No mundo das certezas, a economia não se move e é sempre
igual, ancorada nas expectativas racionais
Shangri-lá é um paraíso terrestre fictício, um vale místico
e utópico localizado nas montanhas do Tibete. No Ocidente, tornou-se sinônimo
de uma utopia remota e exótica que representa o anseio por um mundo perfeito e
harmonioso.
O Shangri-lá dos economistas mainstream é a busca das
crenças neuróticas do equilíbrio. Se algo estiver fora da ordem, basta
colocá-lo nos trilhos do equilíbrio.
Grande representante da dita ciência econômica, Sebastian
Edwards apresentou em uma palestra no Banco de Compensação Internacional
(BIS) seus argumentos a respeito da crença equilibrista.
Edwards empenha-se em perquirir as
condições de equilíbrio na relação entre taxas de câmbio e a política
monetária. Recentemente, percebeu que havia algo de estranho ou errático na
determinação da taxa de juros no regime de metas. Realizando testes de
hipóteses com modelos econométricos, constatou um contágio das decisões do
Banco Central norte-americano nas decisões dos demais Bancos Centrais. O que
nós pobres mortais chamamos de arbitragem de juros, diferença entre taxa de
juros interna e externa, nosso cientista chama de contágio. E indagou: quem
influencia quem? A taxa de juros em relação à taxa de câmbio ou vice-versa?
Para dirimir a controvérsia valeu-se do modelo DSGE (Modelo Dinâmico
Estocástico de Equilíbrio Geral) no propósito de impedir a contestação dos
economistas do mainstream. (Estes poderiam alegar blasfêmia teórica.)
Em sua caminhada, Edwards chegou a duas conclusões
importantes: exceto o Banco Central norte-americano, nenhum Banco Central é
totalmente independente para fixar sua taxa de juros no regime de meta de
inflação, a outra, e os testes econométricos cravaram, com conta de capital
aberta e livre movimentação de capitais, a taxa de câmbio é variável que
influencia a determinação da taxa de juros.
“Os modelos que enfatizam movimentos de capital têm-se
centrado no carry trade como um dos principais determinantes das taxas de
câmbio no curto prazo. Nesses modelos, uma taxa básica de juros mais baixa gera
saídas líquidas de capital e, consequentemente, tende a desvalorizar a moeda
(Sebastian Edwards).”
Edwards percebe que algo não vai bem no reino do regime de
metas inflacionárias. A independência dos Bancos Centrais, exceto o Banco
Central norte-americano, não passa de crença na efetividade de normas e
regulações.
A celebrada independência operacional não significa
independência de fixar a taxa de juros. Os países de moeda não conversível
estão obrigados a reagir às decisões de Washington. A arbitragem e a
transmissão dependem do grau de abertura da conta de capitais.
Mas Edwards, como tantos outros, não consegue livrar-se de
dogmas e crenças. É refém do Shangri-lá do equilíbrio.
“Podemos, portanto, chamar uma crença de ilusão quando uma
realização de desejo constitui fator proeminente em sua motivação e, assim
procedendo, desprezamos suas relações com a realidade, tal como a própria
ilusão não dá valor à verificação (Freud, O Futuro de Uma Ilusão).”
Edwards propõe uma solução para o “desequilíbrio” constante
que marca o curso das economias capitalistas. Para a ortodoxia, nada mais
constrangedor que admitir desequilíbrios constantes.
Investigações não alinhadas ao mainstream oferecem
argumentos para afirmar que os desequilíbrios estão inscritos na estrutura e
dinâmica do capitalismo. Postular uma meta de taxa real de câmbio de
equilíbrio a longo prazo é mais uma aventura das mentes arraigadas às crenças
do positivismo.
Nos momentos de controvérsia aguçada, os príncipes e
sacerdotes da Ciência Econômica (sic) convocam os Quatro Cavaleiros da
Ortodoxia – Naturalismo, Individualismo, Racionalismo e Equilíbrio – para
espaldeirar a visão que afirma as permanentes oscilações nas relações entre
câmbio e juros.
No entanto, as relações entre câmbio e juros assombram o
mundo da racionalidade e do equilíbrio, como o fantasma de Banquo assombrava
Macbeth. Se já é difícil prever a taxa de câmbio nominal de amanhã, é
estapafúrdio fixar a taxa de câmbio real de equilíbrio, o Shangri-lá da utopia
algébrica perfeita. Fixar uma taxa de câmbio de equilíbrio de longo prazo é
imobilizar os movimentos que definem as relações entre inflação, juros e contas
externas.
Se já é difícil prever a taxa de câmbio nominal de amanhã, é
estapafúrdio fixar a taxa de câmbio real de equilíbrio
Aqui vamos homenagear Antônio Delfim Netto: “Lembremo-nos,
apenas, que os mesmos economistas, há pouco tempo, acreditavam na mágica das
‘expectativas racionais’ como o ‘estado da arte’ da ortodoxia. Podemos e
devemos divergir (porque é assim que aumentamos o nosso conhecimento), mas é
ridículo dizer que a política do Banco Central namora a ‘heterodoxia’. Por quê?
Pela simples e boa razão religiosa de que, infelizmente, a ‘ortodoxia’ não
existe…”
A progressiva abertura das contas de capital desde o fim dos
anos 70 suscitou a disseminação dos regimes de taxas de câmbio flutuantes,
tornando dominante a dimensão financeira nas “relações de troca” entre as
moedas nacionais, em detrimento de sua função de preço relativo entre
importações e exportações. As flutuações do câmbio ensejaram oportunidades de
arbitragem e “especulação” ao capital financeiro internacionalizado e tornaram
as políticas monetárias e fiscais domésticas reféns da volatilidade das taxas
de juro e das taxas de câmbio.
No mundo das certezas, a economia está agarrada
inexoravelmente ao equilíbrio de longo prazo, graças à operação das “forças
naturais” do mercado, as sedutoras valquírias da eficiência, empenhadas na
cavalgada rumo ao Valhalla do produto potencial, ou seja, aquele que supõe uma
permanente trajetória de equilíbrio de pleno emprego sujeita apenas a suaves
flutuações. Nessa concepção, a economia não se movimenta. É sempre igual a ela
mesma, ancorada nas expectativas racionais do “agente representativo”.
Agora só falta incluir no regime de metas de inflação, a
meta de taxa de câmbio de equilíbrio de longo prazo!
Credo quia absurdum (Creio porque é
absurdo).
Publicado na edição n° 1381 de CartaCapital, em 01
de outubro de 2025.

Nenhum comentário:
Postar um comentário