Carla Zambelli diz que deixou o Brasil, dias após ter
sido condenada à prisão pelo STF
Condenada pelo Supremo pela invasão do sistema do CNJ,
deputada mencionou Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos como exemplo do que ela
pode fazer na Europa
BRASÍLIA – A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP)
afirmou nesta terça-feira, 3, que deixou o Brasil. Ela viajou ao exterior
inicialmente para buscar tratamento médico, segundo ela, e vai pedir licença
não remunerada de seu mandato na Câmara
dos Deputados.
Ela disse estar fora do País há alguns dias, e que vai morar
na Europa, onde tem cidadania. Também afirmou ter escolhido o continente como
destino para poder atuar pelo fortalecimento da direita nos países da região e
“resistir, voltar a ser a Carla que eu era antes das amarras que essa ditadura
nos impôs”.
Ela mencionou a articulação feita pelo deputado Eduardo
Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, onde ele vem se empenhando
para tentar influenciar o governo Trump a impor sanções contra autoridades
brasileiras, como exemplo do que ela pode fazer na Europa. A declaração foi
feita em entrevista ao vivo ao canal do YouTube AuriVerde Brasil nesta
manhã.
Seu plano, segundo ela, é criar conexões e estabelecer
diálogo com lideranças estrangeiras para denunciar o que acontece no Brasil, a
que ela define como “um quadro crescente de perseguição política”.
“O caminho nos Estados Unidos já está asfaltado (pelo
Eduardo Bolsonaro e pelo Paulo Figueiredo). É justamente por isso que estou
escolhendo a Europa. Lá a gente precisa de alguém que fale espanhol, português,
inglês. Eu vou desenvolver meu italiano. Quero estar nos principais lugares,
falar com o povo francês. Em cada lugar temos pessoas que podem lutar por nós”,
afirmou ao canal.
Carla
Zambelli foi condenada pelo quê? Relembre
“(O trabalho de Eduardo) Pode ser feito na
Europa também. A (primeira-ministra da Itália, Georgia) Meloni
precisa começar a entender o que está acontecendo. A Espanha precisa acordar,
que a esquerda está fazendo muito mal no país. O que o (Emmanuel) Macron
está fazendo com a França. Eu quero estar nesses lugares todos. Ajudar o Chega
em Portugal. O conservadorismo precisa avançar, e o globalismo, a esquerda
precisa recuar”, declarou.
Nos Estados Unidos, Eduardo vem tendo apoio de uma espécie
de “bancada anti-Alexandre de Moraes” no Congresso americano, como mostrou
o Estadão. A decisão do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)
de se licenciar do mandato para pressionar a Casa Branca por sanções contra
autoridades de seu próprio País tem gerado repercussão. O presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT), por exemplo, chamou nesta manhã a
postura de Eduardo de “antipatriótica” por pedir a Trump intervenção na
política brasileira.
A parlamentar delegou a administração de suas páginas nas
redes sociais à mãe, Rita Zambelli. Antes de viajar, ela também emancipou o
filho de 17 anos para que ele possa se candidatar nas eleições do ano que vem e
herdar o seu espólio eleitoral.
A deputada não informou a data oficial do início de sua
licença, mas que está preparando a documentação à Mesa Diretora. O Estadão procurou
o STF e a Câmara dos Deputados, ainda sem respota. A Procuradoria-Geral da
República afirmou que “não adianta possíveis manifestações processuais”. Já o
advogado de Zambelli, Daniel Bialski, anunciou que deixou a defesa da deputada.
“Eu fui apenas comunicado pela deputada que estaria fora do
Brasil para dar continuidade a um tratamento de saúde. Todavia, por motivo de
foro íntimo, estou deixando a defesa da deputada, como já lhe comuniquei”,
afirmou.
Condenação
Zambelli
foi condenada por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em maio a dez
anos de prisão, além da perda do cargo na Câmara dos Deputados, pela
invasão ao sistema do Conselho
Nacional de Justiça (CNJ)
Na entrevista, Zambelli também disse ter sido usada como
“bode espiatório” pela derrota de Jair Bolsonaro (PL)
em 2022, em especial pelo advogado Fábio
Wajngarten. E que o episódio da perseguição a um cidadão de arma em
punho na véspera do pleito a afastou do então presidente e a colocou em
depressão.
O Ministério Público Federal acusou Zambelli
de ter coordenado a invasão a sistemas do Poder Judiciário, ação que
teria sido executada pelo hacker Walter Delgatti. No ataque ao sistema do CNJ,
em 2023, foi emitido um mandado
falso de prisão contra Moraes. “Expeça-se o mandado de prisão em
desfavor de mim mesmo, Alexandre de Moraes. Publique-se, intime-se e faz o L”,
dizia o documento falso.
A Polícia
Federal (PF) apontou, no relatório da investigação, que documentos
apreendidos com a deputada correspondem aos arquivos inseridos pelo hacker no
sistema do CNJ, o que para os investigadores comprova que ela participou do
ataque. A PF concluiu que o ataque foi planejado para colocar em dúvida a
credibilidade do Poder Judiciário.
Ela pode apresentar embargos de declaração após a publicação
do acórdão. O recurso não tem poder de alterar a condenação, mas adia o
trânsito em julgado do processo. Eventual prisão precisa ser autorizada pela
Câmara.
A perda de mandato também teria que ser decidida pelos
deputados. Porém, a jurisprudência do STF é que se a pena for superior a 120
dias de prisão em regime fechado, o próprio tribunal pode determinar a medida
porque a Constituição prevê que o deputado perderá o mandato se faltar a um
terço das sessões. Neste caso, cabe à Mesa Diretora da Câmara apenas declarar a
perda de mandato.
Quando houve a formação da maioria pela condenação no dia 9
de maio, a parlamentar divulgou nota na qual externa sua “irresignação” e
afirma que houve cerceamento da defesa e “inúmeras nulidades desprezadas”. Ela
também diz que a condenação é injusta porque não há “provas irrefutáveis e
induvidosas”.
Carla Zambelli responde a outro processo no STF por
perseguir um homem com uma pistola na véspera do segundo turno das eleições de
2022. Há maioria
formada para condenar a deputada por porte ilegal de arma e
constrangimento ilegal com emprego de arma de fogo e cassar o mandato dela, mas
o julgamento está suspenso
por um pedido de vista do ministro Kassio Nunes Marques.

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