A capital deixará de ser anômala periferia central e a
facilidade dos deslocamentos poderá revitalizar a administração estadual e
devolver ao centro a função cultural
O exame do traçado da rede de transportes de passageiros
sobre trilhos em funcionamento e em projeto na cidade de São Paulo e nas
regiões adjacentes, em diferentes níveis de extensão em direção ao interior e
ao litoral, revela que estamos a caminho de grandes transformações na função da
capital.
Será fácil notar que está em acelerado desenvolvimento um
novo desenho situacional da capital com implícita reformulação de suas funções.
Está em andamento a possibilidade da revolução urbana como tem acontecido em
outros países, tendo por referência cidades de grande porte.
Em 1990, foi criado o Consórcio Municipal
do Grande ABC, que na prática decorreu das peculiaridades de problemas que não
são locais e pedem interpretações e soluções compartilhadas. O crescimento
urbano e dos problemas consequentes havia gerado uma nova territorialidade
política, diferente da do município. Na verdade, o que ocorreu no subúrbio
industrial estende-se por toda a região metropolitana de São Paulo.
A recente adesão do município de São Paulo ao Consórcio
amplia e consolida a tendência da mudança. De certo modo, o subúrbio anexou a
capital e redefine a concepção de capital de Estado que nos vem do 15 de
novembro de 1889. Mas, dialeticamente, a capital se redefine. Já não poderá
continuar a ser capital com estrutura político-administrativa do que eram as
cidades do interior e muitas ainda são.
São Paulo tem tamanho de metrópole, mas não tem uma cultura
política de metrópole. A periferização da cidade em decorrência das anomalias
da urbanização patológica, a minimização da sua cultura de metrópole, erudita e
monumental, reduziram São Paulo ao banal e fragmentário.
Um monumento como o dedicado ao Duque de Caxias, na praça
Princesa Isabel, na concepção transformadora de cidade e de metrópole, não é
para enaltecer o duque, mas para revelar e enaltecer a competência artística de
Victor Brecheret e na obra de arte a mediação que nos diz o que a cidade é.
Essas mudanças na rede do transporte sobre trilhos serão não
só político-administrativas, mas também sociais e culturais.
Além disso, estão previstas reformulações e retomadas do
transporte ferroviário não mais para demoradas viagens ao interior. Os trens
rápidos intercidades estenderão o limite da região metropolitana para Santos,
São José dos Campos, Campinas e Sorocaba. A muitos será possível morar numa
dessas cidades e trabalhar em São Paulo ou vice-versa.
Os municípios da Grande São Paulo, por sua vez, ficarão
perto do centro e sua autonomia municipal, na prática, será redefinida. Novas
funções e novas concepções político-administrativas surgirão. A
territorialidade do governar será outra.
Como em alguns países da Europa, surgirá o Governo
Metropolitano, mais abrangente e complexo do que as prefeituras de região
metropolitana, com um legislativo que supere as câmaras municipais, não raro
toscas e limitadas. E os atuais municípios se tornarão distritos
metropolitanos, limitados nas funções e mais funcionais.
A complexidade municipal terá que ser reduzida, câmaras
municipais serão, portanto, reestruturadas, prefeitos terão menos importância
do que têm hoje. Vereadores representarão a sociedade de vizinhança.
Decorrentes das mudanças, a administração de São Paulo, a
municipal e a estadual, significativamente, já está voltando para o centro da
cidade. Essa era uma preocupação do governador José Serra, que planejava
devolver o governo do Estado do Palácio dos Bandeirantes para o Palácio dos
Campos Elíseos.
Certamente a capital deixará de ser anômala periferia
central em que se transformou com a decadência que a abateu durante a ditadura.
A facilidade dos deslocamentos poderá revitalizar a administração estadual e
devolver ao centro a função cultural própria das metrópoles. Nelas, o centro
tem a função mediadora de civilizar a vida cotidiana, de libertá-la da rotina
embrutecedora de meramente reproduzir as relações sociais.
O centro tem a função de proteger a cidade contra a
banalização na mera função de feira-livre de bugigangas, de quinquilharias e
mesmo de religiões e seitas de rua, difusoras do medo a Satanás. Escapuliram
dos templos e usurparam o lugar do conhecimento erudito, perderam a dimensão do
profético e do possível. Nesse sentido, essas transformações nos libertarão
desse Satanás que nos manipula com a difusão do medo de ser quem podemos ser.
De conhecer e desfrutar a cidade como lugar de encontro e não de desencontro.
A urbanização patológica terá que dar lugar à revolução
urbana, a reordenação do espaço da cidade da conformidade como espaço da cidade
do inconformismo crítico, socialmente libertador e emancipador.

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