Donald Trump não se constrange ao expor o imperialismo
norte-americano em sua nudez, sem máscara, sem roupa. É um imperialista sem
hipocrisia
Donald Trump foi eleito com o lema "America
First", mas governa promovendo a "America Naked" (América nua).
Faz o strip-tease da democracia norte-americana, como se a Estátua da Liberdade
estivesse se despindo diante do mundo. Para começar, se desfaz da tocha que usa
desde 1886 como ícone de boas-vindas aos imigrantes e impõe muros, deportações
e mortes, divide famílias, tratando imigrantes como invasores indesejáveis, não
gente.
Despe-se da máscara de intervenções em outros países
travestidas de intenções democráticas e assume a face autêntica de roubar
petróleo, terras raras e territórios. Quase todos os seus presidentes agiram de
forma semelhante com discursos dissimulados. John Kennedy impôs o bloqueio a
Cuba. Lyndon Johnson e Richard Nixon colocaram porta-aviões no litoral para
apoiar golpes, inclusive no Brasil, impor ditaduras sempre sob discurso de
promover democracia.
A ameaça de ocupar a Groenlândia apenas
repete a história. Em 1848, o presidente James K. Polk invadiu e incorporou aos
Estados Unidos parte considerável do território mexicano, dando origem aos
atuais estados do Texas, Califórnia, Nevada, Utah, Arizona, Novo México e
partes do Colorado e do Wyoming. Em 1867, o presidente Andrew Johnson comprou o
Alasca da Rússia, ampliando o território dos Estados Unidos em cerca de 30%.
Naquele mesmo ano, houve tentativa de comprar a Groenlândia.
Trump desnuda a roupa da liberdade de opinião quando revoga
vistos por divergências políticas antigas com a vestimenta de proteger a
democracia contra a União Soviética. O mesmo ocorre quando tenta controlar
universidades e cortar verbas de instituições que não se enquadrem no
negacionismo anticientífico.
Embora, desde Monroe, a América Latina tenha sido tratada
como protetorado, com "veias abertas" e "mentes tapadas",
nenhum outro presidente aceitaria posar simbolicamente como "presidente
interino" de um país latino-americano. Trump não se constrange ao expor o
imperialismo norte-americano em sua nudez, sem máscara, sem roupa. É um
imperialista sem hipocrisia.
O que talvez Trump não perceba é que, ao desnudar a América,
desnuda a própria democracia nacional, estabelecida de forma inspiradora há 250
anos. Ao perseguir estados governados por opositores do partido democratas,
Trump desnuda o próprio conceito fundador dos Estados Unidos como união de
estados cooperantes. Acena para a subversão maior de substituir Estados Unidos
por república americana, com um líder que manipula a lei para impor o que ele
deseja, tipo candidato a imperador.
Desnuda-se da hipócrita fantasia de que o "american way
of life" pode chegar a todos, americanos e estrangeiros. Não esconde que,
para manter seu nível de vida, é preciso apropriar-se de petróleo, terras raras
e territórios, expulsar imigrantes e cortar benefícios sociais dos
norte-americanos pobres — seus "instrangeiros", estrangeiros sociais.
Ao desprezar o multilateralismo e as questões ambientais em
um mundo globalizado, desnuda o que restava de humanismo em sua democracia.
Ameaça a humanidade, mas atende ao desejo da maioria do eleitorado. Desnuda o
"Make America Great Again" ao assumir que sua América é para poucos,
e nela não cabem imigrantes geográficos nem imigrantes geracionais que ainda
não nasceram. Mostra a nudez de uma democracia que é apenas eleitorcracia
nacional. Desfaz a ilusão de que a maioria dos eleitores representa o povo e que
o povo representa a humanidade. Ao tratar com desdém a crise ecológica, ele
representa o eleitor com automóvel que prefere gasolina mais barata no próximo
mês a evitar a elevação do nível do mar nas próximas décadas. O que ele diz e
faz é o que uma parcela expressiva do eleitorado deseja ver e ouvir.
Trump não é a causa; é a consequência. Surge como o maestro
do strip-tease da democracia americana na era da escassez: quando já não há
espaço para imigrantes estrangeiros, nem para os pobres nacionais, nem para as
futuras gerações. Mas, na nudez do sistema, ele mostra que a democracia corre o
risco de se reduzir a uma eleitorcracia nacional, sem valores humanistas.
Ao despir a democracia norte-americana, Trump pode despertar
democratas ainda humanistas a perceberem que a soberania do eleitor egoísta e
imediatista de um país leva ao divórcio entre democracia e humanismo, e que uma
"humanocracia" requer novos rumos para a civilização, sobretudo uma
democracia em que os eleitores nacionais e imediatistas tenham freios
humanistas, planetários e de longo prazo.

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