domingo, 30 de novembro de 2025

A MULHER QUE VEIO COM A CHUVA

A festa hoje é para a guerreira que não foge à luta, Luiza Erundina, completa hoje, 91 anos de vida, a mulher que veio com a chuva. Sinônimo de competência, coerência e luta pelos direitos humanos.  O trabalho parlamentar de Erundina é uma referência na política nacional. A honestidade e responsabilidade tem norteado a vida pública dessa paraibana que tem uma força e fé inabalável. Erundina nos enche de orgulho, é um ser humano fantástico.

Biografia – Luiza Erundina de Souza, nasceu no dia 30 de novembro de 1934 na cidade de Uiraúna, Paraíba. É a sétima de dez filhos de um artesão de selas e arreios de couro. Começa a trabalhar ainda na infância, vendendo bolos feitos pela mãe.

Repete a 5ª série duas vezes para não parar de estudar, uma vez que a cidade não tinha curso ginasial. Vai morar em Patos, com uma tia, em 1948, para cursar o ginásio. Forma-se em Serviço Social na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa, em 1967, e segue para São Paulo em 1971 para fazer mestrado na Escola de Sociologia e Política. Luíza Erundina sonhava ser médica, contudo, por dificuldades de ordens diversas, viu-se obrigada a suspender os seus estudos durante nove anos. Mesmo assim, ajudaria a fundar, em Campina Grande, a Faculdade de Serviço Social.

Por vias da militância católica, ela assumiria, em 1958, o seu primeiro cargo público: aos 24 anos de idade, tornar-se-ia diretora de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal de Campina Grande. E, em 1964, seria nomeada secretária de Educação e Cultura dessa cidade.

Erundina graduou-se como assistente social, em 1966, pela Universidade Federal da Paraíba; e, em 1970, concluiu o mestrado em Ciências Sociais, pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Vale registrar que, em Campina Grande, na década de 1970, ela iniciava a sua atuação na esfera política, participando das Ligas Camponesas e fazendo oposição ao Golpe Militar. E que, naquela cidade e período histórico, a participação de mulheres nordestinas, na política, praticamente inexistia. Por essa razão, ela passaria a sofrer perseguições.

Foi em 1971 que Erundina decidiu se transferir para São Paulo em definitivo; e, ainda nesse ano, foi aprovada em um concurso público para assistente social da Prefeitura, indo trabalhar com os nordestinos migrantes nas favelas da periferia da cidade.

É aprovada em concurso para a Secretaria do Bem-Estar Social da prefeitura paulistana e logo depois passa a colaborar com movimentos de periferia que reivindicam moradia e ocupam terrenos públicos abandonados, muitas das vezes em associação com as Comunidades Eclesiais de Base. Em 1980, é convidada pelo então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva a ser uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores (PT), pelo qual se elege vereadora em 1982 e deputada estadual constituinte em 1986. Em 1985, é escolhida pelo partido para ser a vice-prefeita na chapa do candidato Eduardo Suplicy por ocasião das eleições municipais daquele ano. Suplicy fica em terceiro no pleito, vencido por Jânio Quadros (PTB), mas a expressiva votação recebida pelo PT (cerca de 19% dos votos) impulsiona o crescimento do partido na cidade. Em 1987, já como deputada estadual, é agredida pela Polícia Militar durante uma manifestação de funcionários públicos contra o governo do estado (à época comandado por Orestes Quércia) promovida pelo PT.

Integrante da ala considerada mais radical do PT, ligada ao trotskismo, Luiza Erundina candidata-se em 1988 às prévias do partido para a decisão do candidato à prefeitura de São Paulo nas eleições daquele ano. O outro candidato das prévias é o deputado federal constituinte Plínio de Arruda Sampaio, oriundo do setor majoritário e moderado da legenda e apoiado por suas maiores lideranças: Lula, José Genoíno e José Dirceu. Erundina vence Plínio na disputa interna e se lança, com efeito, à corrida municipal, concorrendo com o ex-prefeito e ex-governador Paulo Maluf (PDS), com o secretário estadual João Oswaldo Leiva (PMDB), apoiado pelo governador Orestes Quércia e pelo prefeito Jânio Quadros, com o deputado federal José Serra (PSDB), com o jornalista e secretário municipal de Jânio, João Mellão Neto (PL), e com o ex-secretário municipal e genro de Jânio Quadros, Marco Antônio Mastrobuono (PTB).

De início em terceiro nas pesquisas eleitorais (atrás de Maluf e Leiva), com uma campanha caracterizada pelos baixos recursos, pela militância pesada do partido nos bairros (sobretudo periféricos, que se converteriam nos grandes redutos eleitorais de Erundina naquele ano) e pelos eloquentes ataques, durante o Horário Eleitoral Gratuito, à administração de Jânio Quadros e aos demais candidatos, vistos todos como representantes dos setores mais conservadores e elitistas da sociedade, Luiza Erundina foi crescendo aos poucos na eleição, beneficiada pela insatisfação generalizada da sociedade com o poder público, pela, à época, diferenciada proposta representada pelo PT, pela alta rejeição a Maluf e pelo baixo cacife eleitoral de Leiva, tido por muitos como um candidato-fantoche. Durante o processo, Erundina ainda agregou o apoio de demais siglas de esquerda, como o PDT e o PCdoB, chegando, na penúltima semana do pleito (na época não havia segundo turno), em situação de empate técnico com Leiva e atrás de Maluf.

A greve na Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda, ocorrida nas proximidades da eleição e que terminou com a morte de três operários devido à truculenta ação do Exército, ajudou a opinião pública a se sensibilizar acerca das reivindicações do movimento sindicalista e a rejeitar ainda mais o poder constituído de então. Alguns analistas políticos consideram que a repercussão da greve ajudou na vitória de Erundina em 15 de novembro de 1988, com 33% dos votos válidos, ante 24% de Maluf e 14% de Leiva, desmentindo as pesquisas dos dias anteriores, que davam vitória a Maluf. O próprio candidato do PDS, quando informado da vitória da petista por um jornalista da Rádio Jovem Pan, chegou a declarar que contestaria o resultado da eleição junto ao TRE. Contudo, tal intenção não foi concretizada. Após a totalização dos votos, descobriu-se que a Rede Globo não divulgou uma pesquisa do Ibope, concluída na véspera do dia da votação, que já indicava a vitória de Erundina. As circunstâncias da eleição de Erundina para a prefeitura da maior cidade do país causaram grande impacto, sobretudo pelo alto grau de surpresa, pelo próprio perfil pessoal da nova prefeita (solteira, migrante nordestina e ativa militante de esquerda) e pela significativa mudança em relação ao sistema administrativo outrora constituído.

Trajetória política

Prefeitura de São Paulo

Luiza Erundina foi prefeita do município de São Paulo entre 1989 e 1993, eleita pelo PT.

Na sua gestão elaborou ações importantes nas áreas de educação (os responsáveis pela pasta eram os educadores Paulo Freire e, depois, Mário Sérgio Cortella, reconhecidos internacionalmente) e saúde, como o aumento do salário e da capacitação dos professores da rede municipal, a melhoria na distribuição e qualidade da merenda escolar, a criação dos MOVAs (Movimentos de Alfabetização, centros de alfabetização e instrução de adultos) e a implantação de serviços de fonoaudiologia e neurologia, entre outros, nos postos da cidade, além do desenvolvimento de políticas sociais mais voltadas para a periferia.

A gestão de Erundina colocou a problemática habitacional como prioridade ao apoiar a implantação habitação de interesse social por mutirão autogerido, o que ajudou a diminuir o déficit habitacional no município. A prática do mutirão foi descontinuada por seus sucessores, como Paulo Maluf, os quais priorizaram a construção de edifícios de apartamentos por métodos convencionais, visto que os mutirões proporcionavam um certo nível de organização política aos envolvidos, assim como possibilitavam sua mobilização com relação ao atendimento de suas demandas, o que não ocorria nos projetos habitacionais de Maluf e dos demais prefeitos.

No setor de esportes, junto a seu secretário Juarez Soares, conseguiu trazer de volta a Fórmula 1 para a cidade, abrigando-a no circuito de Interlagos. Na área da cultura (comandada pela filósofa Marilena Chauí) foi responsável pela construção do Sambódromo do Anhembi e pela restauração das grandes bibliotecas do centro da cidade, como a Biblioteca Mário de Andrade. Também sancionou a lei de incentivo fiscal à cultura do município, a Lei Mendonça. Nos transportes públicos investiu na modernização da frota da CMTC e incentivou as empresas particulares a fazerem o mesmo, principalmente através de subsídios governamentais às tarifas. No transporte individual, Erundina foi bastante criticada por não ter dado continuidade em algumas obras viárias de seu antecessor Jânio Quadros, como os túneis sob o Rio Pinheiros e o Lago do Parque do Ibirapuera, empreitadas que foram retomadas por Paulo Maluf.

O ponto mais polêmico de sua gestão foi a tentativa de mudança nas regras da cobrança do IPTU, naquilo que se chamou de "IPTU progressivo": pelo projeto, apresentado em 1992 (último ano de sua gestão), proprietários de imóveis de maior valor teriam um aumento no imposto (ao mesmo tempo em que outros imóveis, isentos da cobrança, voltariam a contribuir), ao passo que imóveis menores teriam os custos diminuídos até a isenção. Tal medida foi duramente rechaçada pela Câmara dos Vereadores (de maioria oposicionista) e por setores da imprensa, até ser derrubada pelo Supremo Tribunal Federal, que considerou a iniciativa da prefeitura inconstitucional. Pela campanha deflagrada contra a atitude da prefeita e pela mesma potencialmente também atingir alguns setores da classe média, a administração de Luiza Erundina sofreu uma sensível queda em sua popularidade.

Durante seu período na prefeitura foi considerada uma das principais lideranças de esquerda no país, mas não conseguiu constituir um sucessor. O candidato de seu partido, Eduardo Suplicy, perdeu as eleições de 1992 para Paulo Maluf. Em 1996, 2000 e 2004, Erundina candidatou-se novamente ao cargo de prefeita, sem obter sucesso em nenhuma delas (apesar de ter disputado o segundo turno em 1996).

Ministra da Administração Federal

Com o advento do impeachment do presidente Fernando Collor, em 1993, logo após dar posse a Paulo Maluf na prefeitura de São Paulo, Luiza Erundina seria convidada, pelo vice de Collor e seu sucessor Itamar Franco (1992-1994), a se tornar ministra-chefe da Secretaria da Administração Federal, dentro dos esforços de Itamar Franco em constituir um governo de coalizão política (coalizão à época chamada de "política de entendimento nacional"), abrigando no primeiro escalão políticos e lideranças de diferentes correntes. Por ter aceitado o cargo, contrariando a orientação do partido, o Diretório Nacional do PT decidiu suspender, por um ano, todos os seus direitos e deveres partidários. Na ocasião, segundo uma nota divulgada pelo PT, a deputada teria rompido com a disciplina partidária, ao não consultar a legenda sobre o assunto, e ao desrespeitar a decisão do partido de fazer oposição a Itamar. Dessa maneira, em 1997 (mesmo após se candidatar pelo partido à prefeitura de São Paulo no ano anterior e ao Senado Federal em 1994), depois de 17 anos de militância, ela sairia do PT, posto que o episódio constituiu um desgaste progressivo seu com as demais lideranças da legenda. Em maio de 1993 deixou a Secretaria da Administração Federal principalmente devido a divergências com o Ministro da Casa Civil, Henrique Hargreaves, sendo substituida pelo general-de-brigada Romildo Canhim.

Saída do PT e entrada no PSB

Em 1998, Erundina transfere-se para o Partido Socialista Brasileiro (PSB); nesse ano, se elege deputada federal para a legislatura 1999-2003. No ano 2000, ela se candidata novamente à Prefeitura de São Paulo, mas perde a eleição para Marta Suplicy (PT). Em contrapartida, é reeleita deputada federal em 2002, para a legislatura 2003-2007, apoiando a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República.

Deputada federal

Em 1994 foi candidata ao Senado ficando em 3º lugar com mais de 4 milhões de votos, sendo derrotada por José Serra (PSDB) e Romeu Tuma (PL). Perdeu a eleição municipal de 1996 no segundo turno para Celso Pitta e, após uma série de desentendimentos com o partido, deixou o PT para filiar-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), representando por esse partido, a partir de 1999, o estado de São Paulo no Congresso Nacional em Brasília, como deputada federal.

Em 2002 e em 2006 foi novamente eleita para o posto. Nessas últimas eleições conseguiu obter expressiva votação, ficando entre os quinze parlamentares mais bem votados do estado. Em 2006, quando se reelege, faz oposição ao governo Lula.

Ainda em 2006, Erundina protestou contra o aumento de 91% nos salários dos parlamentares.

Em 2008 foi convidada para ser a vice na chapa encabeçada por Marta Suplicy à prefeitura de São Paulo, o que era de seu interesse, mas não de seu atual partido. O vice da campanha de Marta acabou sendo Aldo Rebelo do PC do B, apesar de o PSB ter decidido apoiar Marta.

Nas eleições de 2010, discorda do apoio de seu partido ao empresário Paulo Skaf para a disputa do governo de São Paulo e consegue, mais uma vez, se eleger para o Congresso Nacional, conquistando assim o quarto mandato seguido como deputada federal, sendo a décima mais votada do estado com 214.144 (1%), à frente de políticos como Arlindo Chinaglia, Márcio França, José Aníbal.

Candidatura a vice-prefeita de São Paulo

Luiza Erundina em anuncio para ocupar o cargo de vice-prefeita na campanha de Fernando Haddad para prefeito de São Paulo.

Em junho de 2012, tornou-se pré-candidata a vice-prefeita de São Paulo na chapa de Fernando Haddad (PT), composição muito celebrada pelo próprio PT por considerar que o nome de Luiza Erundina impulsionaria a campanha, já que Haddad, apesar de ter sido Ministro da Educação de Lula e Dilma Rousseff por mais de 6 anos, ainda era um nome pouco conhecido pela população como um todo. Entretanto, após a aliança do PT com Paulo Maluf e seu Partido Progressista também para a candidatura Haddad, firmada até mesmo com uma visita do ex-presidente Lula à residência de Maluf (em um ato político amplamente divulgado pela imprensa), Erundina anuncia seu declínio à candidatura. É substituída por Nádia Campeão, do Partido Comunista do Brasil. Contudo, Luiza Erundina continua a apoiar o nome de Fernando Haddad nas eleições, que se converteria no vencedor do pleito.

RAiZ - Movimento Cidadanista

Em 22 de janeiro de 2016,a deputada lança em Porto Alegre no Fórum Social Temático, um novo partido, o RAiZ - Movimento Cidadanista. O RAiZ tem com base os princípios do ecossocialismo, ubuntu e teko porã, e se inspira nas novas experiências dos círculos cidadanistas e de partidos-movimentos como o espanhol Podemos (Espanha).

Saída do PSB e entrada no PSOL

Em março de 2016, após 19 anos Erundina deixa o Partido Socialista Brasileiro (PSB), por esse apoiar o impeachment da presidente Dilma Roussef, e transfere-se, no período da janela partidária sem perda de mandato, ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) numa filiação transitória, até que a RAiZ - Movimento Cidadanista obtenha registro definitivo.

Candidata do PSOL, a deputada Luiza Erundina (PSOL-SP) concorreu à presidencia da Câmara dos deputados do Brasil, na votação de 13 de julho de 2016, em substituição a Eduardo Cunha, que havia renunciado uma semana antes por conta das denúncias que lhe eram feitas acerca do escândalo da Lava Jato. Erundina afirmou que a eleição da Câmara é uma oportunidade de “renovação” e afirmou que é chegado o momento de uma mulher assumir o comando da Casa. A deputada foi a 9ª a registrar candidatura à presidência da Câmara após a renúncia do deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) do cargo de presidente. Ela também prometeu “radical mudança”, se assumir o posto, e criticou o processo de impeachment da então presidenta Dilma Rousseff. Erundina criticou os retrocessos do Governo Temer e as manobras de Eduardo Cunha. Há apenas 2 projetos em disputa: "a manutenção de uma Câmara desmoralizada, manobrada pelo fantasma de Eduardo Cunha, e do outro lado aqueles que lutaram pelo afastamento de Cunha"; em seu discurso, ela ressaltou que é necessário uma nova Câmara a um novo tempo e defendeu a eleição de uma mulher ao cargo: “essa eleição é uma oportunidade para a Câmara pagar uma dívida histórica com as mulheres. Nenhuma mulher ocupou a presidência desta Casa, e poucas foram eleitas para cargos de titular da Mesa Diretora. Isso se deve à sub-representação feminina dos espaços de poder, inclusive do Parlamento”, disse. A candidata disse que é preciso discutir questões que são de “real interesse do País”, como a reforma política, a reforma tributária, a regulamentação dos dispositivos constitucionais sobre comunicação social, a reforma agrária e urbana. Quanto ao andamento dos trabalhos, prometeu fortalecer o trabalho das comissões e a participação do Colégio de Líderes. Para além dos 6 representantes de seu partido na Câmara, Erundina recebeu 22 votos nominais. Deputada há 5 mandatos, Erundina é suplente da atual Mesa Diretora. No momento em que Erundina fazia seu pronunciamento de candidatura, a hashtag #ErundinaEntraCunhaSai foi o assunto mais comentado do Twitter, mundialmente.

Candidatura à Prefeitura de São Paulo em 2016

Em outubro de 2016 foi candidata pela quinta vez à Prefeitura de São Paulo, desta vez pelo PSOL, tendo Ivan Valente como candidato a vice-prefeito. O PSOL quis evitar as primárias fazendo a decisão da escolha por um consenso. As movimentações pré-campanha ocorrem num contexto de crise política envolvendo um pedido de impeachment do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, do PT.

Em 24 de julho, o PSOL oficializou a candidatura de Luiza Erundina ao cargo de prefeita de São Paulo, com Ivan Valente como vice. Durante o evento, foi revelada a primeira aliança da chapa: o PCB formando a coligação "Os Sonhos Podem Governar". Em 30 de julho, houve o anúncio da segunda aliança: o PPL.

Em 15 de julho de 2016, o jornal Folha de S.Paulo, publicou uma pesquisa do Datafolha que mostrava Luiza Erundina com 10% das intenções de voto, ocupando, dessa forma a terceira posição. O Instituto ainda fez um cenário, excluindo o primeiro colocado nas pesquisas, o deputado federal Celso Russomanno (PRB), e Erundina apareceu com 13%, perdendo para Marta Suplicy (PMDB). O Datafolha mostrou ainda que, em um cenário com o atual prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad (PT), e com o candidato do PSDB, o empresário João Doria Júnior, Erundina venceria a disputa com 42% e 44%, respectivamente. Para o Ibope, a deputada federal aparece com 8%, em pesquisa divulgada em 29 de julho de 2016.

Em 24 de julho, o PSOL oficializou a candidatura de Luiza Erundina ao cargo de prefeita de São Paulo, com Ivan Valente como vice. Durante o evento, foi revelada a primeira aliança da chapa: o PCB formando a coligação "Os Sonhos Podem Governar".] Em 30 de julho, houve o anúncio da segunda aliança: o PPL.

Terminou a disputa com 184 mil votos. Erundina foi eleita a primeira mulher prefeita da cidade de São Paulo.

Candidatura à presidência da Câmara dos deputados em 2017

O PSOL lançou o nome da deputada para à presidência da Câmara dos Deputados, na eleição para o comando da casa no biênio 2017/18.] Caso assuma o comando da casa, Erundina afirmou que mobilizara os deputados na "luta por Diretas Já e por uma reforma política que moralize e radicalize a democracia".

Questionada pelo lançamento da candidatura e consequente o não apoio à candidatura do deputado André Figueiredo (PDT-CE), que vinha buscando apoio de partidos de oposição ao governo Temer, como PT, PCdoB e REDE, a parlamentar afirmou:

Nos últimos dias, o PSOL dialogou com essas forças políticas [da oposição] na tentativa de construir compromissos. Não dá para, no dia seguinte de uma eleição, que não tenha um rebatimento na prática. [...] Não faria sentido abrirmos mão dos nossos compromissos, da nossa atuação na Casa a troco de um processo que vai terminar amanhã

— Erundina, sobre o porque do não apoio a André Figueiredo.

Luiza disputou contra o presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ), o deputado Jovair Arantes (PTB-GO), o deputado André Figueiredo (PDT-CE), o deputado Júlio Delgado (PSB-MG) e o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ). A eleição ocorreu em 2 de fevereiro de 2017. Terminou a disputa com dez votos, pleito vencido por Rodrigo Maia, em primeiro turno, com 293 votos.

Eleições 2020

Luiza Erundina é candidata à vice-prefeita de São Paulo nas eleições 2020 pelo PSOL, constituindo chapa com Guilherme Boulos, do mesmo partido.

Juntos, Guilherme Boulos e Luiza Erundina obtiveram 1 080 726 votos, representando 20,24% dos votos válidos e levando, assim, a chapa ao segundo turno que disputa a prefeitura de São Paulo com Bruno Covas do PSDB, que foi reeleito.

Prêmios e honrarias

Prêmio

Categoria

Resultado

Congresso em Foco 2021

Melhores da Câmara (votação popular)

3º colocada

Melhores da Câmara (votação jornalistas)

2º colocada[

Mulheres na Política (votação popular)

Vencedora

Defesa da Educação (votação popular)

3º colocada

Nas eleições de 2022,  Erundina foi reeleita para o sétimo  mandato consecutivo na Câmara dos Deputados.

Com informações da Wikypedia

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sábado, 29 de novembro de 2025

'INSPIRAÇÃO' DE BOLSONARO, GENERAL HELENO PRODUZIU PROVAS QUE O PUSERAM NO XADREZ

Bernardo Mello Franco, O Globo

Soma de destempero e desinteligência complicaram ex-ministro no julgamento do golpe

O Supremo mandou para o xadrez mais três militares de alta patente que traíram a farda e a Constituição. A estrela da companhia é o general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional. Nos tempos de glória, Jair Bolsonaro o chamava de “nosso decano”.

Heleno tem currículo. Em 1977, era ajudante de ordens do ministro do Exército que tentou dar um golpe dentro do golpe para impedir a redemocratização. Sylvio Frota foi demitido, mas seu auxiliar continuou a subir na carreira. Chefiou tropas no Haiti e na Amazônia. Só não comandou a força terrestre porque quebrou a hierarquia ao atacar o governo pela demarcação de terras indígenas.

O general nunca escondeu as convicções autoritárias. Ao passar para a reserva, discursou em defesa do golpe de 1964 e do regime que lhe sucedeu. Mesmo assim, continuou a ser tratado como uma figura apta a opinar sobre os rumos do país.

Até a eleição de 2018, Heleno era mais um general de pijama com saudade da ditadura. A partir da vitória de Bolsonaro, passou a ser um risco real à democracia. O ministro chegou a ser vendido como uma voz de moderação no governo. Puro delírio, como ele próprio fez questão de demonstrar.

No sexto mês de governo, Heleno interrompeu aos gritos um café do presidente com jornalistas. Esmurrou a mesa e xingou Lula, que estava preso em Curitiba. Sem freios na língua, o general conseguiu fabricar crises até com o papa. Descreveu o Sínodo da Amazônia, convocado antes da vitória de Bolsonaro, como uma “interferência” da Santa Sé no Brasil.

Encarregado da inteligência do Planalto, o general deu demonstrações claras de inaptidão para o cargo. Numa passagem folclórica, divulgou seus dados pessoais por engano na internet. Acabou cadastrado no PT, no PSOL e na União da Juventude Socialista.

A soma de destempero com desinteligência complicou o ex-ministro no julgamento do estado-maior do golpe. Poucos réus produziram tantas provas contra si mesmos. Além de defender uma “virada de mesa” em reunião gravada, Heleno deixou uma caderneta recheada de planos golpistas.

Às vésperas de ser condenado, o general ainda tentou se descolar de Bolsonaro. Faltou combinar com o capitão. No dia em que o então ministro fez 73 anos, o presidente deixou claro que seguia suas ordens desde os tempos da Academia Militar. “Obrigado, general Heleno, por ser a nossa inspiração em tudo, em quase tudo, que fazemos lá na Presidência”, derramou-se.

O Supremo mandou para o xadrez mais três militares de alta patente que traíram a farda e a Constituição. A estrela da companhia é o general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional. Nos tempos de glória, Jair Bolsonaro o chamava de “nosso decano”.

Heleno tem currículo. Em 1977, era ajudante de ordens do ministro do Exército que tentou dar um golpe dentro do golpe para impedir a redemocratização. Sylvio Frota foi demitido, mas seu auxiliar continuou a subir na carreira. Chefiou tropas no Haiti e na Amazônia. Só não comandou a força terrestre porque quebrou a hierarquia ao atacar o governo pela demarcação de terras indígenas.

O general nunca escondeu as convicções autoritárias. Ao passar para a reserva, discursou em defesa do golpe de 1964 e do regime que lhe sucedeu. Mesmo assim, continuou a ser tratado como uma figura apta a opinar sobre os rumos do país.

Até a eleição de 2018, Heleno era mais um general de pijama com saudade da ditadura. A partir da vitória de Bolsonaro, passou a ser um risco real à democracia. O ministro chegou a ser vendido como uma voz de moderação no governo. Puro delírio, como ele próprio fez questão de demonstrar.

No sexto mês de governo, Heleno interrompeu aos gritos um café do presidente com jornalistas. Esmurrou a mesa e xingou Lula, que estava preso em Curitiba. Sem freios na língua, o general conseguiu fabricar crises até com o papa. Descreveu o Sínodo da Amazônia, convocado antes da vitória de Bolsonaro, como uma “interferência” da Santa Sé no Brasil.

Encarregado da inteligência do Planalto, o general deu demonstrações claras de inaptidão para o cargo. Numa passagem folclórica, divulgou seus dados pessoais por engano na internet. Acabou cadastrado no PT, no PSOL e na União da Juventude Socialista.

A soma de destempero com desinteligência complicou o ex-ministro no julgamento do estado-maior do golpe. Poucos réus produziram tantas provas contra si mesmos. Além de defender uma “virada de mesa” em reunião gravada, Heleno deixou uma caderneta recheada de planos golpistas.

Às vésperas de ser condenado, o general ainda tentou se descolar de Bolsonaro. Faltou combinar com o capitão. No dia em que o então ministro fez 73 anos, o presidente deixou claro que seguia suas ordens desde os tempos da Academia Militar. “Obrigado, general Heleno, por ser a nossa inspiração em tudo, em quase tudo, que fazemos lá na Presidência”, derramou-se.

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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

NICO GOLÇALVES, UM SECRETÁRIO MIDIÁTICO

Bruno Tavares, Rodrigo Rodrigues, TV Globo e g1 SP — São Paulo

Tarcísio escolhe delegado Osvaldo Nico Gonçalves para comandar pasta da Segurança Pública de SP

Delegado Nico assume a pasta no lugar de Guilherme Derrite, que deixou o cargo para retornar à Câmara dos Deputados.

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) escolheu o delegado Osvaldo Nico Gonçalves como novo secretário da Segurança Pública de São Paulo (SSP) em substituição a Guilherme Derrite. Até então, Nico atuava como secretário-executivo da pasta.

Relator do Projeto de Lei Antifacção, o deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP) deixou o cargo de secretário da SSP neste mês e voltará em definitivo para a Câmara dos Deputados a partir de segunda-feira, 1º de dezembro. Derrite já havia combinado a saída com o governador.

O delegado Osvaldo Nico Gonçalves, o doutor Nico, como é chamado pela corporação, é um dos rostos mais conhecidos da polícia paulista. Em 2022, ele foi indicado pelo então governador Rodrigo Garcia (PSDB) como novo delegado-geral da Polícia Civil do Estado.

De perfil bastante midiático, com inúmeras entrevistas em programas de televisão, ele já atuou em grandes casos de São Paulo, como o sequestro da filha e do apresentador Silvio Santos (2001), o caso de racismo envolvendo o jogador de futebol Grafite (2005) ou a prisão do ex-assessor da família Bolsononaro, Fabrício Queiroz (2020).

No caso mais famoso, tocado por ele em 2005, Nico entrou em campo ao final da partida entre São Paulo e Quilmes, pela Copa Libertadores da América, e deu voz de prisão ao jogador argentino Leandro Desábato, acusado de injúria racial contra o atacante brasileiro Grafite, no estádio do Morumbi.

O caso foi parar na capa dos principais jornais do mundo, que estamparam o rosto do delegado, hoje com 68 anos.

Em todas as investigações em que atuou, Nico sempre atendeu os jornalistas e prestou esclarecimentos sobre os crimes, abrindo caminho para que outros delegados, geralmente avessos às entrevistas, fizessem o mesmo. Ele também sempre foi visto em jantares com apresentadores e artistas.

Trajetória

Osvaldo Nico ingressou na Polícia Civil em 1979, como investigador. Antes de assumir o cargo de delegado-geral, era responsável pelo Departamento de Operações Policiais Estratégicas (DOPE) desde 2019.

Diversas vezes disse em entrevistas, porém, que o vínculo dele com a polícia de São Paulo começou ainda menino, quando era engraxate na porta do 17º Distrito Policial do Ipiranga, na Zona Sul de SP, e era incentivado pelo então delegado-titular da área, Aldo Galiano, que trabalhou 32 anos na Polícia Civil.

Depois de passar pela chefia do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC), do Grupo Armado de Repressão a Roubos (GARRA), do Grupo Especial de Resgate – GER (DEIC) e ajudar a fundar o Grupo de Operações Especiais (GOE) paulista, ele também comandou a Segurança de grandes eventos no país, como a visita do Papa em 2007 e a Copa do Mundo de 2014.

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DE TÉDIO NÃO SE MORRE NO BRASIL

Orlando Thomé Cordeiro, Correio Braziliense

Claro que é absolutamente relevante, pela primeira vez na história brasileira, podermos ter levado a julgamento e condenado pessoas e grupos pelo crime de tentativa de golpe contra o Estado Democrático de Direito, incluindo militares de alta patente

Na última semana, o país vivenciou fortes emoções. Sábado passado, fomos despertados com a notícia da decretação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da prisão preventiva do ex-presidente. As primeiras versões sobre a razão da decisão judicial apontavam que a convocação feita pelo seu filho senador de uma vigília em frente ao condomínio onde estava em prisão domiciliar causaria tumulto e poderia criar as condições propícias para uma fuga. Considerando que, semanas antes, outro condenado pela tentativa de golpe tinha fugido para os Estados Unidos, a preocupação parecia fazer sentido.

Porém, algumas horas mais tarde, verificou-se no pedido formulado pela Polícia Federal (PF) o apontamento de um período em que a tornozeleira eletrônica ficara inativa, podendo evidenciar um movimento para sua retirada. Qual não foi a surpresa quando as primeiras imagens mostraram a tentativa de danificar o equipamento com o uso de um ferro de solda, confirmada pelo próprio preso, alegando, no primeiro momento, tê-lo feito por curiosidade e, posteriormente, na audiência de custódia, afirmou ter tido um surto por uso de medicamentos.

Terça-feira, na sequência desse episódio, foi declarado pelo STF que o processo contra ele e mais seis condenados pela tentativa de golpe havia transitado em julgado, sendo determinado o cumprimento imediato das respectivas penas de todos.

Desde então, o que assistimos foi a disputa feroz nas redes sociais entre os dois polos que, desde 2018, monopolizam as publicações. De um lado, os apoiadores do ex-presidente clamando por anistia e insistindo na narrativa que há um clima de perseguição contra ele, mesmo diante das robustas provas que embasaram sua condenação; de outro, os apoiadores do governo comemorando a prisão, em um clima catártico.

Claro que é absolutamente relevante, pela primeira vez na história brasileira, podermos ter levado a julgamento e condenado pessoas e grupos pelo crime de tentativa de golpe contra o Estado Democrático de Direito, incluindo militares de alta patente. Posto isso, vale a pena uma reflexão sobre as interpretações que passaram a circular nas redes e na mídia em geral.

Uma bastante presente tem reverberado a ideia de que estaríamos, finalmente, punindo os golpistas de 1964, trazendo uma visão implícita e, por vezes explícita, de que a Lei da Anistia, promulgada em 28 de agosto de 1979, teria sido um equívoco e, no limite, uma capitulação diante da ditadura. Graças a ela, exilados e banidos voltaram para o Brasil, clandestinos deixaram de se esconder da polícia, réus tiveram os processos nos tribunais militares anulados, presos foram libertados de presídios e delegacias. Ora, ao examinarmos o cenário político à época, é mandatório afirmar que ali foi possível pavimentar o caminho de reconstrução democrática que culminou com a eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral em janeiro de 1985.

No polo oposto, há aqueles que têm usado a anistia de 46 anos atrás para defender a aplicação de medida similar aos golpistas recentemente condenados. Na base da argumentação, criam a figura imaginária de que o país está sob uma "ditadura do Judiciário". É indiscutível que muitas críticas podem e devem ser feitas ao STF, mas é forçoso reconhecer que sua atuação foi fundamental para a preservação da democracia política.

Entretanto, mais importante do que apontar as características dos dois lados é procurar identificar o caldo de cultura a fomentar tais comportamentos. Refiro-me ao ressentimento, um sentimento deletério que, temperado pelo ódio, substitui a capacidade de diálogo respeitoso entre diferentes pela ideia de eliminar adversários. Prefere-se justiçamento no lugar de justiça, vingança em vez de reparação. No terreno da política, ele se manifesta no ideário antissistema, contra tudo que está aí, na perspectiva de destruir todas as instituições porque, afinal, nenhuma delas presta.

Paradoxalmente, pesquisas de diversos institutos apontem a existência de um percentual significativo de pessoas cansadas desse clima, mas mesmos elas não são imunes à contaminação por esse sentimento que acaba se revelando, de forma quase automática e inconsciente, na hora da tomada de algumas decisões. Infelizmente, esse pano de fundo continuará presente entre nós ainda por um bom tempo, sendo alimentado também por um cotidiano marcado pelo aumento da criminalidade e da violência, gerador da crescente sensação de insegurança e medo.

Tudo indica que tal cenário estará presente, de maneira relevante, no processo eleitoral de 2026. A conferir.

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SELO DE IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO EVOCA OS TEMPOS DA FILATELIA

José de Souza Martins, Valor Econômico

Estampa comemorativa do escritor Ignácio de Loyola Brandão pelos 60 anos de seu primeiro livro lembra que a filatelia é uma educativa fonte de conhecimento, de arte, de história

Há dias, os Correios do Brasil lançaram um selo comemorativo dos 60 anos do primeiro livro de Ignácio de Loyola Brandão, membro não só da Academia Brasileira de Letras, mas também, há mais tempo, da Academia Paulista de Letras.

Ele começou com “Depois do sol”, que também abre o ciclo de livros inspirados em suas descobertas do que virá a ser o elenco de suas observações sobre a cidade grande em que passara a viver vindo de Araraquara, sua terra.

Munido com as referências da idílica cidade de origem, o que se tornou característico dos interioranos de muitos recantos do Brasil, desenvolveu um desdobramento literariamente crítico, próprio do romantismo dos que vêm de longe.

O que no geral tem feito de moradores de grandes e anômalas cidades, como São Paulo, e provavelmente acontece com os de outros cantos do mundo, pessoas de dupla personalidade. As que estão perto e longe ao mesmo tempo dos lugares do vivencial dividido. Pessoas que estão saindo quando estão chegando e chegando quando estão saindo das espacialidades referenciais de sua existência.

Sempre há um lá longe no nosso aqui perto. Perspectiva do estranhamento em relação à terra de adoção. No caso de Loyola, fundamento de sua literatura do Brasil anômico, irracional e absurdo.

Manifestação, em sua obra e em sua pessoa, como poderia dizer Antonio Candido, das necessidades de expressão de um tempo e de um lugar, os de nossa pós-modernidade sem rumo, sem passado nem futuro.

No caso de Loyola, certamente não no sentido de aversão pelo lugar em que está e de nostalgia pelo lugar de onde veio. Muito ao contrário, Loyola nunca está fora do lugar. Todos os lugares são os seus lugares. Quando minha mulher o conheceu e lhe disse que era de Bariri, no interior de São Paulo, ele abriu largo e acolhedor sorriso e disse: “Ah! Você é da Grande Araraquara”.

Falecido em 1993, “seu” Totó, seu pai, ferroviário da Estrada de Ferro Araraquarense, colecionador de selos, teria tido um piripaque se aqui ainda estivesse para colocar em seu álbum de filatelista modesto o selo com a imagem do filho.

Os Correios se lembram de que, além dele, a escritora Carolina Maria de Jesus, autora de “Quarto de despejo”, também “foi selo”. O que, pela raridade, aumenta a importância da homenagem filatélica de agora.

Sei o que isso significa. Adolescente, em meados dos anos 1950, quando já trabalhava em fábrica, descobri no lixo do escritório da divisão em que me cabia removê-lo para queimar no acendimento dos fornos de ladrilhos papéis rasgados que pudessem conter informações técnicas com segredos industriais. Não fossem eles indevidamente parar nas mãos de algum catador de papel que pudesse dar-lhes outro destino. Entre esses papéis havia envelopes de cartas recebidas pelos engenheiros, que eu recortava para remover em água os respectivos selos.

Fui, assim, formando minha pequena coleção e fazendo descobertas inesperadas na área da cultura e da história. Para jovens filatelistas, como eu, da classe operária, o selo era a página de um livro.

Não sei como, descobri que um dos jornais de São Paulo, O Tempo, tinha uma bem cuidada seção filatélica. Lia-o todos os sábados. Aprendi o que eram os selos comemorativos, como este, agora, para celebrar os 60 anos da literatura de Loyola. Eram mais bem cuidados do que os selos comuns, estes geralmente feios e sem imagens criativas.

Algumas vezes, comprava selos nas filatélicas do centro de São Paulo. No jornal e nelas fiquei sabendo das coleções temáticas e me interessei pelas que reproduziam obras de arte, pinturas. Em diferentes países, esses selos eram feitos com extremo cuidado técnico, tanto na reprodução fotográfica quanto na impressão. Cheguei a colocar uma porção deles num dos meus álbuns, dedicado à pintura. Mais tarde, dei-o a uma amiga, filatelista, que estava interessada no tema. Arrependi-me no dia seguinte, mas já era tarde.

Não raro, os colecionadores de selos são injustamente tratados como idiotas e infantis pelos que não são infantis mas são idiotas. Na verdade, a filatelia é uma educativa fonte de conhecimento, de arte, de história, da diversidade do mundo. É um redutor de ignorância, um instrumento verdadeiramente subversivo de proteção dos imaturos e simples contra a horizontalização da realidade e a cultura plana a que a cultura vem sendo reduzida.

É significativo que a obliteração do primeiro selo com a efígie de Ignácio de Loyola Brandão tenha ocorrido durante um evento cultural em sua terra. Selos comemorativos, como esse, equivalem a um monumento como os erguidos em praças públicas, apenas para serem vistos. Até mais porque são, assim, colocados em muitas vidas para dar-lhes o que pensar.

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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

JAIR, O PRESIDIÁRIO

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Não há pacificação sem justiça e não há justiça sem direitos humanos

Imagino que Bolsonaro não seja mais a favor do adágio "bandido bom é bandido morto", agora que o bandido condenado é ele mesmo. A redescoberta recente de normas de direitos humanos pelo grupo bolsonarista é, portanto, seletiva; não expressa de forma alguma adesão irrestrita à proteção da dignidade humana para todas as pessoas, inclusive golpistas. Jair, o presidiário, tem os mesmos direitos que historicamente seu campo político desprezou com afinco. E isso Jair deve agradecer ao tal povo dos direitos humanos.

No que chamaram de visita técnica ao Complexo Penitenciário da Papuda, parlamentares bolsonaristas, entre eles a senadora Damares Alves, listaram uma série de preocupações com as condições do local.

Questões de acesso inadequado à saúde, alimentação e higiene foram levantadas por eles. Em dez anos, entre 2013 a 2023, o Brasil matou 17 mil presos. Cerca de 95% dessas mortes entre 2018 e 2022 ocorreram por causas evitáveis.

Jair, ao final, vai cumprir sua pena na Superintendência da Polícia Federal, não na Papuda. A razão, quem diria, também é por uma questão de direitos humanos, qual seja: a igualdade de direitos com o caso de Lula. Bolsonaro, o político, concordaria, ao contrário, em conceder a amigos tratamento privilegiado e, a desafetos, tratamento inferior. Bolsonaro, o presidiário, deveria ser grato ao fato de que direitos, diferentemente de privilégios, não funcionam assim. Direitos humanos protegem a todos, inclusive presos e, quem diria, inclusive Bolsonaro.

Não para por aí. O gosto doce que sentimos ao ver generais golpistas na cadeia tem nome, chama-se justiça. Mais especificamente, justiça de transição, outra norma de direitos humanos.

Nunca na história do país tivemos generais presos por atentar contra a democracia. O ineditismo do momento atual revela o que seria possível se tivéssemos feito um processo sério de justiça de transição pelos golpes de Estado na história brasileira. Não há pacificação sem justiça e não há justiça sem direitos humanos, inclusive para o Jair.

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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

PASTORES AINDA VESTEM A CAMISA BOLSONARISTA, MAS ELA AGORA ESTÁ DESBOTADA

Anna Virginia Balloussier, Folha de S. Paulo

Prisão reforçou certo desânimo de liderança evangélica com ex-presidente

Com lábia de pastor, Tarcísio empolga religiosos que um dia reverenciaram Bolsonaro

A cúpula evangélica do país continua a vestir a camisa bolsonarista, mas já admite que esse tecido esgarçou. O sentimento foi reforçado pela prisão de Jair Bolsonaro (PL), sucedida por momentos descritos como constrangedores por pastores, como o vídeo em que ele fala da tentativa de abrir uma tornozeleira com ferro de solda.

Os reveses judiciais, somados à sua derrota em 2022 para Lula (PT), após uma campanha com alta voltagem messiânica, têm desanimado boa parte dos líderes que lhe fizeram juras de amor no passado.

Aquele coro barulhento de púlpitos e lives hoje soa mais tímido, até omisso. A maioria dos pastores que faziam fila para ungir Bolsonaro já prefere o silêncio calculado.

Demonstrações públicas de afeto costumam vir de políticos evangélicos, como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que clamou pela "voz de um Brasil que ainda tem coragem".

Ou o deputado Marco Feliciano (PL-SP). Ele diz que evangélicos nunca abandonarão seu capitão. "Não bastasse a injusta prisão, para justificá-la, culparam a vigília de oração convocada por Flávio Bolsonaro. Isso, para nós, é inadmissível."

A bancada evangélica divulgou nota que é quase um exercício de caligrafia institucional: repete o mantra do "devido processo legal", manifesta solidariedade à família, fala em "elevada tensão" no Brasil —e para por aí. Não há qualquer tentativa de transformar Bolsonaro em mártir espiritual, como já se viu em outros tempos.

O texto parece escrito com luvas: evita adjetivos inflamados, não cita valores cristãos e se escora em termos jurídicos. A impressão é de que o bloco precisava se pronunciar, mas escolheu a zona neutra, quase no limite do protocolar. O grupo é liderado por um bolsonarista tido por pares como não radicalizado, Gilberto Nascimento (PSD-SP) —que tem, por sinal, Silas Malafaia como cabo eleitoral.

Há, claro, Malafaia, firme e forte como porta-voz do bolsonarismo nas igrejas, quase como quem prega no deserto. Seus vídeos inflamados contra o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, antes capazes de incendiar a opinião pública evangélica, agora têm efeito reduzido.

Nenhum outro líder de envergadura nacional, passadas mais de 72 horas após Moraes decretar a prisão preventiva de Bolsonaro, fez uma defesa apaixonada do ex-presidente. A Folha conversou com três deles, que subiam em palanques e púlpitos com Bolsonaro durante o último ciclo eleitoral.

Eles falam em "consternação" pela prisão daquele que tinham como presidente que mais se alinhou a seus valores. Mas já deu. "Ele deixou de ser unanimidade", diz um desses pastores, que prefere falar em anonimato. Menciona o "fator Malafaia", que inibiria muitos líderes de expor mais abertamente certa prostração com o bolsonarismo, com medo de serem atacados pelo pastor carioca.

O pastor, por sua vez, diz lamentar que a maioria dos líderes não tenha "muita coragem, muita convicção e muito argumento" para peitar Moraes. "Não é só pastor, não, minha filha. É a sociedade inteira. Nunca tivemos um povo com medo de postar coisas nas redes sociais como agora." A retração, segundo ele, é culpa de Moraes, a quem acusa de perseguir quem tem opiniões que o desagradem.

Fato é que, fora Malafaia, não há posicionamento mais combativo contra o destino judicial de Bolsonaro. De Estevam Hernandes (da Marcha para Jesus) a Renê Terra Nova (influente no Norte brasileiro), nem um pio.

Falas como a de César Augusto, à frente da igreja Fonte da Vida, sintetizam a disposição de defender o ex-presidente a esta altura do campeonato.

À Folha ele pede tratamento "humanitário" com "um senhor de 70 anos" de saúde fragilizada pelo atentado sofrido em 2018, diz. "Eu, como sacerdote, continuo em oração. Peço que Deus intervenha trazendo justiça e paz a nossa nação."

O tom se avizinha ao da nota emitida pela Frente Parlamentar Evangélica. Algo, inclusive, que "destoa da forma como Bolsonaro se apresenta", repara o cientista político Vinicius do Valle. "Ele tinha isso de ser uma pessoa comum e ao mesmo tempo mostrar força: ‘Sou imbrochável, incomível, imorrível'."

A imagem do governante que emula tanto um homem do povo, gente como a gente, quanto um super-homem aparece agora comprometida. Parte do apelo de Bolsonaro com a base evangélica residia justamente aí.

Ele tentou vestir a fantasia do líder viril típico de certas leituras bíblicas —o guerreiro destemido, à imagem de um Davi que enfrenta gigantes ou de um Josué que conquista territórios com respaldo divino. Esse imaginário masculino foi mobilizado para vender a ideia de um comandante ungido.

Sem perspectiva de retorno imediato ao jogo institucional e com processos se acumulando, Bolsonaro deixa de ser ativo eleitoral para virar risco reputacional.

A prisão não enterra o bolsonarismo entre evangélicos, mas a "solução Tarcísio de Freitas", uma chapa presidencial encabeçada pelo governador de São Paulo, encorpa a cada dia que passa. Com lábia de pastor, o católico filho de missionária evangélica empolga muitos desses pastores que um dia reverenciaram Bolsonaro como resposta dos céus para o Palácio do Planalto.

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BOLSONARO PRESO. NOVO FIM OU RECOMEÇO ?

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Pena para líderes e militares do golpe é novidade neste país de autoritários e golpistas

Democracia corre perigo ao menos de degradação profunda, pois falta reforma renovadora

Um ex-presidente, Jair Bolsonaro, foi devidamente processado e condenado por tentativa de golpe; cumpre pena. Dois ex-comandantes de Força Armada, um do Exército, outro da Marinha, também, entre outros militares. É inédito. Seria um recomeço para a democracia? Ou é um novo fim de outra onda de ataque reacionário, vitória provisória?

A condenação e a prisão de comandantes militares é novidade no sentido forte da palavra "histórica" neste país de golpes impunes (todos). É ainda atrasadíssimo acerto de contas institucional, ao menos na aparência. Isto é, pareceria agora estabelecido que militares são servidores do Estado sem prerrogativa política alguma.

Mas o afastamento das Forças Armadas da política também parecia estabelecido, mal e mal, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Bastou aparecer um trem com destino à autocracia, puxado pelo vagão Bolsonaro, e o partido militar pegou carona para voltar ao poder, sob liderança dos ressentidos, dos filhotes e dos netos da ditadura, que não estava morta, junto de grupos socioeconômicos que queriam enfim mandar diretamente.

Um artigo da Constituição inspirava golpistas. A educação e o regulamento dos militares não foram reformados. Continuavam as comemorações anuais do golpe de 1964. Bolsonaro fez agitação em quarteis. Mauro Cid, o delator, e colegas estudavam como legitimar golpe militar na escola de pós-graduação do Exército.

Condenações e prisões vão mudar a instituição militar, por si só? Talvez. Mas não há reforma à vista. O clima é de nova acomodação, até porque parte relevante do Congresso e dos governadores, por exemplo, é golpista, simpatizante, bolsonarista, de ultradireita ou de bancadas da bala.

Tivemos vários fins sem recomeço desde 2013, quando entrou em estado terminal o sistema político que se desenvolveu a partir de 1988. Da Constituição a 2013, o país viveu o melhor da sua única democracia que mereceu o nome, apesar de defeitos terríveis, arranjos elitistas e opressões.

Em 2014 a oposição derrotada começou a fazer propaganda contra a legitimidade das eleições. Uma conspiração judicial-processual degradou a descoberta de imensa corrupção em um projeto político, a Lava Jato. A reação à Lava Jato resultou em impeachment oportunista, de parte de bandidos e derrotados na política democrática, quase todos os mesmos que se juntaram a Bolsonaro a partir de 2017, dispostos a qualquer artimanha para derrotar qualquer esquerda.

Houve degradação institucional do Supremo, cada vez mais político politiqueiro e, muito pior, do Congresso, que depreda o Orçamento com usurpação parcial de poderes, pois sem responsabilidade pela destinação (ou desvio) de dinheiro público. Parte grande do Parlamento se tornou corporação de defesa de dinheiros e feudos eleitorais e, em parte, coadjuvante de golpismo e da proteção da criminalidade política. Há grande desconfiança popular na democracia. A militância ultradireitista pelas redes é adepta da autocracia, contra certos direitos civis, no mínimo, e inimiga do Estado laico.

O otimista dirá que começa o refluxo de todos esses ataques à ideia de República democrática. Talvez ao menos murche o desejo de golpe. Dadas as linhas de força da economia e da política mundiais e a política dominante no país, não parece haver reforma maior no horizonte, a não ser que se invente ou brote nova onda popular de revolta, agora pela democracia.

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O BRASIL VENCEU ?

Mariliz Pereira Jorge, Folha de S. Paulo

Prender golpistas deveria ser o básico, não o auge da democracia

A risada vem fácil porque estamos exaustos; somos um país emocionalmente quebrado

Nas redes sociais, a notícia da condenação definitiva de Jair Bolsonaro a 27 anos e a prisão de generais golpistas virou piada. Tem figurinha, montagem, dancinha, decreto de que o "Brasil venceu". Como cidadã, me peguei com um sorrisinho safado no canto da boca; como jornalista, só penso no grau de esgotamento coletivo que essa frase esconde.

Não é só o ex-presidente que sai dessa história com uma certa "confusão mental". Se Alexandre de Moraes fosse, de fato, impiedoso, aumentaria a pena pelo trauma nacional causado por ele.

Foram anos de uma sequência de impeachment, presidente preso, ascensão da direita, presidente solto, flerte com ditadura, quartel com pose de poder moderador. Instabilidade política envelhece. Num país com Estado de Direito tinindo, eu seria uma gostosa com a ioga e o colágeno em dia e não uma senhora cansada e meio corcunda de tanto ler, escrever e viver essa distopia em looping.

Há motivo para alívio, claro. Ver Bolsonaro e seus generais começando a cumprir pena fere o mito da impunidade eterna. Mostra que golpe tem custo. Mas também escancara o tamanho do estrago: foi preciso chegar ao ponto de uma trama golpista explícita para o país aceitar olhar para suas fissuras democráticas.

E agora vemos um gesto mínimo de justiça virar uma catarse nacional. A risada vem fácil porque estamos exaustos. A comemoração vem rápida porque seguimos desconfiados de tudo: das instituições, dos acordos de bastidor, das brechas que costumam aparecer na penúltima página do Diário Oficial. Somos um país emocionalmente quebrado, politicamente traumatizado, tentando encenar normalidade.

O Brasil venceu? Tenho dúvidas. Talvez tenha apenas evitado uma derrota ainda mais humilhante. Prender golpista deveria ser o básico, não o auge da democracia. Vitória seria o dia em que esse tipo de decisão não parecesse épica e responsabilizar conspiradores deixasse de ser exceção histórica. Pode ser só o peso da idade, mas me falta entusiasmo para gritar "vencemos" junto com a internet, quando, na verdade, remendamos nossas feridas cívicas em silêncio.

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DIVISÃO NA DIREITA BENEFICIA LULA ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Eleição em dois turnos reduz riscos de fragmentação de uma das alas ideológicas

Introdução de voto valorativo permitiria superar quadro de polarização cristalizada

Se a direita sair dividida para a disputa presidencial do ano que vem, o maior beneficiário será Lula? Eu subscreveria essa tese, se nosso pleito fosse decidido em turno único. Não sendo esse o caso, discrepo.

Qualquer que seja o nome do candidato da direita que passar para o segundo escrutínio, ele receberá o voto até dos bolsonaristas mais radicais que agora esperneiam e acusam traições generalizadas. É o que acaba de ocorrer no Chile. A direita saiu dividida, a esquerda chegou à frente, mas é o candidato pinochetista que desponta como favorito na disputa final, já que a soma dos votos conservadores supera com folga a dos progressistas.

O quadro até poderia ser outro se houvesse aqui dois candidatos de esquerda viáveis, que acabassem à frente dos postulantes de uma direita hiperfragmentada. Esse, porém, me parece um cenário extremamente improvável. Alguém imagina um segundo turno entre Lula e um representante do PSB?

O resumo da história é que a direita abstrata já tem lugar assegurado no segundo turno. Individualmente, porém, cada um dos postulantes conservadores precisa evitar o veto do clã Bolsonaro, que ainda tem força eleitoral suficiente para inviabilizar uma candidatura. Mas apenas uma. Eles não conseguem tirar todos os direitistas da jogada ao mesmo tempo. É essa incerteza individual que vem impedindo a direita abstrata de dar um pé na bunda definitivo em Bolsonaro.

A introdução do sistema de votação em dois turnos foi um avanço democrático, pois deu ao eleitor, que já tinha o poder de apoiar um candidato, o de rejeitar um dos concorrentes mais votados. Seria matematicamente possível avançar mais, adotando algum sistema de voto valorativo, que daria ao eleitor a possibilidade de ponderar sua escolha. Um terceiro colocado na preferência da maioria pode ser uma opção mais aceitável do que os dois primeiros com altíssima rejeição.

Seria uma fórmula para superar o quadro de polarização cristalizada dos últimos anos, mas é um tema que nenhum político coloca.

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AS EXCELÊNCIAS ESTÃO ZANGADAS

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Não há mistério algum nas escaramuças dos presidentes da Câmara e do Senado com líderes petistas

Lula é candidato, enquanto Motta e Alcolumbre são de partidos que estarão em palanque adversário

Os presidentes da Câmara e do Senado trocaram de mal com dois petistas com papel de liderança do Congresso, respectivamente o deputado Lindbergh Farias, líder do PT, e o senador Jaques Wagner, líder do governo. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), também andaria se estranhando com Hugo Motta (Republicanos).

As alegações correntes —indicação de Guilherme Derrite (PP-SP) para relator do projeto antifacção e a escolha de Jorge Messias para o STF— explicam apenas em parte o desassossego. Não seriam motivações suficientes para zangas tão explícitas, pois ambos os atos são prerrogativas de Motta e do presidente Luiz Inácio da Silva (PT).

Uma contrariedade de bastidor estaria de bom tamanho, mas quando a coisa assume dimensões de crise é porque há explicações mais condizentes com a realidade. No momento, digamos, eleitoral.

Lula lançou candidatura; Hugo Motta e Davi Alcolumbre (União Brasil) pertencem a partidos cujas direções já anunciaram que integrarão fileiras opostas em 2026. E a briga, note-se, só envolve nomes do PT. Somemos dois mais dois e chegaremos ao óbvio: é hora de disputar qualquer espaço à disposição.

Lembremos que foi o presidente Lula quem deu ordem unida à tropa ao tirar do armário a bandeira dos pobres contra os ricos e identificar o Congresso como defensor dos abastados. A partir dali ficaram demarcados os lados e autorizados o uso de pretextos para que se firmem as posições. Portanto, não há mistério algum na contenda.

Nesta quarta-feira (26) está marcada a cerimônia de sanção da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000. Convidados, Alcolumbre e Motta devem comparecer, e Lula pronto a fazer declarações de apreço que serão interpretadas como sinal de reaproximação.

Jogo de cena com prazo de validade até a próxima oportunidade. Seja Messias a vítima, o bolso da população nas pautas-bombas, o teatro em torno da segurança pública —tanto faz, porque o show tem de continuar.

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A DIFICULDADE DE SER CRÍTICO QUANDO NOS QUEREM MILITANTE

Wilson Gomes, Folha de S. Paulo

Quando tudo vira militância, a independência passa a parecer traição

Democracia exige críticos livres não soldados de causa ou porta-vozes de grupos

"Você virou um perseguidor ferrenho, um crítico feroz de Lula e Dilma, quem diria? Tá difícil te seguir, fico querendo te entender, mas não consigo; parece até que tem alguma coisa por trás."

Caro leitor, confesso: eu falo mal de Lula. Falo mesmo, não nego. Não de Lula, a pessoa física que não conheço, mas de quem tenho informações de fontes seguras de ser pessoalmente adorável. Da figura pública de Lula, chefe deste Estado e do nosso governo, não apenas falo mal quando acho que devo, mas o faço com a convicção de que é isso o que honestamente devo fazer enquanto crítico de política e intelectual público.

Lá se vão mais de 30 anos como professor e pesquisador das áreas de política e democracia e mais de 15 participando da discussão pública sobre política nacional. De FHC para cá, tenho criticado cada governo com igual afinco e atenção. Assim como falei da oposição a eles, das instituições, do jornalismo político e até do ativismo. Falo até, vejam só, de ideias, princípios e valores políticos. Por que razão deveria abrir uma exceção e tratar Lula como se vestíssemos a camisa do mesmo time disputando um decisivo campeonato político e moral?

Sei que anda difícil distinguir papéis nesses momentos em que a política parece uma luta de sobrevivência entre o bem e o mal. Quando o mal chega à nossa porta, a única atitude decente é resistir a ele por todos os meios à mão. Aliar-se ao mal, tentar negociar, compreender e, sobretudo, mostrar os nossos fracos seria colaborar com o inimigo e enfraquecer o nosso lado.

Mas há duas coisas erradas nesse modo de entender. Primeiro, a épica do "às armas, cidadãos, o inimigo está às portas" é, na maioria das vezes, uma retórica politicamente interessada —não uma descrição fiel da realidade. E, sempre que prevalece a narrativa de que "a disputa política deste momento é uma luta do bem contra o mal", alguém está faturando com isso. Nada mobiliza mais do que o medo do inimigo perverso e a raiva diante da indignação que a mera existência dele desperta.

Em segundo lugar, entendo os que se envolvem na política como militantes, vestindo camisas, arregaçando as mangas e indo à luta pelo que acreditam. Tomar partido é legítimo e necessário nas democracias; envolver-se com causas, bandeiras e partidos políticos também é.

Uma política feita apenas de militantes, contudo, seria só um conflito de facções. Há normas, instituições e muitos papéis que têm de estar fora da luta cotidiana do partidarismo —inclusive o papel de quem precisa ter independência para examinar, discutir e analisar os fatos da política.

Se cada crítico de política se transformar em mais um ativista partidário, soldado de causas e combatente de um lado da disputa, perdem a democracia e a sociedade. Se um crítico de política, movido por interesses ou por lealdade grupal, não se dedicar a criticar consistentemente governos e poderes, aí sim teríamos um problema.

Desconfie, ao contrário, de especialistas e comentaristas de política que estão sempre alinhados com a militância, afinados com governos ou oposição, ou que buscam agradar sistematicamente a um lado numa sociedade com tal diversidade interna.

Quanto mais intensa for a identificação emocional ou intelectual de um crítico de política com um grupo, maior será seu apego à integridade e à coesão desse grupo e menor será sua autonomia individual. Maior também será sua deferência às lideranças e autoridades internas e mais intenso o favoritismo aos valores e bandeiras que o grupo sustenta.

Não é que o crítico de política tenha o dever de desagradar a este ou àquele lado. Não acredito no princípio segundo o qual, se todo mundo se incomoda igualmente com o que escrevo, então devo estar certo. Desagradar é mera consequência da autonomia individual e da liberdade intelectual exercidas com honestidade e coerência com princípios democráticos.

Num país em que quase todos se tornaram militantes partidários ou ativistas de causas, qualquer crítico que se recuse a servir a uma bandeira acabará inevitavelmente frustrando quem estrutura sua visão de mundo a partir de uma identificação grupal intensa, de uma exigência rígida de coesão e de profunda intolerância à dissonância cognitiva.

Zelo, dogmatismo, deferência às autoridades do grupo, intolerância a desviantes internos e altíssima hostilidade contra o "outro lado" são traços absolutamente incompatíveis com independência e autonomia individual e com a convicção de que é a democracia que deve ser servida —não governos nem as paixões políticas do leitor.

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A DIREITA DISPENSA BOLSONARO

Elio Gaspari, O Globo

O ex-presidente virou um encosto

A direita não precisa mais de Bolsonaro. Ela lhe deve o mérito de tê-la tirado do armário, mas seus surtos transformaram-no num encosto. O patrono da cloroquina, que dizia ter “o meu Exército”, tornou-se um mau espírito encostado no velho conservadorismo nacional.

Afinal, uma direita que teve Roberto Campos, Eugênio Gudin e Castelo Branco terá perdido muito em qualidade, mas com Bolsonaro ganhou em quantidade, elegendo um presidente e grandes bancadas parlamentares. Quem tem Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado governando São Paulo e Goiás produziu quadros qualificados para novos voos. Esse é o caminho da lógica, mas a direita brasileira padece de um oportunismo suicida.

Em 1959, na União Democrática Nacional, berço do conservadorismo, havia um candidato à Presidência. Era Juracy Magalhães, tenente de 1930, ex-governador da Bahia e primeiro presidente da Petrobras. O partido resolveu atrelar-se à candidatura de Jânio Quadros. Um demagogo de carreira fulgurante, sem qualquer vínculo partidário, capaz de levá-la ao poder.

Segundo a piada, Jânio era “a UDN de porre”. Deu no que deu.

Anos depois, já na ditadura, o conservadorismo emplacou o marechal Castelo Branco, um reformador austero. O oportunismo suicida levou a base conservadora do regime a aninhar-se na anarquia militar e na candidatura do ministro da Guerra, general Costa e Silva. Deu no que deu, o Ato Institucional nº 5 e a crise decorrente da isquemia cerebral que o incapacitou em agosto de 1969.

Essa direita que come com garfo e faca achou em Jair Bolsonaro sua oportunidade. A eleição de 2018 foi um arrastão conservador, e o ex-capitão acabou no Palácio do Planalto muito mais pelos erros do PT que pelas suas qualidades.

O último surto de Bolsonaro, contra uma tornozeleira, espantou até mesmo seus aliados. Espanto tardio diante de um personagem que duvidava das vacinas durante uma epidemia que matou 700 mil pessoas e acreditava nas pesquisas de uma empresa americana que tentava transmitir eletricidade sem o uso de fios. (Na cena em que um finório vendeu a Bolsonaro essa maravilhosa ideia, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, tomou distância.)

O ex-capitão que se lembra do que fez em 1987, desenhando um gráfico pueril de explosão de uma adutora e sendo exonerado de culpa pelo Superior Tribunal Militar, adquiriu incompreensão do que são as instituições em geral e o Poder Judiciário em particular. Chamou um ministro do Supremo de “canalha”. Anunciou que não cumpriria decisões de tribunais. Flertou com o golpismo da trama contra a posse de Lula.

Será árdua a tarefa de livrar-se do encosto sem ofendê-lo. Os filhos de Bolsonaro gastam mais tempo condenando Tarcísio do que Lula e seu governo. A UDN conseguiu se livrar do encosto de Jânio, e os comandantes militares da ditadura livraram-se do encosto de Costa e Silva com sua saída da cena, remetendo seu principal conselheiro militar, o general Jayme Portela, para um comando de segunda antes de mandá-lo para a reserva.

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SEM ESPAÇO PARA VIRADA DE MESA

Vera Magalhães, O Globo

Brasil segue o caminho da normalidade institucional, superando cada uma das tentativas fracassadas de golpe

A família Bolsonaro reduziu dramaticamente o espaço para conseguir aquilo que vem tentando fazer pelo menos desde 2022: virar a mesa. Não foi possível evitar uma derrota eleitoral, não deu certo o plano para sustar a transmissão do poder, e também não há sinais de que se vá conseguir impedir o cumprimento da condenação do mentor de tudo isso, Jair Bolsonaro, e dos que colaboraram com ele.

O Brasil segue o caminho da normalidade institucional, superando cada uma dessas tentativas fracassadas de golpe. Depois do trânsito em julgado da condenação de Bolsonaro e dos demais integrantes do núcleo crucial da trama golpista, não houve a comoção social com que contava a ala mais radical do bolsonarismo. Pelo contrário: o que se viu foi uma execução rápida e sem espetáculo das ordens de prisão daqueles que não fugiram como Alexandre Ramagem, ou não deram indícios de que pretendiam fugir como Bolsonaro.

Não é preciso dizer que a evasão de um e o gesto tresloucado do outro precipitaram o desfecho inevitável e estreitaram a possibilidade de que o Supremo Tribunal Federal (STF) analisasse o caso de Bolsonaro pela jurisprudência já registrada no caso do também ex-presidente Fernando Collor, que poderia lhe assegurar prisão domiciliar humanitária. Não foi culpa de Alexandre de Moraes, de Lula, de forças ocultas nem de ninguém. A culpa do destino de Bolsonaro é única e exclusivamente dele, de suas escolhas, de sua índole manifestada desde os tempos do Exército — antiestablishment, golpista e persecutória.

 A percepção dessa circunstância parece ter se disseminado em franjas cada vez maiores do eleitorado antes disposto a contemporizar com absurdos cometidos pelo capitão enquanto foi presidente, inclusive, de forma espantosa, aqueles que agravaram a resposta do Brasil à pandemia de Covid-19.A narrativa de um Bolsonaro perseguido de forma inclemente por Moraes, e, por extensão, pelo STF, foi ficando cada vez mais restrita à bolha mais radicalizada.

Depois que ele próprio confessou ter empunhado um ferro de soldar para tentar tirar a tornozeleira eletrônica — por “curiosidade” ou “alucinação”, nas versões mutantes que apresentou —, nem os governadores de direita que pretendiam receber sua bênção se arriscam mais a defendê-lo. Romeu Zema chegou a dizer, no minuto seguinte ao trânsito em julgado da condenação, que os postulantes à candidatura presidencial são mais “moderados” que aquele de quem, até sábado, esperavam receber a unção.

Esse ritual também foi tremendamente dificultado pelo surto do patriarca e pela convocação da vigília em tons de guerra medieval pelo filho Flávio. Isso porque a prisão de Bolsonaro não prevê visitas políticas, como as que estava autorizado a receber nas próximas semanas pelo próprio Moraes. Mais: sua inelegilidade, que se estende agora até 2060, também se estende, de acordo com julgamentos do Tribunal Superior Eleitoral, à possibilidade de filiação partidária e ocupação de cargos (remunerados) de direção, como o que ele ocupa hoje no PL.

É claro que o clã deverá se encarregar de transmitir os desígnios de Bolsonaro e pressionará por anistia ou, no mínimo, pela dosimetria menor da pena, mas a normalidade que se seguiu à sua prisão e às demais desencorajará ainda mais Câmara e Senado a embarcar em mais essa treta com o Supremo. Nesta terça-feira, aliás, Hugo Motta e Davi Alcolumbre posavam sorridentes ao lado de Edson Fachin, e não se ouviu deles uma palavra de contrariedade pelo cumprimento das penas dos golpistas.

O Brasil precisa seguir adiante e não pode ficar preso com Bolsonaro, que cavou sozinho e de forma persistente o destino que colheu. O cumprimento inédito de penas por aqueles que tentaram usurpar o poder e interromper a democracia é um passo necessário para a consolidação do período mais longo de normalidade democrática de um país que já assistiu a viradas de mesa demais, mas agora parece cansado desse enredo.

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