é ascendente, e a esquerda perde força. Aqui pode não ser diferente.

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