Há políticos e Políticos, com P maiúsculo, como dizia
Joaquim Nabuco. Aos primeiros, atribuo o fato de considerarem a política como
profissão ou emprego, e assim estão voltados para interesses que não os da
atividade política
Eu fui a São Paulo receber uma homenagem da Universidade de
São Paulo (SP), na sua tradicional e famosa Faculdade de Direito, conhecida
como Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde, numa solenidade
especial, comemoramos os 40 anos de democracia no Brasil. Ressaltei o
significado desse encontro com uma grande e qualificada audiência, formada de
professores, formandos de diversos cursos e convidados políticos, que, em
grande número, prestigiavam aquele evento. Procurei louvar a nossa transição democrática,
o que representa para nós essa consciência de que a democracia nos deu a
liberdade e, por meio dela, o direito à cidadania plena.
A liberdade tem um poder criativo extraordinário. Cheguei a
afirmar, nas Nações Unidas, num discurso que fiz quando assumi a Presidência da
República, que a democracia era o caminho do desenvolvimento e, depois, pensei
bem e lembrei-me da China, que nos contraria esse nosso entendimento, e de que
Thomas Jefferson foi quem definiu a democracia como a conquista da liberdade, e
pudemos acrescentar, naquela oportunidade, que ela não foi feita para resolver
problemas econômicos, cujo alcance depende de pessoas e circunstâncias. Ele
também acrescentou a esse conceito a "busca da felicidade" entre os
direitos do homem.
Jefferson era um homem do saber. Falava
oito línguas, a começar com falar latim, grego e hebraico, além de possuir uma
vasta cultura que incluía grande conhecimento de arqueologia e antropologia, o
que inspirou John Kennedy a dizer a frase tão repetida nos Estados Unidos:
"…a não ser quando Thomas Jefferson jantava sozinho nesta sala da hoje
Casa Branca." Kennedy afirmava, então, que Jefferson tinha mais cultura e
inteligência que aqueles seus convidados — 60 ganhadores do Prêmio Nobel, que
jantavam naquela noite com ele, Kennedy, presidente dos EUA!
Entrei numa estrada lateral. Mas prossigo na homenagem da
Faculdade do Largo de São Francisco. A minha palestra foi sucedida por
respostas a algumas perguntas. Uma delas era que conselhos daria aos jovens que
queriam entrar na política.
Minha primeira observação foi a de que há políticos e
Políticos, com P maiúsculo, como dizia Joaquim Nabuco a respeito do seu pai, o
senador José Tomás Nabuco de Araújo. Aos primeiros, atribuo o fato de
considerarem a política como profissão ou emprego, e assim estão voltados para
interesses que não os da atividade política. E assim pensam em si mesmos, nos
seus interesses pessoais, em sua remuneração e, não raro, quase
permanentemente, estão visando vantagens e ganhos de dinheiro associados a
prestígio, uso de jabutis nas emendas da legislação e outras atividades
indevidas. Estes são os maus políticos, que desmoralizam a política e mancham a
imagem dos verdadeiros Políticos. Devem ser objeto de identificação e repelidos
pelos eleitores e por toda a sociedade.
Os com P maiúsculo são aqueles que pensam nos outros, na
sociedade, no seu próximo, no seu município, no seu estado, no seu país, na
humanidade. Têm ideologia, programa de ação e conduta moral e política
ilibadas. Zelam pela política, protegem a administração pública, têm espírito
público moral.
Aos jovens que desejam entrar na política, eles primeiro têm
que escolher qual das duas espécies de políticos desejam ser. Se forem os da
primeira, digo para jamais entrarem ou pensarem em entrar na política.
Serão infelizes e provocarão a infelicidade dos outros, da
sociedade, além de manchar o nome de sua família. Procurem emprego e cumpram
seu destino individualista.
O outro caminho é o de Políticos de que precisamos, dos que
dedicam sua vida aos outros, que pensam nos seus semelhantes, que desejam
melhorar a sorte do seu torrão natal, do seu município, do seu estado, do seu
país, da sua sociedade, da humanidade.
Para esses, devo dizer que o primeiro passo é o de saber se
têm vocação de liderança. Se desejam mudar o mundo. Se têm utopias, se têm fé.
Se acreditam na esperança e caridade. Devem estudar, ter uma base de cultura
humanitária e saber trabalhar em equipe.
Venham se juntar aos jovens políticos, busquem o exemplo dos
velhos bons políticos. Abominem a corrupção. Tenham um ideal.
E, para mim, homem de fé, devem acreditar em Deus. Sejam
cristãos.
*Ex-presidente da República, escritor e imortal da
Academia Brasileira de Letras

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