Menos do que uma análise histórica e mais do que uma sessão
de striptease político (será que ainda se usa esse termo
antigo?) do colunista, este texto, tendo algo dessas duas coisas, será em parte
um depoimento que posso dar, como alguém que já participou e hoje apenas estuda
a política brasileira, mas durante todo o tempo nunca deixou de gostar dela, e
por isso a sente, observa e analisa. Será extenso, para um artigo
que deveria ser mais breve, talvez enfadonho para quem está, ao contrário de
mim, persuadido de que um novo Brasil começou com Lula, acabou com Bolsonaro e,
com a prisão do segundo e a continuidade política do primeiro, pode
ressuscitar. Aviso logo, para quem achar que do destino político desses dois
personagens anacrônicos depende atualmente o futuro político do país.
Hoje não é sábado, mas escrevo sobre
política porque é domingo de manifestações contra o Congresso, também em
Salvador, minha cidade. A pauta trata dos temas da anistia e da dosimetria como
se fossem uma coisa só, o que, no contexto do atual debate político, já me
parece ser grosseira mistificação. Mas não será esse o tema aqui e sim o tom
que a esquerda governista (que banca as manifestações) adota ao escolher o
Congresso como alvo. Na noite da véspera, já bem tarde, tive contato com um dos
muitos materiais de divulgação do ato. A imagem de um caminhão repleto de ratos
engravatados (o trio elétrico “inimigos do povo”) antecede um vídeo muito bem
trabalhado em IA, em que uma figura de cantora mimetiza a ministra Margareth
Menezes e canta uma paródia inteligente e de suposto bom humor.
A imagem do caminhão de ratos a retratar o Congresso, se
isolada, poderia ter me levado a pensar que se tratava de mais uma manifestação
de ódio a instituições políticas, hábito de campanhas da extrema-direita em
redes sociais. O apelo ao tema da corrupção para atacá-las é demagogia das mais
frequentes naquelas bandas e a metáfora dos ratos é antiga e rima, inclusive ao
pé da letra, com Lava-Jato.
O clip musical na sequência não permitiu o engano. Era
propaganda da esquerda governista e não da oposição de extrema-direita. Nas
imagens e na letra da música repete-se o dito na faixa que nomeia o caminhão,
mas, para combater os ratos, artifícios da inteligência oferecem à audiência as
figuras de três ministros do STF e de dois políticos, todos escolhidos a dedo,
embora não necessariamente bem escolhidos. Flavio Dino, para atender à esquerda
adversativa, Carmen Lucia para expressar a conduta incorruptível de juízas
guerreiras e Alexandre de Moraes para atender a demanda justiceira por homens
fortes, que não é privilégio de nenhum espaço da geografia ideológica. É
significativa, num material de divulgação de um ato em que a conduta não
republicana de pessoas públicas é tão criticada, que o ministro Moraes seja um
herói enquanto o presidente do STF não está entre os aclamados, no momento em
que luta para convencer seus pares de que o tribunal precisa de um código de
conduta. De políticos aparecem dois, o deputado Glauber Braga (exceção
militante, guerreira, que permite mostrar um contraste em ato com a odiosidade
dos que são a regra) e o senador petista Humberto Costa, antes que algum
aventureiro lance mão da exceção que se destina à facção da elite politica não
assumida como tal.
Cheguei a criticar minha falha de memória ao não perceber a
hipótese de que as impressões digitais proviessem do outro lado da nossa
geografia política. Se estivesse em dia, a memória acessaria a famosa alusão de
Lula, em 1990, ao Congresso como conjunto de 300 picaretas. Agora são mais de
500 deputados e 81 senadores, mas esse número é o único dado novo. A opinião,
no lado lulista, parece permanecer depois de décadas, de quase três governos do
chefe e da passagem de muitos petistas por relevantes funções no Poder
Legislativo. A imagem do caminhão de ratos retrata e atualiza o desejo
autoritário de cancelar o Congresso. Atualização da IA de velhos tempos por uma
de última geração.
Antes que governistas atentos tentem me alcançar com
críticas morais para mudarem de assunto, concedo-lhes uma palavra explicativa,
embora, de tão óbvia, seja desnecessária a quem lê de modo isento o que
escrevo. Penso que a composição do atual Congresso é ruim e não tenho a menor
disposição de me comprometer com seus erros e trapalhadas coletivas, muito
menos com transgressões éticas e delitos de parlamentares individualmente, não
importa a facção política a que pertençam, nem se eles seguem script de
herói ou de vilão. Mas tenderei a me indispor com tentativas de
desqualificar a instituição. É exatamente isso o que faz o slogan “Congresso,
inimigo do povo”. Sejam bons ou maus - a meu juízo, ou até mesmo a
juízo coletivo de numerosos cidadãos - são todos eles seus representantes.
Com essa má disposição passei hoje pelo Farol da Barra, às 8
da manhã, duas horas antes da hora marcada para o ato anunciado. Deparei-me com
um paredão de 8 trios elétricos (foi o número que contei, mas me disseram terem
sido apenas 6) passando som, uma parafernália estridente que naquele instante
preparatório competia pela ocupação dos ouvidos dos que se exercitavam, como
eu, ou eram apenas transeuntes em busca de um céu azul, sol e mar calmo de uma
quase baía. Reverberavam uma agressividade sonora ensurdecedora, assediadora,
sob os olhos protetores de soldados transportados por dezenas (sim, isso mesmo,
contei mais de duas dezenas) de carros de polícia de quase todos os tamanhos.
Ambiente tóxico demais para o que eu pensava ser o preparo de um ato cívico-político.
Imaginei então como, duas horas depois, aquele ambiente
insólito para os fins em razão dos quais eu supunha estar sendo montado,
viraria palco para outro tipo de performance. Certamente aquela
agressividade iria para embaixo dos tapetes das fontes que supostamente haviam
financiado os trios para a alegria e pagado os policiais para a segurança da
"festa" da democracia do "nós contra eles". Sobrariam slogans entre
beijos gratuitos e mensagens demagógicas, melosamente suaves, de reverência ao
povo e às suas raízes. A forte emoção dos impropérios indignados com santa ira
seria guardada para alvejar os "inimigos" desse povo que a chefia e a
militância chapa branca dizem amar e, por isso, lhe ofereceriam, como se fosse
circo, um desfile de pessoas crentes no seu pertencimento a uma falange do bem,
que reduz a política a um entretenimento aclamativo de uma interminável relação
amigo-inimigo.
É provável que tudo isso tenha realmente acontecido no ato,
mas o que eu julgava ter sido a sua preparação foi apenas produto da minha
imaginação mal humorada e indisposta com o tom cancelador da sua convocação.
Horas depois dessa experiência, soube que estava enganado. A concentração de
trios e o aparato policial não se destinavam ao ato e sim a um show de final de
ano promovido por uma emissora de rádio da cidade para comemorar seus 5 anos de
vida. O ato parece que foi pequeno mesmo.
Parei para pensar e a minha aversão política convicta
converteu-se em noção de um desagrado estético com a má qualidade e a
impertinência agressiva do som que estava sendo passado no Farol e quase nada
mais. Noves fora isso, tudo certo. Seria um evento festivo realmente,
antecipadamente marcado para dar tempo a quem soubesse e não gostasse do
programa, procurar passar o domingo em outro lugar. Suponho que tenham
respeitado posturas municipais, o que, aliás, não é certo que ocorreu.
Mas como quase também é mais um detalhe, a má impressão
sobre a atitude política que guiou a convocação do ato não iria morrer assim. O
diabo continuava lá, morando nos detalhes daquele vídeo que reproduz a estética
política olavista, como lembrou um amigo atento. Fiquei pensando nos
sentimentos negativos e opacos que esse tipo de polarização pode incutir nas
pessoas, inclusive em mim, que às vezes me acho vacinado contra o contágio de
predisposições como a de hoje. Elas libertam a imaginação e destilam emoções
que prendem a razão numa gaiola de convicção. Esse é, sem dúvida, um problema
importante que está deixando o país politicamente doente, daí publicar o meu
engano.
Depois de viver, antever e imaginar tanta coisa,
provavelmente a caminhada de hoje não me fez bem ao corpo, muito menos ao
coração. Mas fez bem ao espírito oprimido e temporariamente derrotado, ler, ao
chegar em casa, um artigo de Ruy Castro intitulado “Esculturas de gelo”
(FSP/UOL, 13.12.2025). Ele me deu alguma esperança num porvir que não
testemunharei. Um porvir em que se derretam as atuais estátuas congeladas de
nossa vida pública. Sem dar spoiler do texto, faço um esboço
da esperança dada.
Pode ser que alguém tenha ido à rua hoje, em Salvador ou em
outra cidade, levando um gravador singelo e clandestino que capte, em meio aos
impropérios, à demagogia e à mediocridade reluzente, algum som perdido calmo,
natural e apenas bonito, como o de Nara Leão e o mostre, daqui a 40 anos, a
quem quiser ouvir e se deleitar, refletir e conversar sobre esse presente que
então terá passado.
Outra pessoa muito próxima, que leu minhas indisposições com
o ato, não se fixou no vídeo da véspera nem nas cogitações imaginativas do meu
programa matinal e, estranhando, argumentou comigo que no ato de hoje estariam
muitas pessoas que foram também aos comícios das Diretas Já, do Fora Collor e
da campanha de Lula de 2002. Para essa pessoa trata-se de uma mesma viagem.
Acredito que não.
Duas viagens
As três são lembranças que a esquerda oficial atual ao mesmo
tempo cultiva e perverte, introduzindo, na estética dos atos de hoje, a
gramática estúpida do confronto, que estimula a violência que diz combater. Mas
essa história tem nuances e há uma diferença relevante entre dois tempos
distintos.
Até as Diretas e a Constituinte, a história do campo
democrático era outra. Transmitia mensagem agregadora, de política positiva,
usando conjunções aditivas ao lado de adversativas, claro, porque, afinal,
havia uma ditadura a combater. Mas não era só combate. Buscava-se sempre
aliados novos para persuadi-los à construção de um mundo em comum entre
vencedores e vencidos, em vez de se buscar culpados para justiçar e excluir do
mundo dos vencedores. Proposta de anistia, em vez de acerto de contas.
Como perdão sem esquecimento, em vez de vingança contra lembranças sem
perdão.
Desse tempo de luta e de construção, em que se
usava "ou" e também se usava "e", a memória da
esquerda oficial preservou as greves do ABC, a fundação do PT e a
campanha das Diretas Já, momentos de coroação de um artesanato político que
começou uma década antes disso, na construção cotidiana da democracia dentro
dos sindicatos sob intervenção policial, dos diretórios estudantis limitados
pelo decreto 477, da imprensa submetida a censura do regime, do Congresso e do
Judiciário oprimidos pelo AI5, as cassações de parlamentares e a
aposentadoria compulsória de juízes. Tudo o que juntava uma esquerda positiva
ao centro liberal democrático e dividia aos poucos uma direita que, a partir da
segunda metade dos 70 ia passando, graças a esse artesanato, do campo
autoritário para o democrático.
O MDB foi a oficina mais importante, mas nunca foi uma
máquina partidária solitária ou autárquica. Suas vitórias eleitorais, raras no
início e exuberantes ao final do processo, eram o indicador de que era aquela a
trilha segura para a democracia. Quanto mais forte, menos bélico e mais
agregador se tornava. O PCB foi a parte da esquerda de mais interação e
responsabilidade com aquele, nessa parte da história.
Naquele momento também havia uma outra esquerda, que
desprezava a política e seguia a lógica da guerra. Tentou o caminho das armas e
não apenas perdeu no terreno militar - porque a luta, aí, era desigual - como
também no terreno político, porque tinha um argumento autoritário, que
reforçava o do adversário, em vez de o enfraquecer e isolar. Lutavam contra uma
ditadura defendendo uma outra, a do proletariado. Desprezavam a democracia, que
consideravam uma instituição "burguesa".
O lado obscuro da lua está hoje iluminado por holofotes
oficiais e ganhou narrativa fake. Mariguella e outros heróis da
luta contra a ditadura da burguesia e a favor da ditadura do proletariado foram
repaginados como heróis da democracia. Passaram a fazer parte da memória
oficial da luta democrática, graças a uma narrativa enviesada, chancelada por
ex-guerrilheiros que se tornaram políticos poderosos,
Esse tipo de revisionismo histórico, patrocinado pelo poder,
iluminou o lado obscuro da lua e excluiu da história reconstruída pelos
vencedores aquele artesanato cotidiano da luta democrática que levou,
cumulativamente, à Anistia em 79, à eleição direta dos governadores em 82, em
seguida, aos comícios das Diretas Já para presidente em 84, depois ao fim do
regime militar no Colégio Eleitoral de 85 e à refundação da democracia, com a
Carta de 88.
Como se operou a proeza ilusionista que secundarizou tudo
isso e quase subtraiu essa história honrosa e construtiva ao conhecimento das
novas gerações de brasileiros? A esquerda adversativa, depois de derrotada na
guerra de guerrilha, aderiu à política, começando pela campanha do voto nulo,
passando ao voto em "candidatos populares" avulsos, até encontrar no
PT, que ela ajudou a fundar, um porto adequado para sua adesão meia-boca à
política. Foi um avanço, mas o ranço antipolítico ficou. O rabo de
fora do gato escondido nunca deixou de aparecer, como na expulsão do partido de
deputados que foram ao Colégio Eleitoral ajudar a dar fim à ditadura, como na
recusa partidária a assinar a Constituição de 88 e como no já mencionado
anátema lançado por Lula contra o Congresso como reunião de 300 picaretas.
No Fora Collor (1992) já havia uma mistura.
Embora muita gente tenha ido à rua com a mesma generosidade cívica dos comícios
das Diretas, já estava presente também uma aversão à política dos (outros)
partidos e uma idolatria à "sociedade civil". Já estava inoculado o
vírus de um social a ser defendido contra a política e não através dela. O
“fora isso, fora aquilo” já era o dedo do PT, um desejo de excluir adversários
que, com o tempo, veio a se tornar um legado e contribuição à nossa cultura
política.
E assim a coisa foi indo, indo e fazendo aqui e ali
concessões a uma retórica de paz e amor, mas tanto fez que a esquerda
adversativa conseguiu voltar a propor, quatro décadas após a luta armada, a
lógica da guerra, agora eleitoral, no lugar da política pluralista. Ela se
expressou de modo bruto na campanha pela eleição de Dilma Rousseff em 2014. Um
estelionato eleitoral para tentar refratar a onda de insatisfação que tomara as
ruas em 2013 a partir de um protesto estudantil. Nenhuma teoria da conspiração
apagará da experiência nacional aquele marco inicial do buraco agonístico em
que estamos metidos até hoje.
A esquerda negativa e adversativa sofreu um efeito
bumerangue com a Lava-jato porque afinal a direita aproveitou
a insatisfação social para entrar em modo guerra também, levando de roldão
nessa onda o PSDB. Um ano depois daquela eleição fatídica, em que a presidente
prometeu (e cumpriu) "fazer o diabo" para não perder, não havia mais
sombra daquele partido de oposição civilizada de centro com o qual Lula teve a
sorte de competir nas urnas e de contracenar durante seus dois primeiros
governos. Tempo em que precisou do apoio do PSDB e obteve, para votar a reforma
da previdência que lhe permitiu governar equilibrando o caixa que ele mesmo se
encarregaria de começar a afundar na segunda metade do seu segundo governo.
Complacência do centro tucano, que se manteve moderado até no tempo do mensalão
e nas campanhas de 2006 e 2010, quando seus candidatos (Alckmin e Serra)
evitavam fulanizar as críticas e até chegaram a aparecer no horário eleitoral
admitindo a Petrobrás como exemplo de sucesso nacional. Era uma
oposição com baixo teor de maniqueísmo e mesmo quando o maniqueísmo se aguçou,
no embate feroz de 2014 contra uma presidente "virada no diabo", a
aliança de Aécio Neves foi à esquerda, com o PSB de Eduardo Campos e com Marina
Silva.
Toda essa civilidade social-democrata com que o antigo PSDB
competiu com o PT - seja no tempo em que era governo e o PT lhe fazia oposição
enfurecida (vale lembrar o Fora FHC, em 99, apenas dois meses após as
eleições), seja quando o PT chegou ao poder montado num discurso mais ao centro
- desapareceu quando o PSDB aderiu e passou a ser coadjuvante em
gradativa aliança da centro-direita com a direita liberal radical, animada e
vitaminada por ventos antipetistas que sopravam nas ruas desde 2013, passando
batido por ouvidos moucos da esquerda, perdida no interesse em conservar e
perpetuar um arranjo de poder corrupto, que sustentava com a banda mais
populista e fisiológica das direitas.
Com a queda de Dilma por absoluta ingovernabilidade, o PT
resolveu sustentar sua aposta anterior numa lógica de guerra e construiu a
falsa narrativa do impeachment como golpe. Deu certo apenas
para que a performance de vítima atraísse o apoio passivo de
um eleitorado de centro-esquerda que, por falta de lideranças enérgicas nesse
campo político, perdera a memória das lutas democráticas dos 70 e 80.
Isso, mais a perda de bússola do restante do centro e a
resignação prática de quase toda a direita à hegemonia bolsonarista, assegurou
ao PT o lugar de única oposição relevante a uma extrema-direita que rapidamente
se tornara uma alternativa de poder a partir de uma disputa com o mesmo PT pelo
lugar de oposição mais feroz ao governo Temer. Disputa que acabou empatada
graças à ação demolidora da Lava Jato. Aquela operação, depois de
ter dado gás providencial à queda de Dilma, com tratamento arbitrário e
demagógico do problema sério e real da corrupção na Petrobrás, voltou suas
baterias para o governo Temer, eliminando as chances de um entendimento de transição
política naquele momento.
Estavam constituídos e confrontados, no segundo turno das
eleições de 2018, os dois polos beneficiários da prevalência da lógica da
guerra sobre a da política. E cá ainda estamos até hoje, numa mixórdia já agora
resultante das decisivas digitais da extrema-direita, que não tinha espaço nos
tempos das alianças democráticas, em que vigorava a lógica da política e não a
da guerra. Todo um contexto internacional não pode deixar de ser trazido à
consideração como fator agravante e relevante, mas isso não impede que se
aviste o papel decisivo que teve esse giro interno da política plural para a
pura e simples guerra eleitoral. A esquerda adversativa de hoje já não prega
uma ditadura do proletariado, promovida por uma vanguarda revolucionária. É
sectária, mas não é louca nem rasga votos ou dinheiro. Mas o que chama de
democracia não se afasta muito da imagem de uma ditadura do povo, guiada por um
chefe populista respaldado por um aparelho partidário que ao mesmo tempo
respalda-se nele.
Com essa descrição não pretendo dizer que o atual governo é
só isso. Seu perfil heterogêneo permite uma ambiguidade que ainda o situa no
horizonte de preferências de democratas de diversas filiações. Essa ambiguidade
é compatível com o perfil atitudinal do presidente. Mas como não há programa
nem confiança mútua nesse ajuntamento apenas pragmático e pouco cuidadoso com
ritos institucionais, a interação entre o presidente e seu partido é a única
relação estável que não exige barganhas constantes. O resultado é que apesar da
retórica de frente democrática, nem uma frente de esquerda plena o governo
consegue expressar. Lula flutua sobre um governo de alma líquida e cabeça
lulo-petista.
Um país entregue a essa liquidez manejada por uma
mentalidade hegemonista e patrimonial e com uma oposição até aqui incapaz de se
livrar de uma sombra extremista tem o seu futuro imediato lido em duas chaves,
a depender do polo em que se formula a solução: liberdade para o mito que está
preso ou sua reconstrução pelo outro mito, após um prazo mais longo de
tratamento de uma herança maldita.
O problema desse raciocínio é que se prende a uma ficção.
Não haverá essa disputa no mundo real. A direita recicla-se e busca nova carta
para seguir jogando sem o mito preso. No centro do espectro político há
espaços, no eleitorado, para programa e candidatura de oposição democrática,
distintos do campo imantado pelo bolsonarismo. Somente na esquerda e
centro-esquerda a situação está até aqui congelada. Devem marchar juntas, só
não sabemos ainda se em aliança mesmo ou se por gravidade, o que não importa a
quem crê que o poder resolve todos os problemas. Mas o fato de a realidade
objetiva ser essa não impede que, no plano simbólico, a luta entre os dois
dragões da maldade e respectivos santos guerreiros continue como se, entre 2022
e esse quase 2026, o Brasil tenha vivido uma era glacial.
Como em política não se deve desprezar a força do simbólico,
penso que essa luta particular, vendida como a questão nacional, deve continuar
a ser analisada. Nela, a vantagem ainda é do mito que se encontra em liberdade.
Além dessa, nada desprezível, a vantagem é dupla. Está no poder e tem um
passado a alegar como base da reconstrução que anuncia, como anunciava em 2022.
Mas as dificuldades existem e também são duas, que se completam: o passado não
retorna e Lula governa sem horizontes.
*Cientista político e professor da UFBa

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