Bomba-relógio na França: dívida a 117,4% do PIB e
instabilidade política turbinam crise no país
Para financiar o rombo, incluindo a rolagem da dívida que
vence neste ano, o governo francês pretende emitir € 310 bi em títulos; só de
pagamento de juros, deverá desembolsar quase € 60 bi
Muitos analistas passaram a descrever a situação financeira
na França como uma bomba-relógio, diante da escalada dos juros pagos pelo
governo para vender seus títulos públicos, do crescente déficit fiscal e do
impasse político que resultou na troca de primeiro-ministro três vezes apenas
em 2025. O equilíbrio econômico e político é tão frágil neste momento que
qualquer choque – interno ou externo – poderá provocar uma grave crise de
confiança do mercado.
Há, agora, uma incômoda pergunta pairando
no ar: poderá a França deflagrar, em 2026, uma nova crise da dívida na Zona do
Euro como a que aconteceu em 2009, com a insolvência da Grécia, e que teve
consequências ao redor do mundo? Pela primeira vez desde a adoção do euro como
a moeda comum do bloco, em 1999, os juros pagos pelos títulos públicos
franceses superaram, no fim de 2025, a taxa cobrada para os papéis da Itália,
cujo endividamento e déficit fiscal sempre causaram nervosismo entre os
investidores. E, enquanto os títulos do governo francês de 10 anos de prazo
estão pagando juros ao redor de 3,6%, os da Alemanha pagam só 2,8%.
Com uma profunda fragmentação política, o Parlamento não
aprovou o Orçamento de 2026, forçando o primeiro-ministro Sébastien Lecornu a
lançar mão de uma legislação emergencial para evitar a paralisação da máquina
federal. É uma repetição do que aconteceu em 2025, quando a peça orçamentária
foi aprovada apenas em fevereiro, com um custo adicional de ¤ 12 bilhões.
A perspectiva de alguma restrição a gastos no novo Orçamento
é praticamente nula. Tanto assim que o Ministério das Finanças revisou a
previsão de déficit público em 2026, de 4,7% para 5,3% do PIB, quase inalterado
ante a estimativa de rombo de 5,4% em 2025 – o maior da Zona do Euro. Para
financiar o rombo, incluindo a rolagem da dívida que vence neste ano, o governo
francês pretende emitir cerca de ¤ 310 bilhões em títulos públicos. Só de
pagamento de juros da dívida, o governo deverá desembolsar quase ¤ 60 bilhões.
Não à toa, o “rating” soberano da França foi rebaixado de
AA- para A+ pela S&P Global e Fitch Ratings, enquanto a Moody’s cortou a
perspectiva da nota de estável para negativa. Entre os principais motivos: o
nível da dívida, que já atinge 117,4% do PIB, e a instabilidade política. Com a
aproximação da eleição presidencial de abril de 2027, não há qualquer incentivo
para partidos de esquerda, de centro e de direita pressionarem por cortes de
gastos ou medidas impopulares em 2026. Ou seja, há uma tempestade à vista.

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