Imunidade parlamentar vem desde a Monarquia, mas
Legislativo perde a vergonha em defendê-la
A imunidade parlamentar existe desde a primeira Constituição brasileira.
Em 1824, a Monarquia já determinava que deputados e senadores não seriam presos
"por autoridade alguma", salvo com aval do próprio Legislativo ou se
pegos em flagrante delito de pena capital.
Cada deputado e senador representa milhares de pessoas, e
essas vozes não podem ser caladas por enfrentarem outras autoridades,
criminosos ou o poderio financeiro. É uma prerrogativa valiosíssima,
especialmente em relação à liberdade de opinião e em regimes de exceção, como
na ditadura
militar.
"Naqueles tempos se justificava a
imunidade. Era a maneira de entrarmos numa dependência do Dops sabendo que de
lá poderíamos sair", contou o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) na sessão
da Câmara que alterou pela última vez a imunidade.
Era 2001, e o Congresso buscava melhorar sua imagem ao
autorizar que parlamentares fossem processados por crimes comuns. Até então,
era preciso autorização prévia do Legislativo —mas alguém deve ter perdido a
chave da gaveta, já que os pedidos nunca saiam dali.
Atento à opinião pública, o Congresso se preocupava mais em
ouvir a voz das ruas do que em mandar recadinhos para o STF sobre seu
desconforto com a transparência do dinheiro público e com investigações contra
suspeitos de condutas ilegais.
O cenário mudou pós-Lava Jato e renascimento da direita. Há
quatro anos, a Câmara quis proibir
a prisão por decisão individual dos ministros do STF e impedir
operações nos gabinetes. Agora, 315 deputados votaram
para trancar a ação contra um colega e o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL)
por tentativa de golpe.
O aumento da influência do PCC sobre o
poder público desaconselha esses privilégios, mas não é preciso prever o
futuro, basta lembrar do passado. Pelo menos quatro deputados já se envolveram,
recentemente, em assassinatos, como Flordelis,
Hildebrando Pascoal (o deputado da
motosserra) e Chiquinho
Brazão. É isso que o Congresso quer proteger?

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