Ao anular manobra em favor da bolsonarista, Moraes agrava
desmoralização de Hugo Motta
Eram quase 23h de quarta-feira quando o advogado Fabio
Pagnozzi subiu à tribuna da Câmara. Sem bons argumentos para defender Carla
Zambelli, o doutor apelou ao corporativismo dos parlamentares.
“Neste momento, os senhores abrem um precedente
perigosíssimo. Existem mais de cem processos contra deputados federais no STF”,
disse, em tom de alerta. “Vocês não precisam gostar dela. Vocês só precisam
pensar que, se a Carla Zambelli for cassada, vai virar uma coisa repetitiva
nesta Casa”, sustentou.
Carla Zambelli é uma criminosa condenada duas vezes a penas
que somam 15 anos de prisão. Em vez de se entregar, ela fugiu do país e entrou
na lista de procurados da Interpol. Capturada na Itália, foi recolhida a uma
penitenciária feminina, onde aguarda o julgamento do processo de extradição.
Na primeira sentença, o Supremo Tribunal
Federal determinou que a Mesa Diretora da Câmara declarasse a perda do mandato
da bolsonarista. O deputado Hugo Motta ignorou a ordem judicial e remeteu o
caso ao plenário, como se os colegas tivessem o poder de revisar decisões da
Corte.
Na noite de quarta, o advogado Pagnozzi apostou no instinto
de sobrevivência de Suas Excelências. “No mundo, nós não sabemos o dia de
amanhã. Amanhã podem ser os senhores de esquerda ou os senhores de centro que
vão ser perseguidos”, disse.
O doutor ainda garantiu que a absolvição seria apenas
simbólica, porque a cliente renunciaria após a votação. A promessa durou pouco.
Horas depois de a Câmara absolver Zambelli, o filho da deputada desmentiu o
causídico. “Esse acordo não aconteceu nunca”, informou à Folha de S.Paulo.
A operação para salvar a presidiária teve vida curta. Só
serviu para desmoralizar ainda mais o presidente da Câmara. Ontem o ministro
Alexandre de Moraes anulou a manobra, decretou o fim do mandato de Zambelli e
ordenou que Motta dê posse ao suplente.
Em mensagem a colegas, o deputado Arthur Lira reclamou que a
gestão do sucessor “está uma esculhambação”. Tem razão, mas faltou dizer que
ele foi o responsável por sua escolha.

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