A política externa israelense não consegue construir uma
nação em paz com seus vizinhos porque, ao serem provocados por grupos
terroristas, seus dirigentes abandonam a inteligência da diplomacia
Em geral, artigos em jornal morrem no dia seguinte à sua
publicação. Mas, ao assistir ao noticiário do último fim de semana sobre a
violência do exército israelense em Gaza, 20 meses depois de um artigo,
publicado em outubro de 2023, creio que se justifica republicá-lo, sem mudar
uma vírgula, nem título:
"Nenhum país do mundo tem o acervo de Israel em
inteligência. Apesar disso, a política externa israelense não consegue
construir uma nação em paz com seus vizinhos porque, ao serem provocados por
grupos terroristas, seus dirigentes abandonam a inteligência da diplomacia,
construtora da convivência no longo prazo, e optam pelo poder militar, da
destruição da população palestina. Caem nas armadilhas dos que precisam
incentivar o radicalismo que se retroalimenta impedindo a paz e promovendo o
ódio que os terroristas precisam.
O Hamas aproveitou um primeiro-ministro
israelense fragilizado política e moralmente, sem estatura de estadista,
defensor da ocupação de todo o território palestino. Seus terroristas invadiram
Israel, assassinaram e sequestraram centenas de civis e conseguiram provocar a
reação militar contra a população de Gaza. Sacrificaram os próprios irmãos
palestinos soterrados em escombros, mas venceram porque mataram a inteligência
que caracteriza a história e o pensamento judaico.
Sobre os escombros de Gaza e os cadáveres de crianças
palestinas, o Hamas venceu ao trazer Israel para a barbárie. Mesmo que o
exército de Israel mate todos os militantes do Hamas e seus irmãos, primos e
netos e destrua todos os prédios onde eles habitam, no longo prazo, Israel não
terá vencido a guerra, porque muitos dos que se opõem ao Estado de Israel devem
estar usando a destruição de Gaza e as imagens de crianças soterradas para
alimentar o antissionismo (contra a criação do Estado de Israel) e o antissemitismo
(contra o povo judeu). O Hamas conseguiu diminuir o número dos que dizem:
"Faça o que fizer o governo de Israel com as crianças de Gaza, continuarei
respeitando e admirando o povo judeu".
O mundo precisa continuar a respeitar e ser solidário com os
judeus, não esquecer as diásporas, genocídios, holocaustos e guetos que eles
sofreram, mas Israel precisa de estadistas que não pratiquem diáspora,
genocídio, holocausto, guetos contra os palestinos.
Segundo Hannah Arendt, o nazista gestor da "solução
final" foi um burocrata banal movido pelo clima antissemita, hoje os
dirigentes israelenses são políticos banais com obsessão por solução militar,
sem inteligência política nem diplomática, sem visão de longo prazo, movidos
pelo clima de raiva provocado por um insano e bárbaro grupo terrorista.
Políticos banais que, para atender ao explicável desejo de vingança dos
eleitores israelenses, cometem o erro moral de explodir bombas contra famílias
para atingir um bandido que está no meio, e o erro histórico de comprometer o
próprio país, mantendo-o em guerra permanente; além de provocar a erosão do
apoio internacional para a causa do direito de Israel a sua sobrevivência.
Presos ao imediato, reagindo a terroristas, os políticos banais usam o direito
de Israel a se defender no presente contra alguns terroristas e matam a chance
de convivência no longo prazo com os palestinos. O ódio e a raiva matam a
inteligência e dão ao Hamas a vitória de serem confundidos com o povo que
sacrificam. Matam alguns indivíduos criminosos dando-lhes a vitória da
sobrevivência e fortalecimento da ideia do antissionismo. A morte da
inteligência impede os políticos banais de Israel de agirem para matar as
ideias que alimentam o terror. Matam alguns ou todos terroristas insanos
alimentando as ideias insanas que seguirão motivando novas gerações.
Se fossem estadistas, denunciariam a brutalidade desumana
dos terroristas, preparariam as armas, mas convenceriam seus eleitores de que o
momento da vitória chegaria com o apoio do mundo inteiro, inclusive de
palestinos, chocados com os atos do Hamas e com a própria tragédia social em
que vivem sob o governo desse partido insano. E formulariam um mapa para a
construção de dois Estados convivendo em paz. Essa seria a verdadeira derrota
do Hamas, sem dar-lhes o combustível de milhares de inocentes soterrados nos
escombros que servirão de plataforma para ampliar o terrorismo, o antissionismo
e o antissemitismo."
*Professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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