A Europa tem um papel fundamental na construção de um
sucessor para a ordem global liderada pelos EUA
Na reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na
semana passada, ouvimos Donald Trump proferir um discurso desconexo, permeado
por sua já conhecida mistura de ressentimento e megalomania. Também ouvimos
Mark Carney, ex-banqueiro central e agora primeiro-ministro do Canadá, fazer um
discurso brilhante sobre o fim da velha ordem e as opções para as chamadas
“potências intermediárias”. Este último foi o acontecimento mais importante.
Carney começou citando um ensaio de Václav Havel, escritor,
dissidente e o primeiro presidente da Checoslováquia pós-comunista. No texto,
Havel sustentava que o comunismo se mantinha, nas palavras de Carney, “por meio
da participação de pessoas comuns em rituais que, no fundo, elas sabiam ser
falsos”. De modo parecido, argumentou Carney, “em grande medida evitamos
apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade” daquilo que chamávamos
de “ordem internacional baseada em regras”.
Mas, no mundo atual da interdependência
instrumentalizada, “não se pode viver da mentira do benefício mútuo por meio da
integração quando a integração passa a ser a fonte da sua subordinação”. O
momento atual, disse ele, marca “uma ruptura, e não uma transição”. Ele está
certo.
Carney insistiu que a velha ordem não só não vai voltar,
como “não deveríamos lamentá-la. A nostalgia não é uma estratégia”. A frase
seguinte (“Acreditamos que, a partir da ruptura, podemos construir algo melhor,
mais forte, mais justo”) é uma esperança, mas também não é uma estratégia. Um
analista sóbrio precisa se perguntar se, e até que ponto, ela pode vir a se
tornar uma.
Se quisermos transformar esperança em realidade, é preciso
reconhecer que o paralelo que ele traçou entre as mentiras que sustentaram o
comunismo e aquelas que legitimavam o antigo regime global é enganoso. As
primeiras, eram mentiras descaradas: os antigos regimes do Leste Europeu
fracassaram em todas as dimensões em relação à Europa Ocidental. As segundas,
porém, eram melhores até do que meias-verdades.
A resolução de disputas no âmbito do Acordo Geral sobre
Tarifas e Comércio (Gatt) e da Organização Mundial do Comércio (OMC), por
exemplo, era frequentemente eficaz, mesmo contra os Estados Unidos. Como o
próprio Carney observa: “A hegemonia americana, em particular, ajudou a prover
bens públicos: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável,
segurança coletiva e apoio a estruturas para a resolução de disputas”. A ordem
liberal estava longe de ser uma mera ficção.
Muito mais importante ainda, o período pós-Segunda Guerra
Mundial foi, em termos gerais, um sucesso enorme e sem precedentes. Desde a
Guerra da Coreia, no início dos anos 50, não houve guerra direta entre grandes
potências. A disseminação da prosperidade e as melhorias na saúde em grande
parte do mundo também não têm precedentes. A abertura da economia mundial ao
comércio e aos investimentos deu uma contribuição vital para isso: qualquer
chinês ou indiano sensato concordaria.
Quanto às dificuldades de ajuste em alguns países, sobretudo
nos EUA, elas decorrem de escolhas políticas feitas pelos mais prósperos. O
resultado tem sido o protecionismo caótico de Trump. Mas ele não conseguirá
amparar as pessoas que afirma querer ajudar: trata-se de uma fraude.
Resumindo, a integração foi fonte tanto de prosperidade
quanto de vulnerabilidade. O sistema esteve longe de ser uma mentira, mas
acabou se transformando em uma, à medida que o mercantilismo de uma China em
ascensão se combinou com o protecionismo de um EUA em declínio. O resultado foi
forçar os países a se protegerem por meio de estratégias de mitigação de
riscos. Mas, não se engane, essa postura defensiva terá um custo elevado.
A abertura da economia mundial ao comércio e aos
investimentos contribuiu para a disseminação de uma grande prosperidade no
pós-guerra. Mas essa integração também gerou vulnerabilidades, que resultaram
no protecionismo caótico dos EUA de Trump
Então, para onde devemos ir a partir daqui se quisermos
minimizar as perdas causadas pela ruptura? A recomendação da Carney é que haja
acordos entre as “potências intermediárias” como uma alternativa a um “mundo de
fortalezas”. Sua abordagem se baseia no que Alexander Stubb, presidente da
Finlândia, chama de “realismo baseado em valores”: o Canadá será “guiado por
princípios em seu compromisso com valores fundamentais”, ao mesmo tempo em que
irá “se engajar de forma ampla e estratégica, com os olhos bem abertos”.
Suponhamos que todas as potências intermediárias sigam uma
direção semelhante; onde isso funcionaria melhor, onde funcionaria pior e o que
mais seria necessário para que os problemas fossem resolvidos?
Comércio e investimento são as áreas mais fáceis de
sustentar. O colapso das velhas regras cria uma incerteza custosa,
especialmente em relação ao comércio com os EUA. Ainda assim, estes responderam
por apenas 17% das importações mundiais de bens em 2024. É um mercado grande,
mas não é o único.
Dinheiro e finanças são mais complicados. As potências
intermediarias permanecerão vulneráveis à coerção dos EUA por meio do uso do
dólar e da dependência do sistema financeiro americano, a menos que haja alguma
reforma radical. O uso do yuan não é uma solução: apenas cria outra
vulnerabilidade.
A segurança é um desafio ainda mais difícil. O mundo conta
com três superpotências nucleares claras e duas potências militares plenas. Há
um limite para a capacidade da maioria das potências intermediárias de prover
segurança para si mesmas e para seus parceiros. Diante de algumas ameaças -
como a pirataria, por exemplo -, elas podem ser eficazes. Mas contra outras,
isso se mostrará bem mais complicado.
Ainda mais difícil será garantir certos bens públicos
globais, sobretudo ações contra as mudanças climáticas, se uma ou mais
superpotências se opuserem ferozmente. Nesse caso, será necessária uma
cooperação global - e talvez até sanções contra os EUA.
Quanto mais se examina o que está por vir, mais importante a União Europeia se torna - aos olhos de Trump, o maior inimigo -, como argumenta meu colega Martin Sandbu. A cada dia que passa, mais responsabilidades e poder são impostos à União Europeia, em todos os domínios. Felizmente, ela não está desarmada. Como observa Robert Shapiro, subsecretário do Comércio no governo de Bill Clinton, a alavancagem financeira da Europa sobre os EUA é substancial. Ela precisa usá-la.
Em seu livro, escrito no exílio, Stefan Zweig (escritor austríaco judeu que se suicidou no Brasil em 1942), descreveu o mundo perdido da Europa anterior à Primeira Guerra Mundial. Nós também estamos perdendo um mundo. Ele também era imperfeito, embora muito melhor do que aquele. Desta vez, a Europa precisa ser uma salvadora, não uma destruidora. O Reino Unido também terá de se juntar às lutas que se avizinham. (Tradução de Mário Zamarian).

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