É preciso estabelecer metas, prazos, condições e
responsabilidades para a redução, no ritmo possível, do uso dos combustíveis
fósseis para assegurar vida melhor no futuro
A ausência de qualquer referência à expressão “combustíveis
fósseis” no documento final da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do
Clima (COP-30), que se reuniu em Belém, dá a sensação de que alguma coisa muito
importante para o futuro da humanidade foi deixada de lado. A sensação tem
motivos. Um “mapa do caminho”, nome precioso de um roteiro que se pretendia
desenhar para a transição energética que levasse à redução do uso de
combustíveis fósseis até seu fim em algum momento, chegou a ser discutido com
intensidade, mas nada disso apareceu no documento final. Houve, em alguns
grupos ativos nas discussões, certa descrença na capacidade dos líderes
mundiais de encontrar respostas efetivas para o aquecimento global.
Reunidos entre os dias 10 e 22 de novembro,
representantes de 195 países aprovaram por consenso 29 decisões. O aumento
expressivo dos recursos para o financiamento de programas de adaptação nos
países mais vulneráveis, o reforço das ações multilaterais para discutir o
problema e a participação ativa dos povos originários são pontos positivos
destacados nos resultados da COP-30. Entretanto, segundo o jornal britânico
Financial Times, o documento final teve um caráter “brando e diplomático”.
Embora não tenha constado do documento, a questão da
transição energética com vistas ao abandono do consumo de combustíveis fósseis
foi muito discutida durante a COP-30. No rascunho da declaração final, alguns
países conseguiram inserir a questão. Cerca de 80 países apoiavam a iniciativa.
No entanto, outros 80 eram frontalmente contrários a qualquer citação da
expressão no documento final. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva retornou a
Belém antes de o texto final ser fechado, para dizer que a COP precisava
“começar a pensar como viver sem combustível fóssil”. Lula conversou com
diferentes líderes. Não adiantou. No segundo rascunho, foi apagada toda
referência a petróleo, carvão e gás.
Houve quem lembrasse que, pouco antes, o presidente
brasileiro lutara para que organismos ambientais brasileiros aprovassem a
exploração do petróleo da Margem Equatorial, região que se estende por cerca de
2 mil quilômetros entre os Estados do Amapá e Rio Grande do Norte e é
considerada uma das mais promissoras do mundo. Ela inclui a foz do Rio
Amazonas. Não seria contraditório propor a inclusão da necessidade de se pensar
num mundo sem combustível fóssil e, ao mesmo tempo, iniciar planos de exploração
em grande escala de novas jazidas de petróleo próximas a áreas que precisam ser
protegidas? De fato, muitos veem contradição nisso.
É mais do que clamorosa a necessidade de se estimular o uso
de fontes renováveis e ambientalmente limpas de energia, de modo a substituir
os combustíveis fósseis. Isso está sendo feito, com o uso crescente de outras
fontes. E o Brasil tem se destacado em relação ao resto do mundo na mudança de
sua matriz energética, no sentido da utilização crescente de fontes renováveis
– e limpas.
Carvão mineral, petróleo e derivados e gás natural respondem
por 81% de toda a energia consumida no mundo, de acordo com dados da Agência
Internacional de Energia (IEA) de 2022. Biomassa e energia hidráulica respondem
por apenas 11,3%. Já no Brasil, petróleo e derivados, gás natural e carvão
mineral respondem por 48,1% da energia consumida, enquanto fontes renováveis
(derivados de cana-de-açúcar, hidráulica, lenha e carvão vegetal, eólica e
solar e outras fontes renováveis) correspondem a 50% da matriz energética
(energia nuclear e outras fontes não renováveis completam a matriz).
Destaque-se que o Brasil tem tido papel de liderança no uso de biocombustíveis
derivados de biomassa, como o etanol (cana-de-açúcar) e o biodiesel (a partir
de óleos vegetais e gordura animal).
Há, porém, que se entender que o fim do consumo de
combustíveis fósseis não ocorrerá de um momento para outro, apenas por decisões
de governos. Econômica, social e tecnicamente, a mudança tem de ser gradual.
Não é sensato pretender que daqui a dois, dez ou 20 anos o sistema de
transporte mundial, por terra, mar e ar, utilizará apenas combustíveis de
fontes renováveis.
E a COP-30 mostrou que, a despeito de não ter sido incluída
em seu documento final, a discussão do tema “combustíveis fósseis” passou a
fazer parte da agenda das conferências sobre clima. Em entrevista à Folha de S.
Paulo, o presidente da COP-30, embaixador André Corrêa do Lago, disse que o
tema “trouxe uma nova dimensão para a COP e aumentou sua relevância política”.
Há, sim, um “mapa do caminho”. Embora ele não tenha sido
seguido em Belém, deu um sinal importante para as próximas conferências
mundiais de mudanças climáticas. É preciso estabelecer metas, prazos, condições
e responsabilidades para a redução, no ritmo possível, do uso dos combustíveis
fósseis para assegurar vida melhor no futuro, sem sacrificar excessivamente a
vida no presente.

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