Ex-presidente do Uruguai provou que é possível fazer
política íntegra na América Latina
“Na política internacional não servimos nem o café. Temos de
nos unir para nos defendermos, mas a agenda nacional nos suga o tempo todo.”
Esse foi o diagnóstico sobre a América Latina que José “Pepe” Mujica,
ex-presidente do Uruguai, fez ao jornal El País no ano
passado. Na ocasião, Mujica lembrou que nem durante a pandemia os presidentes
latino-americanos se reuniram, a despeito de enfrentarem uma crise que não
conhecia fronteiras.
Em uma região marcada pela desunião crônica, Mujica, que
morreu anteontem, aos 89 anos, foi quase uma unanimidade. O uruguaio foi um dos
poucos líderes políticos do mundo a ser respeitado até por adversários por
praticar o que pregava, algo raro na esquerda e na direita globais.
A transparência de Mujica sobre seu estado de saúde, por si
só, já o distingue de seus pares. Além de não esconder o câncer no esôfago, o
uruguaio jamais instrumentalizou a doença para obter ganhos de qualquer
natureza, encarando a morte como um fato da vida com extrema dignidade pessoal.
Como presidente do Uruguai (2010 a 2015), quando foi tido
como o mandatário “mais pobre do mundo”, Mujica ganhou notoriedade por
dispensar o palácio presidencial e seguir morando em sua modesta propriedade
rural nas cercanias de Montevidéu, a mesma onde morreu. A austeridade do
uruguaio, ao contrário da de políticos que se “banham de povo” apenas para
ganhar votos, era sincera – e por isso se tornou digna de nota.
Na juventude, Mujica foi líder da guerrilha de esquerda
Tupamaros. Entre outras ações, a organização promoveu assaltos e sequestros,
entre outros crimes. Preso, “Pepe” acabou isolado em solitária por longo
período durante a vigência da ditadura militar no Uruguai (1973-1985), quando
foi submetido à tortura.
Com a anistia que se seguiu ao fim da ditadura, Mujica
deixou para trás qualquer vestígio de ressentimento e fundou o Movimento de
Participação Popular (MPP), partido pelo qual foi eleito deputado, senador e
presidente. Ao promover o diálogo entre diferentes, tornou-se uma referência
para a democracia muito além das fronteiras uruguaias.
Inequivocamente esquerdista, Mujica não se curvou às
conveniências ideológicas para deixar de criticar líderes autoritários, como o
venezuelano Nicolás Maduro e o nicaraguense Daniel Ortega, quando achava que
devia fazê-lo. Embora contrário a uma intervenção na Venezuela, Mujica afirmou
ter “uma discordância íntima com regimes autoritários”, posição bem mais
corajosa do que a de Lula da Silva, por exemplo, que, mesmo diante da patente
fraude eleitoral cometida por Maduro, no ano passado, demorou para fazer comentários
críticos sobre o ditador venezuelano.
Mujica também demonstrou ter mais intimidade com os reais
propósitos do liberalismo – que, segundo ele, “nos trouxe o espírito das
relações adultas, do respeito a viver com diferenças” – do que líderes
pretensamente liberais como Jair Bolsonaro, Javier Milei e Donald Trump.
Numa região tão marcada pelo populismo e por governos
autoritários, Mujica foi exemplo de liderança política que serve à promoção do
diálogo e à defesa das liberdades cívicas.

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