No médio e longo prazos, para atrair talentos para o
ensino, será necessário oferecer melhores salários e mais oportunidades de
progressão
Além da meia-entrada, somos também o País das bolsas e,
agora, do Pé-de-Meia. 54 milhões recebem o Bolsa Família, o programa Pé-deMeia
para o ensino médio distribuiu, em 2024, cerca de 4 milhões de benefícios, a um
custo aproximado de R$ 12 bilhões, e, recentemente, o Ministério da Educação
lançou programa similar para alunos dos cursos de licenciatura, de formação de
professores. A novidade é que parte do dinheiro fica acumulada para só ser
entregue a quem termina o curso. Postas as duas meias, quem sabe a educação
brasileira agora andará melhor?
Nada contra dar algum dinheiro a quem tem
pouco, sobretudo quando se gasta tanto com coisas inúteis. Mas, além do impacto
fiscal, é preciso também ver se os programas cumprem seus objetivos. Num artigo
anterior, eu disse duvidar de que o Pé-de-Meia para o ensino médio teria o
efeito esperado de reduzir a evasão escolar e melhorar o desempenho estudantil.
A evasão se dá, sobretudo, quando jovens mais pobres, da rede pública, chegam
aos 18 anos e já ficaram para trás, sem entender nem se motivar pelo que é ensinado,
e não veem perspectiva na corrida de obstáculos que é concluir o ensino médio
tradicional, fazer o Enem e tentar entrar numa faculdade. Não me parecia, e
continuo duvidando, que R$ 200 por mês e um bônus ao fim do curso vão alterar
muito essa realidade. O que precisaria ser feito, e ficou pelo caminho, seria
uma reforma aprofundada no ensino médio, criando alternativas efetivas de
formação geral e profissional.
O novo Pé-de-Meia parte da constatação de que, nos países em
que a educação é de qualidade, os professores são recrutados no terço superior
dos que passam pelos diferentes sistemas de avaliação. No Brasil, seriam os que
conseguem 700 pontos ou mais na média do Enem e optam por cursos em
universidades públicas que, além de gratuitos, garantem uma boa renda – entre
R$ 5 mil e R$ 10 mil por mês para engenheiros, R$ 13 mil e R$ 18 mil para
médicos, R$ 8 mil para advogados. Para os que não conseguem, sobretudo mulheres
mais pobres vindas de escolas públicas, uma opção são os cursos de licenciatura
para ensinar na educação básica, em que o rendimento varia de R$ 4 mil a R$ 5
mil mensais.
O programa pretende lidar com isso oferecendo uma bolsa de
R$ 1 mil por mês para quem consegue mais de 650 pontos no Enem, opta por um
curso de licenciatura presencial e se compromete a trabalhar por cinco anos na
rede pública. Candidatos que conseguem atingir essa nota – menos de 5% dos
milhões que fazem o Enem a cada ano – tendem a vir de famílias de renda mais
alta, os pais têm diplomas universitários, e estudaram em escolas particulares.
Uma dúvida é se este estímulo seria suficiente para convencer essas pessoas a
optar por uma carreira cujo rendimento é, ao longo da vida, metade ou menos do
que outras que também estão a seu alcance. Outra dúvida é se o número de
pessoas optando por essa bolsa faria alguma diferença. Segundo o Ministério da
Educação (MEC), as universidades públicas estão oferecendo, este ano, 69 mil
vagas para licenciaturas, com 310 mil inscritos, dos quais 19.339 tinham nota
igual ou superior a 650 pontos no Enem (lembrando que cada candidato pode se
candidatar a dois cursos diferentes). Uma gota d’água, comparado com 2,2
milhões de professores de educação básica no País, e 1,2 milhão de estudantes
matriculados em licenciaturas no setor privado sem precisar passar pelo Enem.
Não há solução fácil para o problema da má qualificação dos
professores, que não tem a ver somente com a má qualidade dos cursos de
licenciatura, se são presenciais ou à distância, mas sobretudo com a bagagem
precária com que a grande maioria chega ao ensino superior. Por muitos anos
mais, estes serão os professores que teremos. Além de melhorar a qualidade dos
cursos de formação, é preciso reforçar os processos de seleção e mentoria de
novos contratados e apoiar a todos com supervisão apropriada, materiais
didáticos e protocolos de ensino que garantam que seus estudantes terão
interesse e aprenderão o que precisam. São práticas conhecidas que só dependem
de determinação para ser adotadas.
No médio e longo prazos, para atrair talentos para o ensino,
será necessário oferecer melhores salários e mais oportunidades de progressão.
Com menos crianças nascendo, já é possível reduzir o número de turmas e pagar
mais a menos professores. Será necessário também abrir a carreira, criando
diferentes portas de entrada e saída, e não somente as licenciaturas
tradicionais, sobretudo para professores de matérias específicas no fundamental
II e no ensino médio, e de cursos de formação profissional. Com processos mais
rápidos e práticos de qualificação e supervisão pedagógica, é possível atrair
pessoas que dificilmente escolheriam passar a vida como professores da educação
básica, mas que teriam interesse em ensinar como parte ou etapa de uma vida
profissional mais ampla, e seriam exemplos e modelos para seus alunos. Médicos
ensinando biologia, engenheiros ensinando computação, economistas ensinando
estatística, técnicos ensinando a lidar com equipamentos.
Tudo isso, no entanto, é muito mais difícil e complicado do
que, simplesmente, botar mais um dinheiro no pé-de-meia, que pode não dar
certo, mas muita gente gosta.

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