Nada do que estamos assistindo é estranho à história da
formação da sociedade estadunidense, marcada pela violência da colonização, que
é a semente de suas relações com o mundo, dos tempos ingleses e espanhóis dos
primeiros aventureiros até aqui: animus de beligerância à beira da
barbárie sem descanso, que, aos olhos da humanidade de hoje, apenas se
aprofunda, pragmaticamente desapartada de limites éticos ou de cuidados
semânticos, aposentado o vencido cinismo liberal do discurso “politicamente
correto”.
O big stick permanece a postos; variável é tão-só
a fala.
O far west não é um só momento da
saga dos pioneiros. É uma ideologia de expansão e domínio. É o direito (ou a
força que se transforma em direito) que se legitima pela efetividade. Ou, para
usar termos mais amenos, que se efetiva pela sua naturalização.
Frantz Fanon já nos falou sobre a alienação do colonizado, reproduzindo como
seus os interesses do colonizador. Há pouco nos foi dado conhecer as
incursões mais ou menos bem-sucedidas de políticos brasileiros de extrema-direita
obrando junto à Casa Branca contra interesses nacionais. Igualmente são
públicas as tratativas de plantadores de soja e exportadores de carne
negociando, em nosso nome, em Washington, o tarifaço de
Trump.
O direito das gentes é a força que se faz valer e respeitar,
como antes se faziam respeitar as legiões romanas, como hoje
os marines (com o arsenal atômico de Washington em seus espadares)
ditam a “nova ordem mundial”. Tragédia ou farsa, a “Conquista do Oeste” é a
conquista do mundo, uma saga que começou quando os primeiros hominídeos
desceram das árvores.
O far west não é um momento passado, vencido ou
superado. É uma política vigente.
A violência, insisto – porque está no eixo explicador da
história presente – é o traço formador da alma dos EUA: a ocupação do vasto
território; a conquista do Oeste; a deliberada destruição das civilizações
nativas; a escravidão luciferina; o racismo levado ao paroxismo; o macarthismo
no século XX; e, em pleno século XXI, a violência contra imigrantes em país
construído por imigrantes, e a sobrevivência da inominável Ku Klux Klan. As
muitas guerras, nenhuma em defesa de seu território (jamais ameaçado); todas
elas guerras de agressão, quase todas guerras de conquista territorial, de que
é exemplar a guerra contra o México (1848) e a usurpação de nada menos do que
55% de seu território original.
Não há, pois, por que cuidar do trumpismo — ainda que sua violência
espante até os súditos mais fiéis — como um fenômeno próprio. Jamais um
surto pananoide.
Como dizia Ernest Renan, “a nação é uma alma, um princípio
espiritual”. A “alma estadunidense” é filha e mãe de sua história.
E nada mais estadunidense do que a índole do imperialismo —
desnaturado ainda pela explosão do capitalismo monopolista, desnaturado por
necessidade de expansão sem freios. O capitalismo é um Leviatã que não pode
parar de crescer, de expandir-se; romper limites é o determinismo de sua
pantagruélica fome cosmológica.
Lênin, escrevendo em 1916 ("Imperialismo: fase
superior do capitalismo"), ditava que “o imperialismo é o capitalismo
em sua fase superior, caracterizado pela dominação dos monopólios e do capital
financeiro, pela exportação de capitais, pela partilha do mundo entre os
grandes trustes internacionais e pela conclusão da partilha territorial do
globo entre as grandes potências capitalistas”. Não foi lido pelos
estrategistas brasileiros. Épena, pois ainda é preciso dizer-se que imperialismo
não é apenas política externa, mas uma estrutura histórica do capitalismo,
resultante da fusão entre capital bancário e industrial e da necessidade
sistêmica de expansão, a que, antes, se referiu Marx: o capitalismo depende de
sua expansão, e esta expansão depende da conquista permanente de mercados, da
conquista de territórios e de riquezas, de matérias-primas e insumos
e, sempre de mercado consumidor.
Para tudo isso, vale-se ainda da conquista ideológica do
domínio da narrativa que construirá o real.
O imperialismo norte-americano, este de que cuidamos, começa
a tomar o corpo contemporâneo no encontro da explosão de seu alto
desenvolvimento capitalista com a decadência da Europa, despreparada para o fim
da exploração colonial (a irremovível decadência cíclica dos impérios).
A autodepredação da I Guerra Mundial semeia o terreno para a
emergência de fenômenos siameses: a crise econômica continental; a
recuperação econômico-militar da Alemanha; o nazifascismo; o Eixo; a guerra; e,
com a guerra, a segunda morte da Europa. Os vitoriosos, antípodas, são os EUA e
a URSS, que, aos trancos e barrancos, arregaçam as mangas para
construir o “novo” mundo em disputa, ora fatiado, ora ceifado ao meio
expondo os espaços nos quais as potências nucleares vão exercer, sem peias, seu
domínio.
Eram os tempos da polaridade militar-ideológica entre
capitalismo e socialismo. Cada um cuida do seu quinhão, de sua área de
influência. Sabe-se como tudo terminou.
Os EUA, os grandes vitoriosos — campeões em todas as
frentes: militar, econômica e político-ideológica —, são o novo regente, guia e
tutor do Ocidente. Cuidam de arrumar a casa... para si (arrumar a casa é
reorganizar o mundo segundo seus interesses como líderes planetários).
Na Conferência de Bretton Woods (1944, portanto antes da
rendição da Alemanha e das bombas atômicas sobre o Japão, em 1945), reuniram
delegados de 44 países aliados para definir o novo sistema monetário e
financeiro. Estabeleceu-se uma nova ordem monetária internacional, tornando o
dólar a moeda central da economia global, moeda de referência internacional,
que os EUA poderiam emitir, e podem até hoje, e emitem livremente,
seguindo apenas como parâmetro interesses políticos, econômicos ou estratégico-militares.
Para seu suporte e intervencionismos sem conta, são criadas
instituições de atuação global como o BIRD, o FMI e o Banco Mundial e, em 1947,
o GATT (semente da hoje escanteada OMC). Passados 82 anos da histórica cúpula
capitalista num bucólico vilarejo nas montanhas de New Hampshire, esta é ainda
a base estrutural-financeira da hegemonia do imperialismo, a base material do
que se chamou de “século americano”, que igualmente se aplica às primeiras
décadas deste indócil século XXI.
Permanecem globais e onipotentes as instituições inventadas
para controlar e estabilizar o sistema financeiro, que, controlando os grandes
capitais, os grandes investimentos e os grandes fluxos, transformam-se também
em instrumentos de reprodução da dependência.
Mesmo perdendo força (coisa que os senhores da guerra não
ignoram), o dólar segue como principal moeda de reserva, e os EUA conservam o
poder de financiar seus déficits em sua própria moeda. Caso único.
Seguiram-se os muitos anos de disputa entre o império
americano e a URSS de então, emergente e vitoriosa, inclusive militarmente. No
contrapelo surge a “Cortina de Ferro”; são os ventos da Guerra Fria, timbrados
também pelos frustrados esforços soviéticos tanto de concorrência quanto de
“convivência pacífica”, afinal sepultados com o fracasso da Perestroika.
A polaridade Ocidente-Oriente, EUA-URSS,
capitalismo-socialismo dissolve-se como neve no verão com a simbologia da queda
do Muro de Berlim (1989), mensageiro da falência militar, política, econômica e
ideológica do projeto soviético, esgotamento político que traria consigo a
frustração da experiência socialista, que à humanidade não foi dado conhecer.
A polaridade é substituída pela hegemonia do capitalismo monopolista, esta de
hoje, determinante do caráter do imperialismo dos EUA, sua locomotiva, seu aríete,
seu beneficiário.
Entra em cena um terceiro personagem.
A China é ator que construiu quase monopólios em terras raras: segundo dados
disponíveis, detém 25 mil patentes sobre esses elementos; garantiu acesso
preferencial a minerais na África e na América Latina; articulou financiamento,
infraestrutura e suprimento via a Nova Rota da Seda. Mas não só. Avançou
extraordinariamente em educação, ciência, tecnologia e
inovação, e hoje é a segunda potência econômica do
globo, vis-à-vis a economia dos EUA, da qual se aproxima. Por força
desse desenvolvimento, tornou-se a “fábrica do mundo”.
Este é seu poder, mas pode ser, igualmente, seu calcanhar de Aquiles: seus
produtos precisam ser vendidos (transformados em receita, divisas), o que
depende de mercados. Estudos desenvolvidos nos EUA indicam a concorrência
econômica e tecnológica com a China, apontando a superação dos EUA em algo como
vinte anos.
Esta prospecção não está, como não poderia estar, ausente dos gabinetes civis e
militares de estudos estratégicos em todo o mundo. O poderio militar dos
EUA continua de pé, e é nele que os avanços da política se assentam.
Mas o poderio econômico dos EUA — nada obstante a evidência de serem ainda hoje
a maior potência do mundo — dá sinais, senão de esgotamento, de cansaço,
sugerindo a impossibilidade de manter a liderança mundial frente
ao avanço chinês, que, até aqui, parece não conhecer tropeços. O palpável
é que a China prossiga no desenvolvimento, proteção e sustentação de sua malha
comercial mundial, que inclui a Rota da Seda e seus investimentos de toda
ordem, mas inclui igualmente o mercado norte-americano. Como inclui o mercado
europeu e o latino-americano. Não estamos fora disso.
A tradição milenar do Império do Meio ensinou-lhe a consciência da grandeza
territorial e o isolamento (o auto bastar-se), que também o apartou
da necessidade de expansionismo. Isto está presente na geopolítica de hoje,
mesmo considerando a política de hostilidade dos EUA. Seu cinturão de segurança
não é o mundo, mas seu entorno, nomeadamente Taiwan e o Mar do Japão.
A recuperação da antiga Formosa, província desgarrada por Chiang
Kai-Shek, em sua fuga ao perder o confronto com as tropas
de Mao Zedong, pode ser transformada, porém, em necessidade de
guerra e, ao lado de tudo isso e por tudo isso, em necessidade de consolidação
estratégica, industrial e de segurança, em face de seu alto desenvolvimento
tecnológico, nomeadamente em chips.
Afora esse nível de contingência, a China não se deslocará da China.
A Rússia, sem dúvida o segundo arsenal atômico do mundo, não tem por que pensar
nas dores do mundo: cuida de sua soberania, e sua prioridade óbvia é a guerra
contra a Ucrânia e o enfrentamento às ameaças da OTAN, que visa à sua
sufocação. São óbvias suas prioridades, e é óbvia a necessidade de manter o
canal de interlocução com os EUA, onde, por sem dúvida, se negociam interesses.
A China, porém, com seu comércio mundializado, e assim muito quedada
na dependência do desdobrar da política americana — aquela que
se discute entre o Departamento de Estado e o Pentágono -- , pode
ser levada a rever sua estratégia militar, hoje defensiva.
À ausência de contendores de seu peso, os EUA permanecerão no centro da
arena como digladiador, a um tempo único e imbatível.
A história caminha suas pegadas. Sustentado pela mais poderosa máquina militar
jamais conhecida pela humanidade, e tanto onipresente no mundo de hoje quanto
as legiões romanas no pequeno mundo daquele então, permanentemente em busca da
conquista de mais espaços de presença, como de sempre na Europa, com a
ocidentalização e a otanização das antigas repúblicas soviéticas; no
Oriente, como na Síria, como na Líbia, como no Irã, como na Palestina; como na
Groenlândia; como na América Latina, o grande “quintal” a ser preservado. Nele,
talvez constituindo sua porção mais estratégica, entre o Caribe,
a Amazônia e os Pampas, entre o Pacífico e um Atlântico vastíssimo, a rota
livre do Ocidente. E sobre as riquezas naturais do subcontinente, que
não se esgotam no petróleo confiscado da Venezuela.
O mundo, visto de hoje, é a “América” dos EUA. Mas a história não é um fato
dado,completo, morno, acabado; nos seus alicerces, quase sempre
muito profundos, o processo social é senhor de baraço e cutelo, sempre
protegido de nossas especulações, porque os cientistas políticos carecem
de instrumentos objetivos de captação do fato antes que ele salte à
realidade.
A crônica conta o diálogo entre dois sábios: Magalhães Pinto e José Maria
Alkmin contemplavam os céus das alterosas e filosofavam sobre a política
mineira: os fatos, como as nuvens, mudavam de rumo e de forma à mercê dos
ventos.
***
A encruzilhada e o inimigo principal — Enquanto o
império desabrido e o terror sionista dirigem sua guerra híbrida ao Irã,
governado a mão de ferro pelo islamismo xiita (em si, como uma
teocracia, irrecusável anacronismo), vozes progressistas de variados
matizes ecoam esforço comovente em busca de um lugar que a história,
sobretudo em seus momentos mais dramáticos, se nega a fornecer: o da
neutralidade. O lema “fora todos”, mais uma vez, exprime preocupações
legítimas, que não devem ser abandonadas — mas, à falta de concretude
(não há terceira via no horizonte), resulta tão-só numa proclamação de virtude,
e uma envergonhada tomada de posição. Pode resolver justos
problemas de angústia existencial, sempre personalíssimos, mas não enfrentará o
cerne da questão: a leitura dialética do fato histórico.
Amor à guerra — Artigo do conselho editorial do The Washington Post,
de propriedade do magnata Jeff Bezos, publicado em 14/01, celebra o orçamento
militar pretendido por Donald Trump, de US$ 1.5 trilhão (aproximadamente 5% do
PIB dos EUA). Ao final, o texto menciona os custos envolvidos no recente ataque
ao Irã (com mísseis Tomahawk ao preço unitário de U$ 2.2 milhões), e pede que o
leitor imagine o custo de um conflito, possivelmente tanto necessário quanto
prolongado, com a China. O establishment vê à frente.
Adeus a Rex Nazaré — Meu saudoso amigo Rex Nazaré foi um físico brasileiro
de destaque; sua trajetória se confunde com os esforços — muitas vezes
tensos e contraditórios — de construção de um projeto nuclear nacional. Com
sólida formação acadêmica e atuação relevante na pesquisa em física nuclear,
teve papel importante na CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear),
participou da formulação e da execução de políticas científicas e tecnológicas
voltadas à autonomia do país nesse setor estratégico, para o qual a classe
dominante alienada torce o nariz. Para além da institucionalidade, esteve
ligado à chamada tentativa de um “projeto nuclear alternativo”, desenvolvido à
margem — e por vezes em confronto — com o modelo adotado pelo governo militar,
especialmente aquele associado aos acordos internacionais e à dependência
tecnológica externa. Essa participação, longe de episódica, expressava uma
convicção: a de que o domínio do ciclo nuclear deveria servir a um projeto
soberano de desenvolvimento científico e industrial. Professor e pesquisador,
Rex Nazaré formou gerações e deixou uma marca duradoura no debate sobre
ciência, Estado e soberania no Brasil, ocupando papel
singular — crítico e, ao mesmo tempo, comprometido — na história
do projeto nuclear brasileiro. Ainda hoje, um projeto por ser.
*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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