domingo, 23 de novembro de 2025

EM NOME DE 'DEUS'

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

‘Meter ferro quente’ foi teste de Bolsonaro para tirar a tornozeleira antes da vigília e da fuga

Bolsonarismo perde ‘Pátria’ e ‘Família’ e apela para ‘Deus’ em um ‘salve-se quem puder’, mas a PF e Moraes estão de olho

prisão preventiva de Jair Messias Bolsonaro, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes um dia depois da inclusão do deputado Alexandre Ramagem na lista da Interpol, pode ser definida como uma “ação antidebandada”. O bolsonarismo agonizando e a contagem regressiva do trânsito em julgado da trama golpista detonaram um “salve-se quem puder”. A PF e Moraes estão de olho.

Apesar da troca do desastrado Eduardo Bolsonaro pelo até então moderado Flávio Bolsonaro na linha de frente, e do vídeo desesperado do 01 articulando uma “vigília” para dar sobrevida ao bolsonarismo, parece tarde demais: escaldados pelas prisões do 8/1 e desencantados com o antipatriotismo dos seus ídolos, os militantes abandonam as ruas, enquanto os cúmplices políticos abandonam o País.

A prisão, que não é (ainda) pela condenação por tentativa de golpe de Estado, foi autorizada por Moraes após juntar as peças do quebra-cabeça numa imagem nítida: Bolsonaro pretendia fugir do País, tal como os deputados Eduardo, agora réu, Ramagem e Carla Zambelli, já condenados.

Depois de perder dois dos três lemas bolsonaristas, “Pátria” e “Família”, o clã tenta se concentrar no terceiro, “Deus”, para manter os crentes por perto e leais. Com citações bíblicas, mas em tom “belicoso”, como classificou Moraes, Flávio convocou uma “vigília” no sábado à noite, na frente da casa do pai em Brasília.

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 Horas depois do vídeo de Flávio e um dia antes da própria vigília, o ex-presidente “meteu ferro quente” na sua tornozeleira eletrônica, como admitiu em depoimento à PF, até porque seria impossível negar. Ao que tudo indica, ele estava fazendo um teste, à meia noite, sobre como tirá-la na hora certa, antes da tal vigília – ou seria antes da tal fuga?

Ao justificar a conversão da prisão domiciliar em prisão preventiva fechada, Moraes defendeu que a intenção da “vigília” era gerar tumulto e criar o ambiente propício para a fuga de Bolsonaro, que, como lembrou, mora a 15 minutos de carro da Embaixada dos EUA. Donald Trump já virou a página Bolsonaro e se limitou a dizer que a prisão “foi uma pena”, mas não bateria a porta para ele.

Moraes teve o cuidado de determinar “todo respeito à dignidade”, sem mídia e algemas, e um atendimento médico em tempo integral para o ex-presidente, que tem saúde sabidamente frágil. A prisão de Bolsonaro, porém, comporta riscos políticos nem sempre, ou raramente, levados em conta pelo xerife do STF.

Em seu vídeo, o senador Flávio enfatizou a expressão “perseguição”, conclamou uma “reação” e a retomada do poder. Depois do 8/1, com incautos tornando-se criminosos, a sensação é de uma nova articulação capitalizando a vitimização de Bolsonaro para, em nome de “Deus”, inflamar e cooptar os mesmos alvos fáceis.

É um risco, mas muitos, e não apenas Moraes, avaliam que o momento é outro, a comoção não parece tão grande e os aliados que não fugiram estão mais ocupados e preocupados com o futuro: o candidato da direita à Presidência e suas próprias campanhas em 2026. Bolsonaro está preso, isolado, e a família demonstra desespero.

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