sexta-feira, 26 de setembro de 2025

SENADO MOSTROU ALTIVEZ AO REJEITAR PEC DA BLINDAGEM

Editorial O Globo

Qualquer iniciativa para ampliar impunidade precisa ser rechaçada. Sociedade deve se manter vigilante

Foi providencial a decisão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado de rejeitar por unanimidade a PEC da Blindagem, Proposta de Emenda à Constituição que, na prática, tornava o Congresso um refúgio seguro para todo tipo de criminoso. Diante de resultado tão eloquente, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), fez bem em arquivá-la. O texto aprovado na Câmara era uma aberração. Exigia, para abertura de processo contra parlamentares, licença da respectiva Casa em votação secreta. Também limitava prisões em flagrante a casos de crimes inafiançáveis (mediante posterior avaliação no Congresso), impedia instâncias inferiores de expedir medidas contra deputados e senadores em processos civis e tornava o Supremo Tribunal Federal (STF) o foro judicial de presidentes de partidos políticos. A PEC blindava suspeitos de crimes e servia como incentivo à impunidade.

A aprovação na Câmara se deu de forma açodada na terça-feira da semana passada. Os únicos partidos cuja bancada votou em uníssono contra foram Novo, PCdoB, PSOL e Rede. No mais, como costuma acontecer com iniciativas de natureza corporativa dos parlamentares — caso do enfraquecimento das leis da Ficha Limpa e da Improbidade Administrativa —, a PEC reuniu apoio ecumênico entre várias legendas, caso de PL, MDB, PP, Republicanos ou União (o PT forneceu 12 votos, decisivos para a aprovação). Na noite de terça-feira, a votação secreta para abertura de ação penal fora rejeitada, mas retornou ao texto graças a uma manobra regimental na quarta-feira. Felizmente, cumprindo seu papel de Casa revisora, o Senado adotou postura mais altiva.

A rejeição unânime na CCJ barrou qualquer possibilidade de análise pelo plenário. Cumprindo o regimento, Alcolumbre oficializou o arquivamento. “Parlamentares encararam o tema com serenidade, altivez e coragem. Logo este tema, que tem naturalmente mobilizado a sociedade brasileira, mas, sobretudo, o Parlamento. É o que nos cabe”, afirmou. O relator, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), foi especialmente feliz em seu voto, ao constatar que se tratava de uma PEC “desenhada para proteger bandido”.

O presidente da CCJ, senador Otto Alencar (PSD-BA), já avisara, antes da votação na Câmara, que a PEC não teria chance no Senado. Com a repercussão negativa desencadeada pelo açodamento dos deputados, não teve mesmo. No último sábado, pesquisa Quaest revelou que 83% dos comentários em redes sociais haviam sido contrários à iniciativa. A oposição da opinião pública ficou patente no dia seguinte, quando dezenas de milhares de manifestantes protestaram contra ela em várias capitais, numa pujante demonstração de força.

Infelizmente, o arquivamento da PEC da Blindagem talvez não encerre o assunto. Pelos corredores do Congresso, há quem planeje voltar a propor várias das medidas em nova roupagem. Ainda que com teor mais brando, seria igualmente inaceitável. Todas as tentativas de aumentar a impunidade sob o falso pretexto de garantir autonomia aos mandatos precisam ser rechaçadas. A liberdade parlamentar está garantida. Qualquer declaração em contrário é um ataque ao bom senso. Para barrar as investidas futuras, é essencial a sociedade manter vigilância constante.

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