Nos últimos meses, o governo Lula está em decadência
notável, e muito rapidamente
O mito analógico está fragilizado diante dos problemas que a
era digital trouxe para o palco político? As pesquisas de opinião divulgadas
nos últimos dias, especialmente a Quaest/Genial de ontem, mostram uma percepção
de que os dois primeiros anos do terceiro governo de Lula repetem programas e
histrionismos que estão com data vencida. O público, que voltou ao teatro para
ver uma peça nova de seu ídolo, não se contenta mais com o que é mostrado em
cena, quer coisas e caras novas no proscênio.
Os oito estados escolhidos pela equipe de Felipe Nunes para
a pesquisa resumem os centros que devem decidir a eleição de 2026, e a situação
do governo é francamente decadente. Nos três maiores colégios eleitorais — Rio,
São Paulo e Minas —, a desaprovação está na casa dos 60%, e em estados do
Nordeste, que Lula dominava eleitoralmente, a ponto de se eleger em 2022 por
causa da região, a aprovação já está abaixo da reprovação.
Nos últimos meses, o governo Lula está em
decadência notável, e muito rapidamente. A pesquisa Quaest tem um detalhe de
longo prazo: Lula não está apenas mal avaliado nos maiores colégios eleitorais,
mas tem em São Paulo um adversário crucial, o governador Tarcísio de Freitas,
muito bem avaliado. Em Minas, também o governador Zema é um player importante
na sucessão, com boa aprovação. A baixa popularidade de Lula em Minas mostra
que a disputa em 2026 será muito difícil.
Não se elege presidente quem não ganhar em Minas, dizem as
pesquisas dos últimos muitos anos. O estado espelha o país de maneira exemplar:
tem região industrializada, tem parte na Sudene, tem agropecuária, tem
eleitorado urbano forte, é próximo do Rio. São Paulo é outro ponto crucial.
Quem não tiver votação forte em São Paulo não vence a eleição. O PSDB já foi
dono desse eleitorado, que agora foi para a direita com Tarcísio, mantendo o
antipetismo. Fernando Henrique venceu Lula duas vezes no primeiro turno porque
obteve votação espetacular em São Paulo. Aécio Neves ganhou em São Paulo com
votação do mesmo tamanho, mas perdeu em Minas para Dilma, que também era
mineira e conseguiu se impor.
O candidato que perder nos dois estados está praticamente
fora da disputa. Lula começa a decair no Nordeste, onde era muito forte. Terá
de fazer um esforço muito grande este ano, com ações muito melhores do que tem
feito. Ir para televisão a cada 15 dias, sem ter nada para falar, como
aconteceu agora, é muito arriscado, aborrece as pessoas. No afã de recuperar a
popularidade, ele se arrisca muito.
Outro dia desafiou seus adversários a ir para a rua se
quiserem vencê-lo, mas, nas últimas vezes em que isso aconteceu, foi um
fracasso. Bolsonaro reuniu muito mais gente do Lula. Também não é mais esse o
campo do PT, que já mobilizou multidões, por causa dos sindicatos, hoje
decadentes. Empregados não querem saber de sindicato, e eles não mobilizam mais
ninguém. O PT precisa atualizar sua comunicação digital, porque não está
atingindo o público que pretende.
A percepção dos entrevistados pela Quaest é que o governo
parece fragilizado, correndo atrás da popularidade, mas sem força para impor
suas decisões, diante da opinião pública mobilizada pela direita e do Congresso
majoritariamente oposicionista. A visibilidade quase única de Lula expõe o
presidente a um desgaste, pois ele se baseia no passado para garantir um futuro
que não chega.
A figura icônica de Lula foi rebaixada pela agressividade de Bolsonaro e seus seguidores. A oposição tucana sempre foi feita em alto nível e, até mesmo na crise do mensalão, não soube se aproveitar da situação. Lula já havia sofrido rachadura em sua imagem quando foi preso, mesmo que a narrativa de perseguição política tenha sido vitoriosa formalmente. Nas campanhas eleitorais, Bolsonaro tem enfrentado Lula sem meias palavras, tratando-o como político ladrão “descondenado”, e não como um mito político. Brevemente, pode estar na cadeia onde Lula já esteve. Talvez assim apareça algum novo caminho.

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