Manifestações provaram que a esquerda continua hábil em
se achar dona de pautas que são de todos os democratas
Domingo, 21 de setembro, manifestações país afora. Há quem
diga que demonstraram a força da esquerda — eu diria que provaram que a
esquerda continua hábil em se achar dona de pautas que são de todos os
democratas. Teria sido uma ótima oportunidade de unir o país —como nas Diretas
Já, no Fora Collor, no ouro de Rebeca Andrade.
Não deu — mas foi bonita a festa, pá: não é todo dia que se junta tanta gente
contra a impunidade (lembrou a campanha da finada Ficha Limpa). E, ainda por
cima, ouvindo Chico, Gil, Caetano e Djavan — vestidos de verde, amarelo, azul e
branco. Copacabana estava
colorida, esperançosa, embandeirada.
Havia inúmeras bandeiras da Palestina, país
(ainda não oficial) atacado e quase totalmente destruído por Israel — uma nação
democrática que luta pelo direito de existir e cujo inimigo não são os
palestinos, mas os terroristas do Hamas. Não vi
nenhuma bandeira da Ucrânia, país
(oficial, reconhecido) invadido pela Rússia —
autocracia com pretensões expansionistas. Quantos daqueles que se posicionavam
pró-democracia reconheceriam meu direito de portar uma bandeira ucraniana na
manifestação em que todos parecíamos defender os mesmos valores?
Havia também bandeiras do arco-íris — que, nos meus tempos
de catecismo, era o símbolo da aliança entre o Criador e as criaturas que Ele
tentou exterminar, dando um Format C: no planeta, com o dilúvio. Hoje ela
expressa diversidade. Os que carregassem uma bandeira dessas na Palestina (ou
em qualquer outro país muçulmano) receberiam acolhida similar à que eu teria se
chegasse em Copacabana enrolado numa bandeira com a estrela de David.
A pauta da festa — rejeição à asquerosa PEC da Bandidagem e
à oportunista anistia aos golpistas — não era do PT, mas do
Brasil. E havia, em números similares, o rubro estandarte petista e o auriverde
pendão da nossa terra. Este último, símbolo de que a direita havia se
apropriado e que acabou de descartar — trocando as 27 estrelinhas esparramadas
por 50 estrelonas em ordem unida, e a lúdica geometria do losango e do círculo
por um listrado basicão. Poucos anos atrás, uma bandeira do Brasil numa festa
do PT seria vaiada; graças à proverbial estupidez da direita, não mais.
Havia bandeiras do MST —
esse povo que, depois de 16 anos de governo de esquerda, continua sem terra. E
da UNE — orgulhosamente empunhadas por quem continua em posição vergonhosa do
Pisa. Baseados eram fumados livremente, ainda na ilegalidade — o PT não cuidou
da descriminalização das drogas. Aliás, os casais homoafetivos que circulavam
de mãos dadas talvez não soubessem que o reconhecimento dos seus direitos se
deu via STF,
não pelo Congresso. Dos milhares de mulheres presentes (todas fartas da
misoginia explícita de Bolsonaro, a maioria condescendente com as pequenas
gafes, os ligeiros escorregões e os leves deslizes machistas de Lula),
muitas já devem ter feito aborto em clínicas clandestinas; o tema da
descriminalização não interessa ao PT, assim como não lhe interessam o ensino
fundamental de qualidade, o saneamento básico universal, o Estado laico, a
eutanásia...
Éramos milhares em Copacabana entoando Esse imenso,
desmedido amor/Vai além de seja o que for, Cantando eu mando a tristeza embora,
Talvez o mundo não seja pequeno/Nem seja a vida um fato consumado, Gente é pra
brilhar, não pra morrer de fome. Isso não é bandeira da esquerda, mas do
humano.

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