A beleza lhe abrira todas as portas sem que precisasse
pôr em prática seu talento de negociadora implacável
G.H. (iniciais meramente ilustrativas) sempre foi uma linda
mulher. Isso lhe abrira todas as portas sem que precisasse pôr em prática seu
talento de negociadora implacável ou dar mostras de seu caráter sem jaça. Era
combativa e sagaz, porém os homens só prestavam atenção a seu bem proporcionado
nariz e a seus cabelos, castanhos e naturalmente encaracolados. Para provar do
que era capaz e se livrar do estigma que a beleza lhe impunha, G.H. esticou e
alourou as madeixas e — num arroubo de desprendimento estético — tosou o nariz,
deixando-o impetuosamente arrebitado. Queria desmantelar o patriarcado apenas
com a força de seus argumentos. Converter em aliados os inimigos sem precisar
recorrer aos arquetípicos artifícios da sedução, que levaram à ruína Cleópatra,
Ana Bolena e Mata Hari. Ambicionava ser reconhecida em razão de sua supina
inteligência, não pelo capital erótico.
Desafortunadamente, G.H. vivia um
relacionamento tóxico. O marido, a quem devotava total fidelidade, era mais
apaixonado pelas amantes que pela própria mulher. E, ainda por cima, tratava-se
de um corintiano — o que significava ter licença para cometer violência
doméstica depois do jogo, resultando numa média anual de 36,25 surras entre
2021 e 2024. A seu favor, há que reconhecer que, quando ele queria bater nela,
sempre batia noutro lugar — não dentro de casa ou no Brasil.
Mas era um homem bom. Sabia ser a máquina de lavar uma coisa
muito importante para pessoas do sexo feminino. Companheiro-homem moderno e
desconstruído, tinha consciência de que o lugar da companheira-esposa era na
cozinha, e ia até lá para, respeitosamente, ajudá-la em seu serviço de mulher.
Enquanto chefe-companheiro, tinha certa dificuldade de encontrar mulheres para
preencher cargos na empresa — e as poucas que contratava acabavam fritadas,
humilhadas, demitidas e substituídas por homens. Não que ele fosse misógino —
oh, não! —, até porque ele tampouco encontrava muitos pretos com qualificação.
G.H. tinha uma profissão, um salário e nunca precisara que o
pai lhe desse cinco reais para comprar batom, dez reais para comprar calcinha.
Ela mesma conseguia comprar tudo isso — sozinha! Era — como o marido dissera um
dia, todo orgulhoso — uma mulher de grelo duro. Daquelas que, quando estão em
casa, à noite, e um punhado de homens bate à porta, acham que são um presente
de Deus.
G.H. sonhava com uma extensa prole, mas o marido dissera:
— Companheira, quando é que vai fechar a porteira,
companheira? Não pode mais ter filho.
E ela entendeu que era ele quem ditava as regras do corpo
dela.
Más línguas lhe deram o cognome de Coxa — ainda que não se
saiba se ela torce para o Coritiba.
Outras, ainda mais maledicentes, a tratavam por Amante — certamente devido a
seu amor às democracias (a chinesa, a cubana, a venezuelana). São insultos que
constam de listas de propina (apócrifas, a julgar pelas decisões do STF)
e vindos da direita — uma gente preconceituosa e sem letramento de gênero.
Ainda que declare afeição ao marido e releve todas as suas
falas, a paixão, segundo G.H., só será possível no dia em que a esquerda chegue
ao poder, e as mulheres não sejam mais objetificadas, ultrajadas, julgadas pela
aparência física e tratadas com desdém.

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