Quanto às agendas mais estruturais, sou pessimista.
Entendo que, daqui em diante, o governo só conseguirá fazer o ‘minimum
minimorum’
O ano acaba de começar para o mundo de Brasília. Passadas as
festividades do Carnaval, o Orçamento será debatido no Congresso Nacional. As
pressões por medidas populistas chegam de todos os lados: mudança na faixa de
isenção do Imposto de Renda, programas sociais e despesas em geral.
Já estamos em março e o País segue sem lei orçamentária.
Para estes casos, as regras vigentes permitem ao governo executar um porcentual
da proposta enviada ao Legislativo. São muitos os problemas a equacionar, como
sempre, e falta a compreensão de que o dinheiro acabou e o tacho já foi
raspado.
A tarefa mínima é cumprira meta estipulada para o resultado
primário (receitas menos despesas, exceto juros da dívida). A meta é zero, com
banda inferior, menos R$ 31 bilhões. Além disso, parte relevante dos
precatórios, no valor de R$ 44,1 bilhões, pode ser excluída do resultado para
fins de verificação da meta.
Em síntese, a meta provavelmente buscada
pelo governo é um déficit de R$ 75,1 bilhões ou 0,6% do PIB. O número está bem
distante do esforço necessário para atender às condições de sustentabilidade da
dívida pública em prazo razoável.
Na proposta orçamentária, as receitas estão infladas.
Prevê-se, por exemplo, receita proporcionada pela majoração da Contribuição
Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) e do Imposto de Renda nos Juros sobre
Capital Próprio (JCP). Essas medidas já morreram. No caso da segunda, aliás,
precisaria ter sido aprovada no ano anterior, conforme a Constituição.
A superestimativa é de R$ 60 bilhões. Assim, com receitas
menores e despesas um pouco maiores que as previstas pelo governo, o cenário da
Warren prevê uma necessidade de contingenciamento de mais de R$ 30 bilhões. A
saber, o contingenciamento é uma espécie de corte de gastos em que a tesoura
incide sobre as despesas não obrigatórias ou discricionárias. Não custa
ressaltar que essa contenção serviria apenas à entrega de um déficit de R$ 75,1
bilhões (e não da meta zero).
É inescapável evitar que novas bombas fiscais e antigas
pressões se materializem, inclusive no seio das revisões a serem promovidas na
peça orçamentária. Os goleiros serão os principais jogadores, na Fazenda e no
Planejamento, daqui até as eleições.
A liturgia do Orçamento compõe-se de etapas muito claras. A
Comissão Mista de Orçamento (CMO) do Congresso terá de apreciar o texto do
relator-geral. Este também será analisado e apreciado pelo plenário. Antes,
caso o Executivo considere necessário (e será), o instrumento para solicitar
alterações ao relator é o ofício.
Nos últimos dias, a imprensa já divulgou algumas informações
sobre os programas Vale Gás e Pé-de-Meia, especialmente sobre como incorporar
eventuais gastos adicionais no Orçamento anual. Além disso, há os mencionados
problemas pelo lado das receitas. As despesas obrigatórias, por sua vez,
contemplam subestimativas ou superestimativas, respectivamente, nos gastos
previdenciários e com folha salarial. Mesmo problema que apontamos na proposta
orçamentária para 2024, vale dizer.
No dia 22 de março, faça chuva ou faça sol, o Executivo é
obrigado, por lei, a apresentar o relatório bimestral. Esse documento serve ao
acompanhamento da execução orçamentária e subsidia eventuais contingenciamentos
e/ou bloqueios de despesas previstas.
Quando a arrecadação se mostra inferior às estimativas, por
exemplo, providencia-se o contingenciamento, garantindo o cumprimento das metas
fiscais. O mesmo ocorre no caso do limite de gastos. Se as despesas estão
indicando rompimento do limite, deve-se bloquear o volume necessário para
evitar o estouro.
Em 2025, este primeiro relatório bimestral será ainda mais
relevante. Em um cenário otimista, se o Orçamento já estiver aprovado e
sancionado, o relatório servirá para que o Executivo promova o ajuste inicial
necessário ao restabelecimento de uma credibilidade mínima junto à opinião
pública. Alternativamente, se a proposta ainda estiver tramitando no Congresso,
o relatório servirá para prestar contas sobre a realidade da arrecadação e do
gasto no primeiro bimestre.
Diferentemente do que ocorreu em 2024, quando a arrecadação
foi surpreendendo positivamente, a cada relatório bimestral, a tendência no ano
corrente é oposta. É recomendável que se corrija a superestimativa da
arrecadação, logo de cara, para evitar que as pressões sobre o gasto
discricionário, as emendas e outros se transformem em compromissos, depois,
irreversíveis. Disso dependerá o cumprimento da tarefa mínima que comentei
acima, e sobre a qual escrevi na penúltima coluna neste espaço ( Estadão, 13/02/2025).
Quanto às agendas mais estruturais, sou pessimista. Entendo
que, daqui em diante, o governo só conseguirá fazer o minimum minimorum. E já
será muito, considerando-se tantos atores jogando contra, clamando por uma
verdadeira enfiada de pé na jaca e colocando o presidente da República para
fazer populismo, semanalmente, nos seus pronunciamentos.
A agenda fiscal estrutural já ficou para 2027. O próximo
governo não poderá perder tempo e terá de realizar ajustes à altura de um
primeiro ano de mandato. Tema, aliás, para futuro artigo.

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