Gaza foi transformada no maior campo de concentração a céu
aberto jamais conhecido pela humanidade. Um inimaginável “corredor da morte”
onde o povo palestino, mais da metade crianças, aguarda a condenação sem sursis
ditada pelo inimigo luciferino assustadoramente belicoso e perverso. E, na
mesma medida, covarde. O governo sionista de Israel promove, há meses, sob as
vistas cegas da comunidade internacional, cínica, uma declarada limpeza étnica.
Nesse verdadeiro “campo de concentração e extermínio” os desgraçados não
caminham com seus próprios pés para as câmaras de gás a que eram condenadas as
vítimas do nazismo: são destroçados pelas bombas do moderníssimo exército do
Estado de Israel, fundado em 1947 sob os auspícios da ONU exatamente para
garantir um lar ao povo sobrevivente do holocausto. Como os judeus de ontem, os
palestinos de hoje não têm condições de defesa; mas sobre eles (como se a fome,
o vilipêndio e o roubo de suas terras não fossem suficientes) um poderoso
exército – aviões supersônicos, drones, mísseis, tanques de guerra e toda
sorte de artilharia –vomita bombas. Trata-se de um genocídio operado às claras
e à sombra da iniquidade moral de uma comunidade internacional que a tudo
assiste impassível. Ao contrário dos prisioneiros do campo de concentração de
Auschwitz, as vítimas de hoje não podem sonhar com a libertação do Exército
Vermelho, que em janeiro de 1945 avançou sobre a Polônia a caminho de Berlim.
Ninguém marcha em seu socorro. Estão abandonadas “à própria sorte”, que se tem
revelado madrasta.
Os que escaparem do cerco de Gaza
já estão condenados à ausência de futuro: sem pátria e sem terra, não
terão para onde ir. São pobres, e não dispõem de uma cadeia de proteção
espalhada pelo mundo; são os novos condenados da terra. Sem “salvação
prometida”, foram condenados ao desterro, caminharão sem destino,
desfeitos os sonhos, perdidas as esperanças mais modestas.
Em 1947, a Palestina, então ocupada por 600 mil judeus e 1,3 milhão de árabes
(dos quais cerca de 700 mil palestinos foram expulsos), seria partilhada para
que ali se instalassem dois Estados, um judeu (o futuro Estado de Israel) e
outro árabe. O primeiro se estabeleceu, e sabe-se o que é ele hoje. O
outro, passados 78 anos, aguarda o reconhecimento internacional que lhe é
negado. Lideram a recusa os EUA e sua coorte: Reino Unido, Alemanha e a
maioria da União Europeia. Israel ocupa e bloqueia os territórios palestinos da
Cisjordânia, de Jerusalém Oriental e de Gaza, onde deita e rola desde a invasão
de 1967, no curso da “Guerra dos Seis Dias”.
Os palestinos de Gaza são um povo cativo em país ocupado
para ser destruído, hermeticamente bloqueado, privado de combustível,
eletricidade, água, alimentos e remédios, com sua infraestrutura civil
destruída, as escolas postas abaixo, e os hospitais à mercê dos bombardeios. As
estimativas falam em algo como 35 e 45 mil vítimas civis. Mais de 15 mil
crianças já morreram, e a ONU adverte que outras, mais de 15 ml bebês, ainda
podem morrer se o governo de Israel continuar bloqueando a entrada de alimentos
e remédios. A propósito, o insuspeitíssimo Estadão (29/5/25),
claramente vinculado aos interesses da direita internacional, reproduz matéria
de agência de notícias estrangeira sob o seguinte título: “Palestinos famintos
invadem centro de distribuição de comida”. Abaixo estampa foto de multidão de
jovens e velhos, todos famélicos, disputando uma cuia de farinha ou um naco de
pão.
Enquanto a comunidade internacional se omite, e o sionismo
aplaude os crimes de guerra, Ehud Olmert, ex-primeiro ministro de Israel
(2006-2009), define a política sionista como “perversa, maliciosa e
irresponsável”. É preciso ouvi-lo:
“Netanyahu, tipicamente, tenta obscurecer o tipo de ordens que vem dando, a fim
de se esquivar de responsabilidade legal e criminal no devido tempo. Mas alguns
de seus lacaios dizem isso abertamente: ‘Sim, vamos matar Gaza de fome’”.
Acusa: “Israel está cometendo crimes de guerra”.
Ehud Olmert certamente identifica como lacaios do
genocida personagens como o ex-ministro e ex-deputado e líder direitista Moshe
Feiglin, fundador do Zehut. Vejamos o que declarou em entrevista ao Canal
14, da televisão israelense:
“Toda criança, todo bebê em gaza é um inimigo. O inimigo não é o Hamas, nem a
ala militar do Hamas. Toda criança em Gaza é um inimigo. Temos que conquistar
Gaza e colonizá-la e não deixar uma só criança lá. E não há outra vitória”.
O conteúdo do áudio foi registrado pelo The
Guardian e correu o mundo, sem, contudo, despertar o menor interesse da
grande imprensa brasileira.
Ao contrário dos nazistas, que tentavam esconder o holocausto, o genocídio
levado a cabo contra os palestinos é escancarado, exposto ao mundo, tonitruado
e exaltado pelos dirigentes de Israel e dos EUA, a potência imperial que lhes
fornece apoio político, econômico, militar e logístico. Ao contrário do povo
alemão, que alegava desconhecer os consabidos crimes do nazismo, a população de
Israel aplaude o genocídio.
Segundo pesquisa encomendada pela Penn State
University, e analisada por Tamir Sorek, “82% dos judeus-israelenses apoiam a
limpeza étnica de Gaza, enquanto 56% apoiam a expulsão de palestinos com
cidadania israelense, comumente designados pelo léxico colonial como
árabes-israelenses, e 47% concordam com a matança de palestinos em áreas
conquistadas por Israel”. A visão fundamentalista, messiânica e supremacista,
todavia, não muda, quando, diz a pesquisa, é ouvido o público secular: “69% dos
secularistas apoiam a expulsão forçada dos moradores de Gaza, e 31% deles veem
o extermínio dos moradores de Jericó como um precedente que as Forças de Defesa
de Israel (IDF, na sigla em inglês) deveriam adotar.”
Os últimos acontecimentos, porém, e o temor de que a
barbárie sionista torne impossível o retorno dos reféns ainda nas mãos do
Hamas, podem mudar o quadro interno. Registram-se as primeiras reações
populares contra os reiterados crimes de guerra do Estado sionista.
Manifestações de protestos surgem em várias capitais europeias.
A tudo o que se sabe e não se pode mais ignorar, a
imprensa maistream batiza de “a guerra de Gaza”, como se estivéssemos
em face do confronto entre dois exércitos. Assim participa da “guerra”,
manipulando a informação, uma de suas frentes mais importantes. Ecoa a
narrativa ideológica que interessa a sionismo, e ainda distorce ao reiterar que
as ações militares têm os guerrilheiros do Hamas como alvo, quando qualquer
análise fria põe a nu que o objeto dos massacres é uma hedionda limpeza étnica.
É preciso denunciar e repetir à exaustão.
Agências internacionais, em meados deste maio, estimavam
algo entre 35 e 40 mil como o número de vítimas civis fatais em Gaza. Ainda é
impossível calcular o número de feridos e mutilados e invalidados. Mas já se
pode dizer que todos perderam seus bens e a cidade foi reduzida a nada. Onde já
se comemorou a vida, onde um dia foi possível acreditar no futuro, apostar no
sonho de um novo lar, o sionismo construiu um grande túmulo; nele se misturam
vidas mortas e ruínas. Os palestinos amargam a angústia de não saberem até
quando estarão vivos.
Nosso silêncio, nossa inação, como povo, como sociedade,
como agentes políticos, o silêncio de nossas organizações, a apatia da
academia, o sono dos sindicatos, a miséria de nossos partidos, nossa pobreza
revolucionária, nosso recuo diante do establishment serão registrados
pela História como cumplicidade moral.
Do nosso governo é justo esperar algo mais que a justa
retórica.
A miséria nazista, que atingiu de forma bruta e até então
impensável os judeus, os comunistas, os progressistas e o pensamento de
esquerda de um modo geral, os homossexuais, os ciganos, os doentes
mentais, os dissidentes – a miséria dos crimes de guerra cometidos na
Segunda Guerra –, foi condenada tanto pela indignação ética do mundo que então
se recompunha, quanto pelo direito internacional, erguido pelo poder vencedor
dos aliados. O direito carece da força para se impor. Quase todos os
criminosos de guerra do Eixo (afora os que se suicidaram, como Hitler) foram
julgados e condenados pelo Tribunal de Nurenberg. Ocorre que os criminosos de
hoje são os que controlam a força que controla o direito.
Os crimes de guerra dos EUA no Vietnã foram julgados
pelo Tribunal Russell. Na altura, era o máximo possível diante da potência
guerreira. Não implicou consequências objetivas, não evitou novas invasões, nem
novas ocupações, nem novos crimes de guerra, mas, pelo menos, pode-se dizer que
nossa consciência crítica, com aquele gesto de notável carga simbólica, rompeu
com a inércia moral, e, não podendo intervir no processo histórico, deixamos
nosso testemunho. A posteridade julgará os omissos.
Desprotegida do que ainda chamamos de civilização, que dela
se apartou, Gaza, vazia e morta, logo se transformará na formosa Riviera dos
sonhos imobiliários de Trump. Suas praias, nas margens orientais do Mar Negro,
hoje interditadas, em breve estarão liberadas. Bem guardadas, serão desfrutadas
por brancos europeus, norte-americanos e israelenses endinheirados, livres de
palestinos e dos pobres de um modo geral. Não será ainda o grande sonho,
mas pode ser a nano sugestão de uma terra prometida.
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A miséria nossa de cada dia I – Se a sociedade se
cala, o Senado Federal altera a voz. No último 20 de maio a chamada Câmara Alta
aprovou, por injustificável unanimidade, isto é, com os votos dos partidos
conhecidos como progressistas, projeto de lei que institui o dia 12 de abril
como o “Dia da Amizade Brasil-Israel”, que nunca esteve tão rala como agora. E
esmerou-se na escolha do pior momento, exatamente quando o Estado sionista
intensifica o genocídio de que é vítima o povo palestino. Resta saber se o presidente
da República terá força política para vetá-lo. Abraços ao sempre mestre Paulo
Sérgio Pinheiro, que nos honrou com seu protesto.
A miséria nossa de cada dia II - O Senado se
esmera no esforço por autodesqualificar-se. Isso não é bom para a República,
nem muito menos para a democracia, fundada na representação popular. No dia 27
de maio, a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, compareceu à Comissão de
Infraestrutura para discorrer sobre “a criação de unidade de conservação
marinha na margem equatorial do Amapá”. Abordou o tema requerido, mas por ele
não se interessaram os senadores. Isso não lhes dizia respeito: o convite
se convertera em mero despiste para uma cilada.
Ao invés de debater com a Ministra, os senadores, agindo
como coletivo, partiram para o ataque gratuito, e a agrediram, no limite da
ofensa física. Abusaram dos gritos, da tentativa de desconstituição política e
pessoal, abusaram dos insultos, mesmo daqueles descabidos em roda de bar de
beira de estrada.
Abusaram da prepotência machista, da misoginia, do racismo e
da exposição dos preconceitos os mais repugnantes. Exaltaram-se na defesa
lobista dos negócios de empreiteiras, dos capitães de motoserra e dos
interesses inconfessáveis, mas conhecidos, que se levantam contra a proteção do
meio-ambiente, que, ao fim e ao cabo, é a defesa da vida. A comissão
saiu-se mal, os senadores saíram-se mal (todos, os grosseirões e os que fugiram
da defesa da ministra), mas ela saiu-se muito bem, fez-se forte ante os que queriam
enfraquecê-la; saiu limpa e digna como entrou. Fico de pé para aplaudir Marina
Silva.
Enfim, há o que saudar – Em meio a tanto mal-estar, em
meio ao choro de saudade de tanta gente que partiu aumentando nosso vazio, há
uma alegria por festejar: os prêmios de Kleber Mendonça e Wagner Moura,
dois intelectuais comprometidos com a construção de uma nova ordem social.

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