Elas nunca iniciam guerras, mas são as mais indefesas,
não só em Gaza, como na Ucrânia ou nas favelas brasileiras
Golda Meir deveria conhecer a força do apego humano a um
chão. Dedicara a vida à criação do Estado de Israel antes de
tornar-se a primeira e única mulher a chefiá-lo. Nascida na Kiev da
antiga Rússia imperial
(que depois se tornaria parte da União Soviética, implodiria com o comunismo e
ressurgiria como capital da atual Ucrânia), a líder
sionista chegou a ser portadora de passaporte palestino à época do Mandato
Britânico na região.
— Os velhos morrerão, e os jovens haverão de esquecer —
garantiu a colonos judeus que se assentaram em terras palestinas e se
inquietavam com a rebelião dos expulsos.
Estava errada. Os velhos foram morrendo, sim. Mas não sem
antes passar às gerações seguintes os nomes e as lembranças de um vilarejo, um
teto, uma oliveira perdidos. Enquanto houver herdeiros desse mapa da
memória palestina,
o apego ao chão e ao direito de nele viver continuarão a ser repassados aos
mais jovens. Ou, como escreve a tunisiano-britânica Soumaya Ghannoushi,
especialista em política do Oriente Médio, “enquanto houver crianças, a
Palestina vive”.
Crianças nunca iniciam guerras, mas são
elas as mais indefesas — não só em Gaza, como na
Ucrânia ou nas favelas brasileiras. Em março, o Ministério da Saúde de Gaza
divulgou um documento de 1.516 páginas contendo o nome completo de palestinos
mortos desde a resposta militar israelense ao ataque terrorista de outubro de
2023. As primeiras 27 páginas da listagem abarcam somente bebês de menos de 1
ano. Das 15.613 crianças nomeadas no documento (31% do total de mortos), quase
2.100 só chegaram a viver dois anos. No mês seguinte, com o frágil cessar-fogo
atropelado por Benjamin
Netanyahu, chegou a quase 17 mil o total dessas infâncias interrompidas.
Um quarto de século atrás, o jornalista Charles Enderlin, da
emissora France 2, relatou ao mundo a morte de um menino palestino, Muhammad
al-Durrah, de 12 anos, nos braços do pai, vítima de saraivada de balas
atribuídas a disparos de soldados israelenses. A cena exibida tinha 55
segundos, enquanto o total filmado, porém jamais divulgado, dura 27 minutos.
Ela fora captada pelo câmera Talal Abu Rahma, correu mundo e gerou indignação
global, tornando al-Durrah mártir e símbolo cultuado da luta palestina. Hoje,
amontoam-se análises documentais e versões contraditórias impedindo que se
chegue a uma conclusão inequívoca do ocorrido. Ainda assim, o que pareceu ser a
imagem de uma única criança metralhada até morrer nos braços do pai incendiou o
mundo.
Hoje? Apesar dos números citados acima, do streaming
ininterrupto de brutalidade militar contra a vida humana, vegetal ou animal de
Gaza, o mundo se esconde atrás de princípios declaratórios.
— Enquanto houver crianças, escreve Soumaya Ghannoushi, as
que não morreram caminham descalças pela terra arrasada, crianças de braços
finos carregando irmãos ainda menores, agarrados ao que resta da família.
Algumas estão cobertas de cinzas, já não choram, estão em choque. Outras gritam
por nomes que não respondem. Não há segurança em Gaza, não há silêncio, não há
pausa. Há apenas movimento: de fugir, de enterrar, de fugir mais. Que tipo de
guerra é esta que produz uma geração de crianças sem pernas? Que Estado trava
este tipo de guerra e lhe dá o nome de autodefesa?
Hoje a Faixa de Gaza tem o maior número de crianças
amputadas per capita do planeta — amputações muitas vezes realizadas em
condições aberrantes, sem anestesia e à luz de lanterna, como consta dos
inúmeros relatórios produzidos por equipes médicas internacionais. Um número
obsceno dessas crianças feridas teria sólidas chances de vida se transferidas
para instalações e cuidados apropriados.
Segundo dados de um fundo assistencial com sede nos Estados Unidos (PCRF),
há mais de 5 mil crianças em Gaza à espera de aprovação de Israel para ser
evacuadas. Outras vezes são os países de excelência no tratamento infantil que
se fazem de surdos. O Reino Unido governado
pelo trabalhista Keir Starmer demorou 17 meses para aceitar receber crianças
palestinas feridas — e, mesmo assim, apenas duas meninas até agora.
— Este não deveria ser comemorado como um momento de orgulho
nacional, e sim de desonra nacional — desabafou Omar Abdel-Mannan, um dos
médicos envolvidos na operação.
Em comparação, o mesmo Great Ormond Street Hospital londrino
recebera mais de cem crianças ucranianas também vítimas da guerra. Se
conseguirem sobreviver, tornar-se jovens, talvez alcançar a cidadania num mundo
inglório, as crianças de Gaza não haverão de esquecer. Não esquecerão o que não
fizemos.

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