Gonzaguinha, cantor e compositor que faria 80 anos,
questionou ‘dona moral’ em obra tão combativa quanto afetuosa
♬ Pela
postura engajada de Gonzaguinha,
pode-se afirmar com segurança que o artista carioca teria se juntado ontem aos
ícones da MPB nos protestos políticos de domingo, 21 de setembro, véspera do
80º aniversário de nascimento desse cantor e grande compositor que marcou a
música brasileira.
Sim, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (22 de setembro de
1945 – 29 de abril de 1991) nunca fugiu à luta e poderia estar festejando hoje
80 anos de vida se acidente de carro não o tivesse tirado tão cedo de cena, aos
45 anos.
Gonzaguinha sempre foi para as trincheiras nas esferas
política, social e comportamental. Entretanto, há também muito afeto nas 294
composições registradas em nome do artista. A combinação de afeto e luta na
obra de Gonzaguinha foi sintetizada no título do álbum
lançado em 2023 pela cantora Bruna Caram com músicas do autor do
samba É (1998), exemplo da vertente política da música do
artista.
Revelado em 1968 na inflamada era dos festivais, Gonzaguinha
nunca personificou o artista falsamente afável diante da imprensa musical, e
parte desta deu o troco e o rotulou de cantor-rancor, mas não
somente pela postura arisca do artista no jogo do poder com a mídia.
Os três álbuns iniciais do cantor, gravados entre 1973 e
1975, soaram de fato carrancudos, pois vieram carregados da tensão entranhada
naqueles anos de chumbo em que o Brasil vivia sob o jugo de ditadura sangrenta.
São grandes discos, mas endurecidos pelas circunstâncias da época.
Filho de Luiz Gonzaga (1912 – 1989), com quem teve relação
conturbada e pontuada por diferenças ideológicas, Gonzaguinha também se valeu
da força da música nordestina na construção da obra, herança exemplificada em Festa (1968)
e em Galope (1974).
Contudo, a origem do moleque carioca, criado no Morro do São
Carlos, berço dos pioneiros bambas do Estácio dos anos 1920, falou mais alto e
gerou muito samba bom, gênero recorrente na discografia de Gonzaguinha. Só que
o samba de Gonzaguinha sempre teve enquadramento próprio. Basta ouvir Comportamento
geral (1972) e Geraldinos e Arquibaldos (1975),
obras-primas do gênero. Sem falar no samba-enredo O homem falou (1985),
revitalizado por Maria Rita no álbum Samba meu (2007).
Na seara das relações afetivas, Gonzaguinha também marcou
época, questionando em músicas como Ser, fazer e acontecer (1982)
a “dona moral” que cerceava a ação e a liberdade femininas. Em Ponto de
interrogação (1980), o compositor se adiantou décadas em relação às
funkeiras e rappers ao dar grito de alerta para o macho que pouco ou nada se
importa com o prazer feminino na hora da cama.
Ponto de interrogação e Ser, fazer e
acontecer figuram no álbum Eu
apenas queria que você soubesse (2025), lançado há um mês pela
cantora Sandra Pêra com 12 músicas do compositor.
Quando aumentou a dose de amor no cancioneiro a partir do
álbum Começaria tudo outra vez... (1976), sem nunca
deixar de ser politizado, Gonzaguinha virou o compositor preferido das cantoras
mais populares de MPB. Maria Bethânia – que já regravara o bolero Começaria
tudo outra vez em 1977 – estourou em 1978 com Explode coração
(Não dá mais para segurar), canção tida como política, mas interpretada
pelo povo como canção de amor e êxtase diante do gozo.
No ano seguinte, a mesma Bethânia emplacou outro grande
sucesso ao dar voz a Grito de alerta (1979), canção cuja DR da
letra teria sido escrita com inspiração em caso homoafetivo do cantor Agnaldo
Timóteo (1936 – 2021), que nunca perdoou Gonzaguinha por ter dado a música para
Bethânia (Timóteo também deu voz a Grito de alerta, mas a gravação
do cantor foi eclipsada pelo registro da intérprete baiana). Bethânia também
tomou para si o samba O que é o que é (1982), presença sempre
esperada no bis dos shows da cantora.
Como Bethânia, Gal Costa (1945 – 2022) também começou a
gravar músicas inéditas de Gonzaguinha em 1978, mas nunca estourou com canção
do compositor. Simone deu mais sorte e foi a intérprete associada a várias
músicas do compositor, sobretudo a Sangrando (1980), canção
que Gonzaguinha teria feito para Bethânia.
Já Elis Regina (1945 – 1982) expôs o gigantismo da voz ao
cantar Redescobrir no show e disco Saudade do
Brasil (1980). Outra gigante do canto feminino, Nana Caymmi (1941
– 2025) imprimiu a marca intensa nas canções Palavras (1979)
e De volta ao começo (1980).
Mesmo nas vozes das maiores cantoras do Brasil, Gonzaguinha
jamais perdeu a própria voz, pavimentando a discografia com os álbuns Moleque
Gonzaguinha (1977), Recado (1978), Gonzaguinha
da vida (1979), De volta ao começo (1980)
e Coisa mais maior de grande – Pessoa (1981), Caminhos
do coração (1982), Alô, alô, Brasil (1983), Grávido (1984), Olho
de lince – Trabalho de parto (1985), todos gravados em estúdio e
lançados pela EMI-Odeon, companhia fonográfica com a qual o cantor encerrou a
vitoriosa parceria em 1987 com o álbum ao vivo Geral.
Enquanto partia para a luta, Gonzaguinha sempre fez questão
de exaltar a vida. O simples ato de existir foi celebrado no cancioneiro deste
compositor que transitou com coerência ideológica entre o amor e a política,
legando grandes canções que ao longo dos anos vem perpetuando a memória do
artista no Brasil, palco de afetos e lutas.

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