A questão é que, ultimamente, no Brasil, estamos com medo
de falar e de escrever. Tememos a patrulha
Tempos em que dizer o que se pensa se tornou arriscado
autorizam a variação da famosa máxima filosófica “penso, logo existo”, de René
Descartes, para “digo, logo existo”.
Enquanto o “penso” estabelece a certeza da existência do
sujeito a partir da consciência da sua própria atividade mental (o pensamento e
a dúvida), a afirmação “digo” pode ser interpretada sob perspectivas que
enfatizam a importância da linguagem e da interação social na constituição da
existência humana.
O indivíduo só se torna plenamente
existente no momento em que se expressa e é reconhecido pelos outros. O ato de
dizer é o que o insere no mundo social e cultural.
A linguagem não é apenas um reflexo passivo do pensamento. O
ato de dizer é performativo; ele estrutura e nomeia a nossa realidade, dando
forma ao que pensamos. Se não dizemos, a nossa ideia permanece inarticulada e
“não existe” no domínio público. E, enquanto o pensamento é abstrato e interno,
o dizer é o passo para a ação. A fala concretiza a intenção, exigindo que o
sujeito organize o seu pensamento e o lance para o mundo exterior.
Os grandes saltos civilizatórios da humanidade resultaram de
pensamentos e palavras que lhes deram materialidade. Personalidades que
moldaram a história do mundo só o fizeram porque puderam manifestar-se. Esse
processo, por óbvio, não afastou o contraditório, os questionamentos e mesmo as
perseguições. Mas elas falaram. E transformaram. E impulsionaram a evolução dos
homens, das máquinas, do trabalho, da vida.
O que seria de nós se Confúcio, Sócrates, Platão,
Aristóteles, Newton, Darwin, Marx, Nietzsche ou Einstein não tivessem se
expressado livremente? E o que dizer de vozes como Gandhi, Mandela, Luther King
e tantos outros cujas palavras revolucionaram valores e a História?
É certo que a liberdade de expressão não foi facilmente
conquistada. Em boa parte do tempo, falar contra reis, chefes ou dogmas
religiosos podia levar a punições severas – muitas vezes até à morte – e
infelizmente ainda é assim em alguns pontos do planeta.
A prática da liberdade de expressão tem raízes na Grécia
antiga, mas só se consolidou como direito universal a partir do século 18.
Atenas tinha o conceito da “franqueza”, que permitia aos
cidadãos falar abertamente nas assembleias. Mas era restrita: mulheres,
estrangeiros e escravizados não tinham esse direito. No Império Romano havia
algum espaço para críticas, especialmente no Senado, mas imperadores
autoritários limitavam duramente o que se podia dizer. Já na Idade Média, a
liberdade de expressão praticamente inexistiu. Igrejas e monarquias controlavam
fortemente ideias e discursos.
Com o renascimento e o iluminismo (séculos 15-18), ao lado
do crescimento da imprensa e da filosofia, veio a valorização da livre
circulação de ideias. Autores como John Milton (1608-1674) e John Locke
(1632-1704) defenderam tolerância e liberdade de expressão.
A Revolução Gloriosa na Inglaterra (1688) e a Revolução
Francesa (1789), acompanhada da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,
trouxeram enunciados formais sobre esse direito. A Constituição dos EUA (1791),
com a Primeira Emenda, foi um marco jurídico de proteção à liberdade de
expressão.
A partir do século 19, esse direito foi sendo incorporado em
muitas constituições e, no mundo contemporâneo, a Declaração Universal dos
Direitos Humanos (1948), após a 2.ª Guerra Mundial, o sacramentou.
No Brasil, a Constituição de 1988 prevê a liberdade de
expressão como direito fundamental consagrado em diversos dispositivos,
principalmente no Título II – Dos Direitos e Garantias Fundamentais. O inciso
IX do artigo 5.º – que é um dos pilares do Estado Democrático de Direito –,
estabelece: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística,
científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.”
Como o exercício da liberdade de expressão deve ser
harmonizado com a proteção da dignidade da pessoa humana, a Carta Magna também
impõe limites e responsabilização em casos de violação da intimidade, vida
privada, honra e imagem das pessoas. Ainda, vedação a manifestações que
constituam calúnia, difamação, injúria, incitação ao ódio ou a atividades
ilícitas.
Vencemos séculos para conquistar o direito de pensar e
dizer. Nessa trajetória, construímo-nos mutuamente e aprendemos a responder
pelas ideias que tornamos públicas.
A questão é que, ultimamente, no Brasil, estamos com medo de falar e de escrever. Tememos a patrulha. Passamos a policiar rotineiras conversas por WhatsApp com familiares e amigos, pois a simples troca de mensagens, e mesmo contar piadas em locais públicos, pode levar a condenações ou prisões. Ficou perigoso se expressar. Submetemo-nos à autocensura, muito pior que a censura.
Aceitar tal condição é retroceder. É ressuscitar as sombrias épocas em que, mergulhados em escuridão, sussurrávamos sentimentos, opiniões e sonhos de liberdade. O silêncio é a manifestação mais comum da omissão, cujo preço a história irá nos cobrar.

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