Eu a conheci como Márcia, militante aguerrida do Partido
Comunista Brasileiro, o velho Partidão. Somente alguns anos depois, apesar
de eu viver com sua irmã, Ana Cláudia, é que eu soube seu verdadeiro nome:
Dulce Rosa.
Um nome inspirado por alguma canção popular mexicana,
dir-se-ia. Um nome bonito demais da conta, como falariam os mineiros. Um nome
que ela, devido à luta clandestina, tinha que omitir de quase todo mundo.
Tendo convivido com ninguém menos do que Luiz Carlos Prestes
em Moscou, atuou politicamente com Salomão Malina e Givaldo Siqueira,
Dulce/Márcia foi ainda amiga pessoal de Gregório Bezerra, cujas memórias
datilografava na antiga União Soviética. Dela, pode-se dizer que pautou sua
vida pela defesa intransigente da Democracia, tanto no plano político quanto no
social. E pagou por isso um preço muito alto, traduzido por clandestinidades e
exílios.
Dulce/Márcia atuou no PCB dos companheiros
citados acima e também no velho PCI de Gramsci, Togliatti e Berlinguer. Duas
poderosas escolas políticas e de vida. Seu livro revela bem isso.
Dulce/Márcia é uma dessas pessoas que nos emocionam pela
retidão e inteireza de caráter. Pois a minha eterna cunhada, como eu costumo me
referir a ela, se jogou de corpo e alma nas lutas do seu tempo, do movimento
estudantil ainda em Belém do Pará às campanhas pela Anistia lá fora, dos
embates pela melhoria das condições das mulheres às batalhas ecológicas e em
defesa do patrimônio histórico que trava hoje no seu estado natal, o Pará.
Decididamente, a luta está na massa do seu sangue.
Houve uma época, na Itália, que fizemos finanças ou caixinha
para o PCB. Isso ocorreu, por exemplo, na Festa do Unitá, órgão do Comitê
Central do PCI. Vendemos artesanato na barraca da Voz Operária, jornal
clandestino do PCB, representado na festa. Eu me recordo que fiz um imenso mapa
do Brasil a partir de uma montagem fotográfica estampando araras, papagaios,
praias, florestas, cenas do cotidiano e, também, mulheres de corpo para lá de
escultural – o sabor dos trópicos cativando a atenção dos italianos. Nem tudo
tinha que ser amargura e tristeza na luta contra a ditadura. Nessa festa, eu vi
discursar Enrico Berlinguer, o extraordinário líder comunista italiano, um
estrategista político do porte do soviético Vladimir Lenin, do búlgaro Georgi
Dimitrov e do brasileiro Giocondo Dias.
Vez por outra nós nos encontrávamos, Dulce/Márcia e eu,
dentro e fora do Brasil. Certa feita, eu estava no Comitê Central do PCB, no
Rio de Janeiro, na época da legalização do Partido, e ela comentou estar
impressionada com o fato de Giocondo Dias, então secretário geral, ouvir o meu
pai o tempo todo, querendo saber a opinião dele sobre os caminhos que o Partido
deveria tomar em relação a essa ou aquela questão. Era um tempo bom e fraterno
aquele, a sede do PCB sendo frequentada por companheiros como Dinarco Reis,
Geraldo Rodrigues dos Santos, Francisco de Almeida, Sérgio Augusto de Moraes,
Salomão Malina, Roberto Freire e Ivan Alves, meu pai. O saudoso Giocondo
valorizava como ninguém a opinião dos companheiros, a modéstia sendo uma de
suas características mais notáveis. Faz muita falta.
Vez por outra, Dulce/Márcia aparecia lá em casa para um dedo
de prosa. Eu me recordo que há cerca de dez anos tivemos o prazer de nos
encontrar em uma reunião do Partido Popular Socialista (PPS), realizada no Rio
de Janeiro, reunião essa voltada para a elaboração de uma política cultural
partidária.
Em 2022, fui lançar em Belém o meu livro Os Nove de
22 sobre a trajetória do PCB na vida nacional, e tive o prazer de debater
com ela, Jane Neves e outras militantes históricas do Pará. Encontrar com
Dulce/Márcia é uma fonte permanente de alegria para mim.
E eu não poderia de forma alguma deixar de relatar aqui o
convívio de dezenas de anos com seu marido, o saudoso Carlo Cioni, um dos mais
jovens deputados eleitos pelo Partido Comunista na Itália, mas que não tomou
posse por particularidades eleitorais locais. Tendo conhecido sua mulher em
Moscou, Carlo se tornou anos depois Presidente da Fundação Gorbatchov. Amigo do
líder soviético, Carlo Cioni me relatou certa vez que Mikhail Gorbatchov e o
checo Alexander Dubcek eram muito próximos politicamente, uma vez que estudaram
juntos nos anos 50, na Escola de Quadros do Partido Comunista da União
Soviética. Eu desconhecia totalmente esse fato e essa proximidade. Talvez
residam aí as raízes tanto da glasnost e da perestroika de Gorbatchov quanto da
chamada Primavera de Praga de Dubcek.
Este relato que o leitor tem diante dos olhos é uma base
riquíssima de ensinamentos. Lendo esta obra, aprendi ainda mais a respeito não
só da vida da Dulce/Márcia como também da própria trajetória brasileira das
últimas seis décadas. Leiam, divulguem e se emocionem com este livro da minha
querida camarada, da minha eterna cunhada.
*Ivan Alves Filho , historiador

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