Democracias não morrem apenas de golpe de Estado, embora
tentativas continuem acontecendo
Elas sucumbem sufocadas pela indiferença de uma população
que deixa de acreditar no voto e pela incapacidade de líderes de entregar
soluções
A democracia
não morre apenas de golpe de Estado. Levitsky e Way argumentam em
"Competitive Authoritarianism: Hybrid Regimes After the Cold War" que
sua derrocada nem mais prescinde desse ato, muito embora, como testemunhamos
há pouco, golpes continuem a ser tramados e executados.
A democracia sucumbe lentamente, sufocada pela indiferença
de uma população que deixa de acreditar que o voto muda algo e pela
incapacidade de seus líderes de entregar soluções para os problemas que mais
importam. Vivemos esse momento.
Apesar de o mundo ter registrado recorde de eleições em
2024, com mais de 50% da população global indo às urnas, a democracia global
atingiu seu mais baixo índice de vitalidade desde 2006, segundo o Democracy
Index da EIU (Economist Intelligence Unit). É o resultado de três fatores
interligados que ameaçam as fundações de nossas sociedades abertas.
O primeiro, e mais visível, é o crescimento de forças
políticas abertamente autoritárias. Sob a retórica da liberdade, esses
movimentos contestam direitos e sabotam o exercício das instituições para que
funcionem como democráticas apenas por aparência.
Ainda segundo a EIU, 39% da população mundial vive sob
regimes autoritários, e o número de países nessa categoria subiu para 60. Na
América Latina, embora o apoio à democracia tenha mostrado leve recuperação,
chegando a 52%, um preocupante contingente de 25% da população se declara
indiferente ao regime político, como aponta o relatório anual Latinobarómetro
2024. Esse é um terreno fértil para o autoritarismo.
Isso nos leva ao segundo fator: a crescente incapacidade das
democracias de entregar o que prometem. Como bem já apontou a cientista
política Maria
Hermínia Tavares de Almeida, a persistência da pobreza e da profunda
desigualdade social corrói a adesão ao projeto democrático.
A encruzilhada em que nos encontramos é clara, mas não
intransponível. A democracia ainda respira, resiste e oferece a possibilidade
de mudança pacífica e consensual. Mas para que não seja apenas resiliente —e
para que seja verdadeiramente transformadora— precisamos reconhecer que o
problema não é externo. Ele está na nossa incapacidade de construir políticas
públicas robustas e inclusivas, que entreguem direitos e oportunidades.
O problema está na falta de ambição em preparar as
sociedades para os desafios do século 21. E está, sobretudo, na resignação
diante do óbvio: que um regime autoritário é, por definição, incapaz de
oferecer as respostas complexas e colaborativas que um mundo em transformação
exige. A democracia não precisa de salvadores, mas de cidadãos e líderes
dispostos a fazer o trabalho árduo de construir um futuro mais justo e
sustentável. Ainda há tempo. A pergunta é: teremos a coragem de tentar?

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