Banco Master, COP30, Messias no STF, reação de
Alcolumbre, recuo de Trump no tarifaço e prisão de Bolsonaro: de tédio a gente
não morre
Há sete anos recebi o convite improvável de Maria Cristina
Fernandes para ser colunista do Valor. Depois do impensado impulso
de aceitar (“a hora do ‘sim’ é o descuido do ‘não’”, já cantava Vinicius de
Moraes), dois pensamentos passaram a me aterrorizar.
Acima de tudo estava a responsabilidade de escrever num
espaço que, desde o lançamento do jornal, havia sido ocupado por grandes
analistas políticos como Fernando Limongi, Marcos Nobre, Renato Janine Ribeiro,
Luiz Werneck Vianna, Fábio Wanderley Reis e Fernando Abrucio. Como se isso não
bastasse, ainda havia a pressão da periodicidade: será que eu teria repertório
para um texto semanal, numa publicação com um público tão qualificado e
exigente?
Desde então já se vão 342 colunas e o
respeito à tradição do Valor e aos seus leitores é o que me
move a buscar uma perspectiva diferente para analisar os temas da ordem do dia.
Quanto ao medo da falta de assunto, ele logo se dissipou. O Brasil nunca
decepciona em proporcionar crises, reformas e episódios surpreendentes para
serem examinados.
Nesse aspecto, a semana passada foi tão pródiga de tópicos
que poderia render material para várias colunas.
Começando pela implosão do banco Master, além da
responsabilização cível e criminal de Daniel Vorcaro e demais executivos da
instituição e do BRB, precisamos refletir sobre os aprimoramentos necessários
para diminuir a probabilidade de ocorrência de novos comportamentos
oportunistas no futuro.
Do fortalecimento das garantias para que o Banco Central
seja mais proativo na intervenção diante de evidências de gestão temerária à
responsabilidade das auditorias (KPMG, no caso), das agências de classificação
de risco e das plataformas de investimento (XP e BTG à frente), passando por
ajustes na governança e nos limites do Fundo Garantidor de Créditos, temos uma
ampla agenda de reforma do sistema financeiro adiante.
Da Faria Lima para Belém, o relativo fracasso da COP30 expõe
como a busca de consensos multilaterais se tornou praticamente impossível nos
tempos atuais. A solução encontrada - uma promessa de maior aporte de recursos
para a adaptação nos países pobres e o silêncio quanto à rota da
descarbonização - sinaliza para um maior protagonismo de saídas de negócios
para o desafio da transição energética. Iniciativas do governo brasileiro, como
o Fundo de Florestas Tropicais para Sempre e a implementação do mercado de
crédito de carbono, podem ganhar impulso diante do impasse entre as nações.
Em Brasília, a indicação do advogado-geral da União, Jorge
Messias, para o Supremo Tribunal Federal já abalou as relações do governo com o
Centrão. Estigmatizado pelo famoso episódio da ligação telefônica entre Dilma e
Lula no auge do impeachment, tornada pública pelo então juiz Sergio Moro, o
nome de “Bessias” desperta críticas sobre o caráter político das indicações
para o Supremo.
Com requisitos vagos para a nomeação (“notório saber
jurídico e reputação ilibada”), é difícil evitar que advogados pessoais ou
candidatos “terrivelmente evangélicos” ocupem o cargo, a não ser que o Senado
exerça seu papel constitucional de sabatinar e rejeitar a indicação - algo que
nunca aconteceu na história recente.
Outro ponto, porém, merece reflexão. Temos visto
recentemente uma redução expressiva na idade média dos indicados para o STF -
de 53 anos na década de 1990, 54,3 anos (década de 2000), 57,3 anos (década de
2010) para apenas 48,6 anos desde 2020 (já incluindo na conta Jorge Messias,
que tem 45 anos). Como a idade para a aposentadoria compulsória subiu de 70
para 75 anos, isso significa que o futuro ministro passará três décadas ditando
o destino do país. Taí um ponto que merece reflexão, seja sobre a necessidade
de imposição de um mandato ou mesmo um limite de idade mínimo mais alto.
Ainda neste capítulo sobre Messias para o Supremo, foi
totalmente exagerada e infantil a reação do presidente do Senado, Davi
Alcolumbre (União-AP). A prerrogativa da indicação é do Presidente da
República, e caso Alcolumbre não concorde com a escolha, cabe a ele organizar
politicamente a rejeição do seu nome no voto. Pior do que o chilique público
foi a decisão de colocar na ordem do dia uma pauta bomba da aposentadoria
especial dos agentes comunitários de saúde - o que só confirma o quanto nossos
congressistas colocam seus interesses políticos acima da responsabilidade
fiscal.
Direto de Washington, houve ainda a revogação das sobretaxas
de Trump sobre diversos produtos de nossa pauta de exportações. O recuo
improvável - pois unilateral, sem exigência de contrapartidas brasileiras, pelo
menos a princípio - mostra que os efeitos inflacionários do tarifaço já bateram
na popularidade do presidente americano.
Para concluir, a semana terminou com a prisão de Jair
Bolsonaro. Sobre o episódio, é dispensável gastar este espaço comentando o
episódio bizarro do ferro de solda na tornozeleira eletrônica. Sobre as
consequências do fim do bolsonarismo, haverá oportunidades para discutir sobre
isso com mais profundidade no futuro. Assunto nunca falta.

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