Lula despreza alertas de pesquisas que podem ajudá-lo a
evitar derrota em 2026
Numa cena famosa do livro “O Sol também se levanta”, de
Ernest Hemingway, um personagem pergunta a outro como foi que ele faliu. O
sujeito responde: “De duas maneiras. Primeiro, gradualmente, e então de
repente”. Para o governo Lula,
os resultados da última pesquisa Quaest mostrando
que a reprovação
ao governo já superou a aprovação nos oito principais estados
brasileiros é uma espécie de “gradualmente”.
Mês após mês, vários institutos de pesquisa vêm indicando
que o mau humor com o governo só aumenta, apesar de o PIB ter
crescido 3%, de o desemprego estar em queda e a massa salarial em alta. Esse
estado de coisas se repete até em regiões onde Lula é forte eleitoralmente, e o
governo está bastante presente com seus programas sociais, como o Nordeste.
Embora se saiba que a inflação é um dos
principais motivos, a insatisfação com os preços não é nova. O que parece
justificar tamanho tombo na aprovação — comparável apenas ao sofrido por Dilma
Rousseff depois das manifestações de junho de 2013 — é a crise
do Pix, no
início de janeiro, movida pela campanha da oposição sugerindo a fiscalização
dos pagamentos acima de R$ 5 mil visava a cobrar mais impostos.
Desde então, os governistas se dividiram. Parte diz que se
trata de maré passageira e que iniciativas como o PAC ou a vinda
do novo ministro da Secretaria de Comunicação Social, a Secom, ainda podem
revertê-la.
Outra ala defende que é preciso reagir rápido, melhorando a
articulação política e aumentando o diálogo com o mercado, com o agro e com os
evangélicos, para resistir ao avanço da direita sobre o eleitorado. Essa
guinada, porém, depende de uma reforma ministerial que já vem sendo anunciada
desde o ano passado e até agora não aconteceu.
A substituição de Nísia
Trindade por Alexandre
Padilha não muda o panorama — e o pouco que se sabe até agora do que
deve ser a reforma é que petistas serão trocados por outros petistas.
O maior obstáculo para sair do impasse é o próprio Lula, que
não só empurra as decisões com a barriga, como também parece não ver tanta
necessidade assim de mudança. Em seu discurso no evento de 45 anos do PT, no fim
de semana passado, ele enfileirou indicadores positivos e trilhões em
investimentos, disse que nenhum outro fez tanto na área social e repetiu pela
enésima vez que 2025 será o ano da colheita — não porque vá fazer qualquer
mudança substantiva, e sim porque a comunicação do governo será diferente.
“Um governo que não dá informações não tem como o militante
defender, e agora nós vamos dar as informações”, afirmou.
Para Lula, sua verdadeira guerra é contra as plataformas
digitais e as fake news. Mas em 2025 isso mudará, porque, segundo ele, “a
verdade vai derrotar a mentira no Brasil e no
mundo”.
Embora a menção às fake news e à mentira seja uma referência
óbvia ao massacre nas redes sociais no caso do Pix, Lula preferiu escolher
outro exemplo para a plateia de petistas. Num desagravo a José Dirceu,
João Vaccari Neto e Delúbio Soares — condenados e presos por corrupção em
diferentes processos do mensalão e do petrolão, mas tratados pelo presidente
como “vítimas da mentira” —, afirmou:
“Eles primeiro contam mentiras para tentar nos destruir. Eu
sei o que eles fizeram comigo”.
Claro que não se espera que Lula apague da memória o período
que passou na prisão. Mas, para quem acabara de dizer que o governo precisa se
conectar com o futuro, seu discurso ainda está amarrado demais a um passado de
que muitos brasileiros ainda guardam amarga lembrança. Sugere, ainda, que ele
está mais preocupado com os seus e fornece muito pouco horizonte a quem já está
impaciente.
No palco do PT, o presidente disse que não será fácil
derrotá-lo em 2026. Pode ser, mas aí também os números da Quaest trazem um
alerta importante. Em quase todos os cenários de segundo turno, Lula ganharia
dos adversários em 2026, com duas exceções. Uma é Jair
Bolsonaro, que está inelegível e não pode disputar. Outra, Tarcísio
de Freitas (Republicanos-SP)
— que não se apresentou para jogo, mas é o preferido dos donos do dinheiro e
tem a vantagem de ser desconhecido de fatia considerável de eleitores.
Claro que é cedo para vaticinar o final desse enredo, ainda
mais porque o Brasil é o país das reviravoltas políticas. Mas não convém a Lula
continuar teimando contra a realidade. Como diria o personagem de Hemingway,
quando você faz questão de ignorar o “gradualmente”, fatalmente uma hora
encontrará seu “de repente”.

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