Há alternativas melhores ao IOF; e há, também, eleição
daqui a 16 meses e inúmeras restrições políticas
Economistas gostam de dizer que uma proposta de aumento dos
gastos públicos deveria vir sempre acompanhada de uma proposta de aumento nos
impostos para financiar as despesas. Afinal, é sempre bom anunciar um novo
programa de subsídios ou projetos sociais, mas nunca é legal anunciar o aumento
na tributação correspondente. E não há gastos sem impostos.
A recente discussão sobre o IOF me traz à mente uma ideia
análoga: em um momento em que precisamos ajustar as contas públicas, um veto a
uma proposta de aumento de impostos ou de corte de gastos deveria vir
acompanhado de uma proposta alternativa, viável, que geraria o mesmo impacto
orçamentário.
"Reduzir os desperdícios",
"acabar com a roubalheira, essa pouca vergonha que está aí",
"taxar os ricos" não são propostas alternativas viáveis. São frases
vazias. Que imposto seria introduzido ou aumentado? Qual seria a alíquota? Ou
que gasto seria cortado?
Há, decerto, alternativas
melhores ao IOF. Eu já defendi várias delas nesta coluna. Tributar o que
gera emissão de carbono (combustíveis fósseis, carne bovina), cortar emendas
parlamentares, minimizar subsídios à indústria e acabar com a desoneração de
impostos para setores específicos são exemplos.
Há alternativas que podem gerar frutos no futuro. Reformas
administrativas, previdenciárias ou trabalhistas merecem discussão, mas não vão
acontecer no curto prazo.
Há, também, uma eleição daqui a 16 meses e inúmeras
restrições políticas.
A pergunta importante é se o aumento no IOF é melhor que a
alternativa. Uma pergunta anterior é se o IOF é melhor que nada. Eu julgo que
sim. É importante respeitar as metas do arcabouço fiscal, esse benefício
compensa as distorções do IOF.
O IOF encarece o crédito, mas, com a Selic nas
alturas, esse não é um problema sério. O IOF maior abre espaço para o Banco
Central cortar os juros,
compensando esse aumento. Há questões sobre a proposta que poderiam ser
melhoradas –empréstimos de curtíssimo prazo ficam caros demais, por exemplo.
O IOF também torna mais cara a compra de moeda estrangeira,
mas pelo menos em parte a ideia foi equalizar as alíquotas de compras de moeda
em espécie, cartões de crédito e transações com conta multimoeda. Antes, cada
operação dessa tinha uma alíquota diferente, a ideia agora é tributar tudo em
3,5%.
Tenho visto muito o argumento de que o IOF é um imposto
regulatório e que então não deveria ser usado para arrecadar. Esse argumento
está errado. Impostos, em geral, geram distorções. Por exemplo: a tributação
sobre o salário desestimula o trabalho no setor formal. O IOF também tem seus
problemas. Um aumento no IOF gera mais distorções que um aumento em um imposto
sobre o salário, consumo ou o que for? Esqueça os adjetivos dos impostos, é
essa a pergunta que importa.
Há, por fim, o ponto de que mudanças nos impostos deveriam
ser previsíveis. Eu concordo. Mudanças de última hora são gambiarras. De
acordo. Deveríamos ter um Orçamento factível na mesa no início do ano. Sem
dúvida.
No fim das contas, o aumento no IOF é melhor que a
alternativa? Eu não sei. Qual é a alternativa? Que imposto será aumentado? Que
gasto será cortado? Ou ficaremos com um déficit maior?
*Doutor em economia por Yale, foi professor da London
School of Economics (2004-2010) e é professor titular da FGV EESP

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