O Estado brasileiro não é internamente soberano, tendo
abandonado uma fatia importante do seu território às organizações criminosas
As cenas do Rio de Janeiro apresentam um teatro de guerra.
Guerra, não esqueçamos, travada entre as forças policiais do Estado, que agiram
sob mandado judicial, e traficantes, que operam segundo a lógica da guerrilha.
Amputaram o Estado de uma parte de seu território e passaram a dominá-lo,
implantando um regime de extorsão e violência, aterrorizando os seus moradores.
É a sua “lei” que passou lá a vigorar. Para se “defenderem”, utilizam inclusive
drones e bombas! Nesse contexto, as forças do governo do Rio agiram segundo uma
lógica militar, e não poderia ser de outra forma, visto que se trata da
recuperação de um território perdido.
A dar atenção a ONGs esquerdistas, fica-se com a impressão
de que as polícias tiraram a paz desses cidadãos que viveriam em harmonia,
embora, na verdade, destituídos de cidadania. Não são discursos politicamente
corretos que podem alterar tal situação. Os criminosos aproveitam-se de tais
“aliados” para nutrir, então, a sua narrativa específica, em busca de
legitimidade. A tática é a mesma do Hamas em Gaza.
Exigem da população que enfileirem corpos
desnudos, despindo-os de suas vestimentas de combate, como se fossem todos
civis inocentes, “assassinados” pela “violência policial”. Nem se fala que são
os “combatentes do tráfico”. A crítica a ser feita não deveria ser essa, mas a
de sua retirada desses territórios após a eliminação desses inimigos do Estado.
Seria, sim, pois seria necessário que lá permanecessem, oferecendo a esses
moradores segurança, bem-estar e esperança de um futuro melhor. A questão é aqui
a do day after. Para o Estado, trata-se de recuperar a sua soberania interna.
O presidente Lula tem posado nos foros internacionais como
um grande defensor da soberania dos Estados. Forçoso, porém, é reconhecer que o
Estado brasileiro não é internamente soberano, tendo abandonado uma fatia
importante do seu território às organizações criminosas. Problema esse que se
espalha para todas as grandes e médias cidades, configurando uma questão
propriamente nacional, e não apenas estadual. E para além dessa questão urbana,
apresentase a rural, como na floresta amazônica, infiltrada cada vez mais pelo
narcotráfico, nacional e internacional.
É curioso que, em livros atuais sobre a guerra,
apareça a situação das favelas, exibindo o Rio de Janeiro como um exemplo.
E por quê? Porque é um caso de extraterritorialidade, o que acontece quando o
Estado perde o controle de uma parte de seu território, a exemplo de
territórios conquistados em um país pela guerrilha rural, como foi, e é ainda,
em certo sentido, o caso da Colômbia. As organizações criminosas conseguiram o
que a guerrilha urbana no Brasil, sob o comando de Marighella, foi incapaz de
fazer, agora sem nenhuma ideologia.
Atualmente, essas áreas de extraterritorialidade estão se
expandindo para outras esferas do Estado, como prefeituras, câmaras municipais,
assembleias estaduais e, logo, em nível federal. Já formam advogados para
atuarem em seu favor e devem estar pensando em apresentar candidatos para o
Judiciário e o Ministério Público. Compram sentenças e fogem das garras da
Justiça. Em vários Estados, então conseguindo se infiltrar em franjas
importantes das Polícias Militar e Civil. Criam igualmente empresas e grupos financeiros
para a lavagem de seus recursos, procurando ter um perfil institucional. O
risco embutido é o de uma mexicanização do Brasil.
Ocorre que, quando essa questão vem à tona, ela já entra no
fogo direto da esquerda e de suas ONGs ditas de direitos humanos, como se fosse
uma questão de direita, quando é simplesmente de cidadania, das condições
mesmas de vida dos cidadãos. Estamos diante de uma questão de segurança
pública, tão preocupante para todos os brasileiros, algo exposto em pesquisas
de opinião. Ora, trata-se aqui de um dever primeiro do Estado, formulado pelo
filósofo inglês Hobbes, o de assegurar a vida, a família e o patrimônio dos
seus membros, algo completamente relegado no Brasil atual. O anormal tornou-se
normal, como o de uma pessoa andar livremente pelas ruas de sua cidade.
O pior de tudo é que a esquerda considere ladrões,
assaltantes e assassinos como “bandidos sociais”, como se fossem meras vítimas
do “sistema”, seja lá o que isso signifique. Não é, portanto, mera coincidência
que a esquerda no poder seja simplesmente incapaz de apresentar um crível e
coerente programa de segurança pública. E isso porque sua concepção do crime é
completamente anacrônica e alheia às liberdades e aos verdadeiros direitos
humanos. Está mais preocupada em criminalizar policiais do que em prender
bandidos e criminosos. Mais estonteante ainda, como se fosse possível, é o
presidente Lula afirmar que traficantes são “vítimas dos usuários de drogas”!
Apenas verbalizou uma concepção vigente em seu meio ideológico. Suponho que
deva ter um programa de tratamento das “vítimas”, a saber, dos traficantes! É
isso que será proposto para o Rio de Janeiro?

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