quinta-feira, 15 de maio de 2025

O GRANDE LEGADO DE MUJICA

Editorial O Estado de S. Paulo

Ex-presidente do Uruguai provou que é possível fazer política íntegra na América Latina

“Na política internacional não servimos nem o café. Temos de nos unir para nos defendermos, mas a agenda nacional nos suga o tempo todo.” Esse foi o diagnóstico sobre a América Latina que José “Pepe” Mujica, ex-presidente do Uruguai, fez ao jornal El País no ano passado. Na ocasião, Mujica lembrou que nem durante a pandemia os presidentes latino-americanos se reuniram, a despeito de enfrentarem uma crise que não conhecia fronteiras.

Em uma região marcada pela desunião crônica, Mujica, que morreu anteontem, aos 89 anos, foi quase uma unanimidade. O uruguaio foi um dos poucos líderes políticos do mundo a ser respeitado até por adversários por praticar o que pregava, algo raro na esquerda e na direita globais.

A transparência de Mujica sobre seu estado de saúde, por si só, já o distingue de seus pares. Além de não esconder o câncer no esôfago, o uruguaio jamais instrumentalizou a doença para obter ganhos de qualquer natureza, encarando a morte como um fato da vida com extrema dignidade pessoal.

Como presidente do Uruguai (2010 a 2015), quando foi tido como o mandatário “mais pobre do mundo”, Mujica ganhou notoriedade por dispensar o palácio presidencial e seguir morando em sua modesta propriedade rural nas cercanias de Montevidéu, a mesma onde morreu. A austeridade do uruguaio, ao contrário da de políticos que se “banham de povo” apenas para ganhar votos, era sincera – e por isso se tornou digna de nota.

Na juventude, Mujica foi líder da guerrilha de esquerda Tupamaros. Entre outras ações, a organização promoveu assaltos e sequestros, entre outros crimes. Preso, “Pepe” acabou isolado em solitária por longo período durante a vigência da ditadura militar no Uruguai (1973-1985), quando foi submetido à tortura.

Com a anistia que se seguiu ao fim da ditadura, Mujica deixou para trás qualquer vestígio de ressentimento e fundou o Movimento de Participação Popular (MPP), partido pelo qual foi eleito deputado, senador e presidente. Ao promover o diálogo entre diferentes, tornou-se uma referência para a democracia muito além das fronteiras uruguaias.

Inequivocamente esquerdista, Mujica não se curvou às conveniências ideológicas para deixar de criticar líderes autoritários, como o venezuelano Nicolás Maduro e o nicaraguense Daniel Ortega, quando achava que devia fazê-lo. Embora contrário a uma intervenção na Venezuela, Mujica afirmou ter “uma discordância íntima com regimes autoritários”, posição bem mais corajosa do que a de Lula da Silva, por exemplo, que, mesmo diante da patente fraude eleitoral cometida por Maduro, no ano passado, demorou para fazer comentários críticos sobre o ditador venezuelano.

Mujica também demonstrou ter mais intimidade com os reais propósitos do liberalismo – que, segundo ele, “nos trouxe o espírito das relações adultas, do respeito a viver com diferenças” – do que líderes pretensamente liberais como Jair Bolsonaro, Javier Milei e Donald Trump.

Numa região tão marcada pelo populismo e por governos autoritários, Mujica foi exemplo de liderança política que serve à promoção do diálogo e à defesa das liberdades cívicas.

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