sexta-feira, 26 de setembro de 2025

SEGURANÇA PÚBLICA NÃO É FAROESTE

Editorial Folha de S. Paulo

Gratificação a policiais em casos de "neutralização de criminosos" aprovada no RJ estimula abusos

Comparando os quatro primeiros meses de 2024 e os de 2025, a letalidade policial no Rio saltou 34,4%, ante 0,3% de queda no Brasil

"Em caso de apreensão de armas de grande calibre ou de uso restrito, em operações policiais, bem como em caso de neutralização de criminosos", o governo do Rio de Janeiro poderá conceder "premiação em pecúnia, por mérito especial" de 10% a 15% dos vencimentos do profissional.

Este é o texto da emenda proposta por deputados da base do governo Cláudio Castro (PL) e aprovada na terça (23) na Assembleia Legislativa fluminense.

Trata-se de ressuscitar uma bonificação por bravura que havia sido instituída em meados dos anos 1990 e foi paga até 2000 para policiais envolvidos em tiroteios, prisão ou morte de criminosos.

Tal norma não à toa foi apelidada de "gratificação faroeste". Além de incentivar abusos, a medida pode aumentar o risco para os agentes. Entre janeiro a abril deste ano, 52% das mortes violentas de policiais no Brasil se deram no estado do Rio, como mostram dados do Ministério da Justiça.

A bonificação macabra serve de estímulo institucional à violência, por premiá-la financeiramente em uma profissão já precarizada em suas condições materiais e psicológicas de trabalho.

Às autoridades, caberia estruturar uma política de segurança com inteligência, tecnologia e baseada em evidências, em vez de insistir na receita ultrapassada de promover letalidade policial como forma fácil, mas ineficaz, de proteger a população.

O Rio caminha na contramão do país. Ainda segundo informações da pasta da Justiça, o número de mortes violentas —homicídios, feminicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte— subiu 6% no estado, comparando os quatro primeiro meses de 2025 com o mesmo período do ano anterior, enquanto no Brasil houve queda de 11%.

A maior discrepância em relação aos dados nacionais se dá no índice de letalidade policial. Mesmo que a redução no país tenha sido pífia, de só 0,3%, o indicador apresentou um salto de 34,4% no Rio, indo de 212 para 285 mortes causadas por agentes de segurança durante o mesmo período.

Assim, o que a gratificação aprovada pela Alerj faz nada mais é que endossar essa tendência à brutalidade policial, sem nenhum ganho efetivo em segurança para a sociedade.

Em realidade, a própria população —em especial a parcela pobre e negra, que já é a mais afetada por excessos no uso da força— torna-se alvo da polícia.

Os deputados do Rio acham que estão no Velho Oeste. Esquecem que, no Estado democrático de Direito, o combate à criminalidade não pode se dar fora da lei.

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