O pai da família que foi levada à Câmara para pressionar pelo projeto de anistia aos presos do 8 de Janeiro rompeu a tornozeleira eletrônica que portava e é considerado foragido. Ezequiel Ferreira Luis também tem um rifle e uma pistola registrados em seu nome.
O que aconteceu
O bolsonarismo escolheu como símbolo do projeto da anistia
aos presos pelo 8 de Janeiro um fugitivo da Justiça. Os parlamentares investem
na estratégia de humanizar os presos, com o uso de suas famílias, para garantir
o apoio da sociedade à proposta.
Ezequiel Ferreira Luis rompeu a tornozeleira eletrônica
assim que recebeu a ordem de prisão. Caminhoneiro e pai de seis filhos, o
morador de Ji-Paraná (RO) tem tem 43 anos e estava em liberdade provisória após
receber o benefício da Justiça.
O histórico judicial de Ezequiel registra a seguinte
cronologia:
8 de janeiro de 2023: prisão dentro do Palácio do Planalto;
17 de janeiro de 2023: decretação da prisão preventiva;
7 de agosto de 2023: certificação da liberdade provisória;
14 de maio de 2024: expedição da ordem de prisão;
28 de maio: inclusão na lista de foragidos.
A ordem de prisão segue em aberto até hoje no Banco Nacional
de Medidas Penais e prisões. Após quebrar a tornozeleira eletrônica, nunca mais
foi encontrado e está na lista de criminosos foragidos.
O caminhoneiro foi condenado pelo STF em março do ano
passado a 14 anos de prisão. Ele foi considerado culpado por tentativa de
abolição do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado,
associação criminosa e deterioração de patrimônio público.
“O denunciado [Ezequiel] seguiu com o grupo que ingressou
no Palácio do Planalto, local fechado para o público externo no momento dos
fatos, empregando violência e com objetivo declarado de implantar um governo
militar.”
Trecho da denúncia do Ministério Público
Porte de arma
Consulta à lista de pessoas autorizadas a andar armadas
revela que Ezequiel tem duas armas em seu nome. A relação abaixo foi retirada
do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, órgão do Ministério da
Justiça:
Pistola PT 380;
Rifle semiautomático.
De acordo com a delação do tenente-coronel Mauro Cid, os
golpistas contavam com pessoas com porte de arma para impedir a posse de Lula.
O ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL) contou à Polícia Federal que os
conspiradores acreditavam que este grupo faria um levante contra um governo
petista.
“O denunciado [Ezequiel] destruiu e concorreu para a
destruição, inutilização e deterioração de patrimônio da União, fazendo-o com
violência à pessoa e grave ameaça, emprego de substância inflamável e gerando
prejuízo considerável.”
Trecho da denúncia do Ministério Público
Instrumentalização da emoção
Deputados bolsonaristas estão usando famílias de presos para
comover a população. A ideia é expor a situação de famílias de presos de 8 de
Janeiro para tentar convencer a sociedade que as penas são injustas.
Na terça, uma mulher com seis filhos foi levada para uma
entrevista coletiva na Câmara dos Deputados. Ela chorou, mencionou a
dificuldade de criar os filhos sozinha. Tudo foi relatado com um bebê de dez
meses no colo dela.
Antes, Jair Bolsonaro havia postado um vídeo dela com as
crianças. Durante a captação das imagens, houve cuidado para mostrar a mulher
dando de comer para o bebê.
Defesa alega inocência
Adrielle Lima, advogada de Ezequiel, alegou inocência dele.
"Não há suporte probatório ou indiciário mínimo que respalde a peça
acusatória oferecida", escreveu na defesa do cliente durante o processo
judicial.
A defensora afirmou que Ezequiel não estava nas caravanas financiadas por bolsonaristas. Adrielle justificou que o cliente foi a Brasília devolver o carro que uma outra pessoa alugara em Ji-Paraná e decidiu entregar em Brasília, uma distância de 2.151 km.
Chegando à capital federal, resolveu "explorar a
cidade". A Esplanada dos Ministérios chamou atenção e Ezequiel foi parar
na manifestação "sem qualquer intenção de participar ativamente" da
invasão.
A Polícia Militar tem outra versão. O caminhoneiro foi preso
no interior do Palácio do Planalto, que fora destruído por manifestantes que
pediam golpe de Estado, incluindo Ezequiel.
A reportagem não conseguiu contato direto com a defesa de
Ezequiel. O espaço está aberto a manifestação.

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