Não esquecer foi a grande virtude do Brasil. Tornar a
história conhecida do mundo foi o maior prêmio que o filme deu a nós e à
democracia brasileira
Entre
a noite em que Walter Salles recebeu o Oscar, em Los Angeles, e o dia,
no Rio de
Janeiro, em que Rubens Paiva foi sequestrado pela ditadura militar do seio
da sua família, passaram-se 54 anos, um mês e dez dias. Nesse tempo, Eunice e
seus cinco filhos enfrentaram tudo à espera do corpo que não veio. Hoje o país
está imerso nessa história como se ela tivesse acontecido ontem. Não esquecer
foi a grande virtude do Brasil. Tornar a história conhecida do mundo foi o
maior prêmio que o filme deu a nós e à democracia brasileira. A estatueta de
“Ainda estou aqui” chega no momento exato em que precisamos dela.
Assisti à cerimônia do Oscar com minhas netas mais novas,
Manuela, 13, e Isabel, 11. Quando Rubens Paiva morreu, o pai delas, Vladimir,
não havia nascido. Elas viram o filme, falam com intimidade sobre Eunice,
Rubens e seus filhos, como se os conhecessem. O fio que trouxe a história até
nós foi tecido, primeiramente, pelas mãos de Eunice. Depois, pela literatura de
Marcelo Rubens Paiva. Por fim, pelo cinema brasileiro. Mais de cinco milhões de
pessoas viram o filme, incontáveis famílias conversaram sobre esse tema nos
seus encontros. Isso não é pouco num país em que o desmonte da memória é uma
estratégia para escapar dos temas incômodos.
Depois do seu breve e discreto discurso, em
que jogou luz sobre Eunice e as Fernandas, Walter
Salles, na sala de imprensa, alertou para a fragilidade da democracia,
“tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos”. E foi ao ponto central. “Vivemos
um momento em que a memória está sendo apagada, como um projeto de poder, então
criar memória é extremamente importante.”
Fernanda
Torres não ganhou o Oscar de melhor atriz e, das seis indicadas, ela é
a melhor. A história exigia uma interpretação com sensibilidade e maestria
técnica. Ela construiu a personagem com delicadeza. Neste tempo em que
acompanhou a caravana “Ainda Estou Aqui” até o palco do Dolby Theater, o Brasil
esteve em diálogo constante com Fernanda Torres. Ela conta que a mãe, a
monumental Fernanda
Montenegro, a orientou sobre como interpretar tragédias gregas. Com mais
intensidade do que desespero, porque o sofrimento será longo. Foi o que ela fez
na sua Eunice. “É uma família normal, mas enfrentando algo como Antígona, algo
do tamanho de um destino grego, uma tragédia grega”, disse ela em uma de suas
entrevistas.
Fernanda Torres volta ao Brasil coberta de glória após ter
sido, como ela definiu, “abduzida por uma nave espacial para uma realidade
paralela”. Ela fez por merecer nosso amor. Moveu-se no palco do mundo com uma
naturalidade que nos orgulhou. Não se deslumbrou, não esqueceu a personagem e
sempre lembrou do seu país. Numa de suas melhores entrevistas, disse que o
Brasil tem pena de que o mundo não nos conheça. Nas ruas desse carnaval, o
espírito lúdico e irreverente usou a Fernanda Torres como seu principal motivo
para brincar.
Isso não conflita com a carga emocional da história contada
no filme. Foram muitos os mortos e desaparecidos durante a ditadura militar.
Ulysses Guimarães, no momento constituinte da democracia, escolheu Rubens Paiva
como o símbolo da sociedade que venceu os facínoras.
A Lei da Anistia pela qual Eunice lutou nos trouxe de volta
quem fazia falta ao país, mas foi envenenada pela imposição da impunidade dos
criminosos. A luta pelo direito dos povos indígenas ganhou musculatura com a
sua militância jurídica e política, mas requer cada vez mais vigilância.
“O nome dela é Eunice Paiva”, disse Walter Salles ao receber
o prêmio visto por um bilhão de pessoas. Como é forte essa história. O marido é
preso e seu corpo desaparece por ação do governo. Eunice volta para a
faculdade, se forma em Direito, educa os filhos, se une às lutas do seu povo,
espera 25 anos por uma certidão de óbito, mantém acesa para o país a memória do
marido até que a sua memória se esvai. Seu filho, atingido por um acidente que
o deixa numa cadeira de rodas, resgata toda a história com a sua envolvente
literatura. O cinema brasileiro leva o drama às telas no exato momento em que o
horror volta a rondar o país. Selton Mello, que dá vida ao personagem cujo
corpo foi sonegado à família — de novo a tragédia grega nos lembra do direito
sagrado de as famílias enterrarem seus mortos — disse que entendeu nessa
caminhada que o filme era o “corpo de Rubens Paiva”. Como disse Fernanda Torres
ao receber o Globo de Ouro: “Que história, Walter!”.

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