O exercício democrático nos dias de hoje tem apontado e
chamado a todos e todas a cooperação daqueles que estão no comando dos governos
em todos os seus aspectos. Não podemos decepcionar em nenhum deles e fazê-lo
trilhando o caminho da responsabilidade.
Ao ouvirmos o debate público, temos a impressão de que não
se tem a compreensão plena da dimensão profunda dos tempos complexos que
estamos atravessando, dos vestígios e feridas que a pandemia deixou em nossas
vidas e no mundo, além de tantas outras advindas da longa duração.
Embora seja difícil fechar o desenho dos seus contornos, é
um mundo mais duro, com menos certezas e com mais riscos, exigirá mudanças em
nossa convivência, no uso de nossos recursos e em nosso senso de justiça, para
que coisas que já eram ruins antes e depois da emergência pandêmica não acabem
em um perigoso retrocesso como os últimos sinais indicam. Vide a Europa
atordoada pelos acontecimentos.
Daí não resta dúvida que os gestos persistentes de Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) nesses quase
três anos são alvissareiros e representam um avanço político e institucional.
Como se sabe ambos assumiram em 2023 tendo
no pano de fundo o rastro da pandemia. Talvez não se tenha falado, mas elas têm
sido velhas companheiras planetárias, e contribuíram para afundar impérios da
Antiguidade como aconteceu na China, para pôr fim à Idade de Ouro na Grécia,
para ferir o Império Romano com a “peste Antonina”, para enfraquecer o Império
Bizantino com a “peste de Justiniano”. Nessas ocasiões, os mortos eram entre um
quarto e um terço da população. No século XVI, a varíola dizimou os impérios da
era pré-colombiana e pré-cabralina do Novo Mundo quase de forma mais eficaz do
que a espada do conquistador.
Outras pragas moldaram séculos inteiros. A Peste Negra por
exemplo. Walter Scheidel nos diz em seu livro Violência e a história da
desigualdade: Da Idade da Pedra ao século XXI, eclodiu no deserto de Gobi na
década de 1320, de lá se espalhou pela China e pelo Velho Mundo. Era uma cepa
bacteriana chamada Yersinia pestis, que reside no trato digestivo das
pulgas, que foram alojadas em ratos que as carregavam.
Da Crimeia chegou à Itália em navios genoveses e de lá se
espalhou por toda a Europa, até mesmo no extremo norte. Em 1349, ele já havia
chegado à Escandinávia. Seus efeitos foram horríveis e dolorosos.
Cobriu todo o século XIV e boa parte do século XV, em várias
ondas. Milhões de pessoas morreram, senhores e vassalos, ricos e pobres, embora
os pobres, é claro, em maior número. Ela matou pensadores como La Boétie
(1530-1563), cuja agonia foi relatada por Montaigne (1533-1592), seu grande
amigo. A Inglaterra perdeu metade de sua população. A Itália, um terço. Os
ingleses recuperaram a população que tinham no ano de 1300 apenas em 1700.
Continuou a retornar de tempos em tempos no século XVII. Em
seu romance clássico Os Noivos (1823), Alessandro Manzoni (1785-1873)
nos conta como a peste atingiu Milão e seus arredores, com terríveis cenas de
sofrimento.
A Peste Negra passou por um bom período da história, a Alta
Idade Média, as guerras religiosas, o Renascimento e ainda era um perigo nos
tempos do Iluminismo.
A ausência de defesa a ela era total. Os estados
pré-modernos não foram organizados para a proteção de seus habitantes, mas para
guerras, “o esporte dos reis”, como disse Arnold Joseph Toynbee (1889-1975), e
as pessoas esperavam muito pouco deles. Alguns acreditavam que a praga era a
ira de Deus, outros pensavam que era o fim do mundo.
Havia poucos governantes sensíveis e diligentes que tentavam
mitigar seus males e salvar pelo menos os não contaminados. Foi assim que
surgiu a quarentena, inventada pelos venezianos, que não permitiam a entrada de
navios por 40 dias, até que os infectados não fossem mais deste mundo e os
lazaretos onde amontoavam os doentes, geralmente esperando a morte.
A Peste Negra acabou, mas outras vieram, como a gripe
espanhola, entre 1918 e 1920, que deixou 50 milhões de mortos, e depois
chegaram várias outras, de dimensões mais limitadas.
Na segunda metade do século XX, o Estado moderno já tinha
deveres obrigatórios de proteção para seus cidadãos, a saúde progredia em um
ritmo diferente, assim como as estruturas de prevenção e saúde, a higiene
salvava muitas vidas, assim como as vacinas, o prolongamento da vida começou.
Pouco a pouco, a vida humana adquiriu mais valor do que em todo o caminho
histórico anterior. Mas as infecções não deixaram de existir, elas estão vivas
no meio de nossa hipermodernização globalizada avançada e nos atingiu novamente
e poderá voltar a fazê-lo.
Ao Estado, tão vilipendiado em geografias políticas tão
diversas e nos seus extremos políticos, nosso Sistema Único de Saúde (SUS)
protegeu nossa saúde como pode e, além disso, por conta do Poder Legislativo
pode oferecer um mínimo para garantir ao Grande Número da população que
tivessem suas condições materiais de existência durante a pandemia, sem tirar
nossa autonomia pessoal, e isso requereu um equilíbrio delicado que não é fácil
de alcançar na prática.
Desde à catástrofe das chuvas no Litoral Norte de São Paulo
em 2023, Lula e Tarcísio atuaram juntos na resposta a ela. Eles fizeram isso
bem ou mal?
É difícil estabelecer um julgamento categórico no meio da
tempestade, como também ocorreu no mundo onde ninguém sabia ao certo como
enfrentar a pandemia, e quase sempre nos valemos do processo de tentativa e
erro da filosofia de Karl Popper (1902-1994).
Foi graças ao caminho da temperança e não da arrogância
que Ainda estou aqui conquistou o Oscar, e Lula e Tarcísio vão
demonstrando o que está em jogo. A recuperação do nosso país se faz
necessariamente com trabalho árduo, justo e equitativo.
Quando vemos na sociedade política hipérboles verbais
imprudentes, demonstrando frivolidade, ações irresponsáveis de tolos que chamam
como bem entendem, reafirma-se a convicção de que esse não é o caminho a
seguir.
O caminho que Lula-Tarcísio mostraram é o da sobriedade e do
interesse comum, a disponibilidade sincera ao diálogo, a disponibilidade a
ouvir e a não suspeitar para estabelecer acordos capazes de abreviar o
sofrimento e promover uma desejável construção de um futuro para todos.
E devemos fazer essa travessia neste momento escuro do mundo
com humildade, cooperação e temperança, pois a Frente Democrática ainda está
aqui.
*Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE, da Teia de Saberes e do Instituto Devecchi.

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