Oito mil indígenas participaram do Acampamento Terra
Livre (ATL) em Brasília para alertar sobre a urgência de serem incluídos no
enfrentamento da crise climática e de terem reconhecidos os direitos sobre a
terra
Na última semana, povos originários do Brasil e de outras
partes do mundo enviaram uma mensagem contundente aos poderes públicos e à
sociedade. Oito mil indígenas participaram do Acampamento Terra Livre (ATL) em
Brasília para alertar sobre a urgência de serem incluídos no enfrentamento da
crise climática e de terem reconhecidos os direitos sobre a terra. Esses dois
pontos nortearam o encontro promovido na capital federal e evidenciam como a
questão indígena está longe da pacificação.
Realizado anualmente desde 2004, o ATL é a maior mobilização
indígena do Brasil. Este ano, pela primeira vez, recebeu representantes
estrangeiros. A lista inclui delegações dos oito países que compõem a Bacia
Amazônica, além de enviados da região do Pacífico, do Canadá e da Austrália,
entre outros. Em comum, reivindicam a demarcação de terras indígenas como
instrumento para mitigar a crise climática. Para resumir esse grito, o ATL
divulgou o slogan "A resposta somos nós".
Ministros do governo Lula estiveram presentes ao
Acampamento. Como forma de reconhecimento à causa, o governo federal lançou a
Comissão Internacional Indígena da COP 30. Esse colegiado participará dos
diversos círculos de decisão formados na cúpula de Belém. A comissão será
presidida pela ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, que pretende
trabalhar para tornar as terras originárias a maior frente de defesa do meio
ambiente.
A realidade, no entanto, está distante das boas intenções
manifestadas em Brasília. Há muito as entidades reclamam da lentidão na
demarcação de terras indígenas. Havia uma expectativa de que o governo Lula
daria celeridade ao processo, conferindo legitimidade a centenas de territórios
que aguardam homologação. O que se constata, contudo, é que as demarcações
foram estatisticamente desprezíveis em praticamente dois anos e meio de
administração petista.
Se o Executivo enfrenta dificuldades para atender às reivindicações indigenistas, o Legislativo resiste frontalmente à causa dos povos originários. E um ponto nevrálgico é o Marco Temporal, que explicitou o embate entre o poder ruralista e as comunidades históricas. Em dezembro de 2023, apesar de o Supremo Tribunal Federal ter considerado o Marco Temporal matéria inconstitucional, o Congresso Nacional aprovou a Lei 14.701/2023, que resgata a tese de que os territórios só podem ser considerados indígenas se ocupados quando da promulgação da Constituição de 1988. Há um claro impasse institucional, e não existe solução à vista em curto prazo.
Enquanto os poderes públicos agirem com tibieza ou se recusarem a reconhecer as necessidades dos povos originários, não haverá pacificação nem sustentabilidade no Brasil. Como anfitrião de uma conferência mundial na Amazônia, o país precisa implementar medidas mais efetivas para a questão indígena, especialmente em um contexto de emergência climática. É dever das instituições evitar que uma demanda social, política e ambiental redunde em uma crise de proporções ainda mais graves.

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