Guerra às drogas com execuções extrajudiciais não reduz
crimes, mostra exemplo das Filipinas
A política de segurança pública de Rodrigo Duterte fracassou
em cumprir o objetivo alegado de desbaratinar as gangues e reduzir o consumo de
drogas
O governador do Rio, Cláudio Castro, demonstrou satisfação
com o resultado da operação policial que deixou mais de uma centena de mortos
no Complexo da Penha, na semana passada. Ele afirmou estar muito tranquilo em
“defender o que foi feito”. A intenção, segundo ele, não era matar, mas isso
acabou sendo necessário por causa da “retaliação” por parte dos traficantes.
Quatro policiais morreram no confronto.
As falas de Castro lembram as justificativas que Rodrigo
Duterte, presidente das Filipinas entre 2016 e 2022, dava para a brutal guerra
às drogas que ele comandou no arquipélago do Sudeste Asiático, marcada por
chacinas e execuções extrajudiciais. Estima-se que 30 mil civis tenham morrido
em meio à sua campanha contra as gangues.
Duterte costumava dizer que a polícia
sempre agia em autodefesa, apesar de evidências e testemunhos de casos em que
os mortos estavam desarmados ou que foram alvejados diversas vezes e pelas
costas. Com frequência, os policiais plantavam provas falsas, como drogas e
armas, junto às vítimas. Os métodos de Duterte eram conhecidos do tempo em que
foi prefeito da cidade de Davao, como o de instrumentalizar milícias criminosas
para combater traficantes. Ele apenas os expandiu para o nível nacional.
“Muitos vão ser mortos até que o último traficante estiver fora das ruas”
e “esqueçam as leis de direitos humanos”, eram algumas frases famosas do então
presidente.
Atualmente, Rodrigo Duterte está preso em Haia, na Holanda,
e aguarda julgamento por crimes contra a humanidade no Tribunal Penal
Internacional. Ele foi detido em março deste ano em Manila, capital filipina.
Sua política de segurança pública baseada em execuções de suspeitos, além de
tudo, fracassou em cumprir o objetivo alegado de desbaratinar as gangues e
reduzir o consumo de drogas.
Estudos acadêmicos identificaram que não houve mudança
significativa nas taxas de criminalidade durante a sua presidência. O atual
governo filipino diz que, ao contrário, os dados da segurança pública só
melhoraram depois da saída de Duterte, com uma redução de 62% nos crimes entre
2022 e 2024, em comparação com 2016 a 2018. Houve, sim, um diminuição em 2020 e
2021, mas que coincidiu com a pandemia de covid-19, quando o lockdown fez os
índices criminais cair em diversas partes do mundo por falta de oportunidades
para os bandidos.
Cláudio Castro não deveria encontrar nenhum motivo para ser
o Rodrigo Duterte do Rio.

Nenhum comentário:
Postar um comentário